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Tuberculose tem novo tratamento



A notícia da incorporação pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) do medicamento Pretomanida, o último que faltava para a composição de um esquema de tratamento encurtado para a tuberculose, especialmente de formas resistentes, trouxe à tona considerações sobre um assunto que muitos pensam ser do passado. Contentamento entre médicos e profissionais da saúde e uma certa curiosidade na sociedade, que não se dá conta da magnitude da doença em nosso meio, de sua contagiosidade, e por outro lado, da boa resolução e cura, quando tratada corretamente.


A velha tísica, peste branca, febre hética, fimatose, fraqueza do peito, consumption e tantos outros nomes que já qualificaram ao longo dos séculos essa enfermidade que acompanha o homem sabidamente há milênios, ainda é responsável por cerca de 10 milhões de casos e quase 2 milhões de mortes no planeta a cada ano. No Brasil, onde se notificou cerca de 70 mil casos por ano, com tendência de redução, a pandemia da Covid-19 agravou a doença, pelas dificuldades de diagnóstico e tratamento, passando de 70 mil para 80 mil casos notificados em 2022, com cerca de 5 mil mortes, além de aumentar o número de casos de formas resistentes.

Tuberculose, que já guardou um forte lirismo, causadora de mortes entre artistas, poetas, intelectuais, religiosos, objeto de tantos registros nas artes, (lembremos das óperas “La Traviata” e “La Bohème”, da pintura “O Grito”, de Edvard Munch, dos poemas de Manuel Bandeira, nosso “poeta tísico”, das hemoptises antológicas de Noel Rosa, da deformidade de São José de Anchieta, entre outras), perdeu sua iconografia para a Aids, sendo a mais frequente infecção a ela associada, no mundo todo, até os nossos dias.

O Brasil, entre todos os seus paradoxos, tem na tuberculose registros especiais: foi o país pioneiro em adotar o esquema de tratamento oral com três fármacos, por seis meses, em 1980, e com isso fechar sanatórios, e diminuir o sofrimento humano. A exclusão e a desigualdade sociais, dificultando o acesso, somadas às diversas condições clínicas de imunossupressão, inclusive por medicamentos imunobiológicos, resultaram, entretanto, numa redução muito mais lenta do que se esperaria na incidência da doença. Ao contrário de outros países, aqui não há conflito entre medicina pública e privada, uma vez que se trata de doença de notificação compulsória e todos são tratados com regimes fornecidos pelo SUS, independentemente da complexidade ou status social.

Preocupados com o aumento de formas resistentes dos últimos anos, cujo tratamento é muito mais longo, de maior custo, e penoso, com uso de fármacos injetáveis, vimos participando do processo de busca de melhores esquemas e vigilância epidemiológica. Criamos um banco de dados que monitora todos os casos no país permitindo análises regionais e de tendência. Desde nossa atuação como membros de comitês técnicos na OMS até a participação em diversos estudos clínicos multicêntricos internacionais, fomos relatores da Bedaquilina e da Linezolida na lista de fármacos essenciais da OMS em 2015, após o que publicamos experiência com uso chamado “compassionate” em pacientes brasileiros tratados com a Bedaquilina, em 2019, aprovamos na Conitec, a incorporação dos mesmos em 2020, e do Delamanide em 2021, e em dois centros da Fiocruz, no Rio de Janeiro, fomos partícipes de estudos que verificaram a efetividade de um tratamento mais curto, mais eficiente e confortável para pacientes portadores de formas resistentes da doença, o que contribuiu para a presente adoção pelo Ministério da Saúde.

No mundo real, o diagnóstico oportuno, através de testes rápidos moleculares, já disponíveis em toda a rede do SUS, e o tratamento adequado, com a maior adesão esperada de pacientes, através de um regime totalmente oral, de par com uma boa assistência prestada em centros de referência, permitem ao país, com confiança, ser signatário do compromisso de controlar a doença e prever sua eliminação na próxima década.


Fonte: O Globo

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