Vida em outro planeta?
- Portal Saúde Agora

- 21 de abr. de 2025
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Cientistas da Universidade de Cambridge anunciaram com entusiasmo — um tanto exagerado — a potencial descoberta de indícios de vida em outro sistema solar. O termo “potencial” não está aqui por acaso. Nas duas últimas semanas, esta coluna alertou para os perigos do exagero no noticiário sobre ciência, vindo de comunicados à imprensa inflados com especulações e hipérboles. Este caso parece ser mais um que entra na lista dos hypes fabricados.
A notícia da vida em outro planeta da semana passada começou com um comunicado à imprensa da universidade sobre a descoberta de gases dimetil sulfeto (DMS) e dimetil dissulfeto (DMDS) no planeta K2-18b, que orbita uma estrela anã vermelha localizada a aproximadamente 124 anos-luz da Terra. O planeta está dentro da “zona habitável” de seu sistema, onde a temperatura permite a existência de água líquida, considerada um pré-requisito para a evolução da vida como conhecemos.
Observações feitas com o Telescópio James Webb permitem inferir os gases que compõem a atmosfera do planeta, e identificaram sinais compatíveis com DMS e DMDS. Na Terra, esses são gases produzidos por microrganismos, mais precisamente por cianobactérias e algas no fitoplâncton marinho. Uma explicação possível, portanto, seria a existência de vida microbiana em K2-18b.
Mas “uma” explicação possível não é a “única” explicação possível, e não justifica sair dizendo que este é um “momento revolucionário” na ciência. O que temos neste momento é especulação a respeito da composição atmosférica de um planeta, sobre o qual não se sabe muita coisa. Os autores do estudo especulam que pode ser um planeta com atmosfera rica em hidrogênio e oceanos repletos de microrganismos. Talvez seja. Mas talvez não seja. Talvez os gases nem estejam lá: isso ainda precisa ser confirmado. Talvez os gases estejam lá, mas sejam produzidos sem a participação de organismos.
Do jeito como foi dada a notícia, o público fica com a impressão de que realmente existe a certeza de que foi descoberta vida em outro planeta. O entusiasmo dos autores é compreensível, mas é preciso ser responsável na maneira de comunicar resultados. Uma notícia sobre gases na atmosfera de um exoplaneta pode não ter consequências diretas na vida das pessoas, mas se o sensacionalismo vira moda em notícias sobre ciência, na tentativa de torná-las mais atraentes em uma época quando a disputa pela atenção do público é cada vez mais violenta, corre-se o risco de haver perda de credibilidade.
No meio de tantas reportagens sobre a descoberta, e outras tantas denunciando o exagero, seria uma pena deixar passar a oportunidade de explicar por que a presença de microrganismos produtores desses gases poderia, se confirmada, ser realmente uma revolução.
Evidências sobre a origem da vida na Terra apontam para microrganismos marinhos como cianobactérias como os mais prováveis precursores da liberação de oxigênio na atmosfera. Acredita-se que há aproximadamente 2,7 bilhões de anos esses microrganismos adquiriram a capacidade de realizar fotossíntese, liberando oxigênio no oceano como subproduto. Com o tempo, o oxigênio dissolvido na água começou a ser liberado na atmosfera.
Esse fenômeno ficou conhecido como O Grande Evento Oxidativo e provavelmente também causou a primeira extinção em massa, já que o oxigênio era tóxico para a grande maioria das formas de vida da época. Os microrganismos anaeróbios continuaram existindo em locais sem oxigênio, e os organismos expostos à atmosfera foram selecionados nesse novo ambiente, dando origem às formas de vida que temos hoje. Pode-se dizer, sem exagero, que devemos nossa vida às cianobactérias do oceano. Encontrar algo parecido com elas em outro planeta será mesmo revolucionário.
Fonte: O Globo






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