Trilhas em vinícola, sauna, dieta gourmet: o que tem a clínica médica coberta pelo sistema público mais luxuosa do planeta
- Portal Saúde Agora

- 14 de set. de 2025
- 5 min de leitura

Em uma academia iluminada no leste da Áustria, duas enfermeiras de jaleco branco observam cinco homens pedalando lentamente em bicicletas ergométricas. Uma delas mede a pressão arterial dos pacientes, enquanto a outra, atrás de várias telas, monitora os batimentos cardíacos. “Enjoy the Silence”, do Depeche Mode, toca suavemente em uma caixa de som.
É uma cena típica no centro de reabilitação cardiovascular de Bad Tatzmannsdorf, que fica a uma ou duas horas de Viena, em Burgenland, uma província de colinas conhecida pelos vinhos.
Todos os pacientes estão ali por problemas cardíacos de diferentes gravidades, de arritmias a infartos, e a proposta das estadias é se recuperar, criar hábitos melhores e sair como versões mais saudáveis e relaxadas de si mesmos.
As visitas duram várias semanas, e o custo médio gira em torno de 5 mil euros (cerca de 32 mil reais). Mas muitos dos pacientes pagam apenas uma pequena fração desse valor.
Oito anos atrás, um desses pacientes foi meu pai. Após sofrer um ataque cardíaco, ele passou três semanas lá, por recomendação médica. Sua rotina incluía caminhadas nórdicas à tarde e sessões de sauna. Ele até aprendeu a preparar tiramisù com pouca gordura.
A reabilitação é uma entre várias instalações desse tipo espalhadas pela Áustria, cujo custo é na maioria coberto pelo programa de seguro social do governo. Além dos centros voltados a doenças cardíacas, há unidades especializadas em câncer, diabete e obesidade, assim como em saúde pulmonar, doenças neurológicas e problemas articulares.
Quem contribui para o sistema de seguridade social pode se hospedar nesses centros se um médico considerar necessário. No Bad Tatzmannsdorf, os pacientes cobertos pagam apenas uma taxa diária entre 10 e 25 euros, conforme a renda. Já aqueles que não têm direito ou não estão segurados podem frequentar, desde que arquem com o valor total.
O governo acredita que o programa ajuda a manter as pessoas ativas no mercado de trabalho. Ele também segue a tradição europeia dos sanatórios, instituições de saúde voltadas à recuperação de longo prazo, incorporando elementos de spa e de cultura do bem-estar.
No centro de Bad Tatzmannsdorf, neste verão, o clima é tranquilo: longos corredores brancos, quartos padronizados, dias organizados. Os pacientes circulam sem pressa. Alguns vão para a hidroginástica, outros para a arteterapia. Há ainda alongamentos, musculação, pedaladas ao ar livre e mergulhos na piscina fria. Quem quiser, pode simplesmente deitar em uma poltrona ergonômica e contemplar a foto de uma praia — tudo considerado parte do tratamento.
Embora a participação não seja obrigatória, nem todos chegam entusiasmados.
— Às vezes, são as famílias preocupadas que os obrigam a vir — conta Martha Grimm, 53, uma das enfermeiras que observa os pacientes pedalando.
Abaixando a voz para não incomodá-los, ela continua:
— Quando chegam aqui, costumam estar muito desanimados, sem energia. Mas dá para ver, a cada passo que dão, como vão melhorando e ficando mais felizes.
Uma reabilitação, não um spa
O centro de Bad Tatzmannsdorf fica em meio a uma densa área de floresta, com trilhas suaves para caminhadas leves, mas revigorantes.
Esses centros costumam ser construídos propositalmente em locais tranquilos e rurais, propícios à recuperação. O centro de reabilitação pulmonar e cardiovascular de Hochegg, por exemplo, fica em Grimmenstein, uma cidade do distrito montanhoso de Neunkirchen. (Para designar lugares escolhidos devido à boa qualidade do ar, existe até um termo em alemão: Luftkurort, que significa “spa de ar”.)
Apesar do cenário pitoresco, a estadia em Bad Tatzmannsdorf não é férias e exige seguir regras rígidas.
— Eles nos diziam: isto é uma reabilitação, não um spa — conta Walter Fischer, 68, ex-paciente que ficou amigo do meu pai no centro.
Mais de 3 mil pacientes passaram por ali no ano passado — quase 80% deles homens. Ao chegar, cada um passa por uma avaliação médica, incluindo ecocardiograma. Os dias são organizados das 7h às 17h, e faltar a uma atividade ou desrespeitar o toque de recolher às 22h pode levar à expulsão.
A equipe monitora os pacientes 24 horas por dia. Graças a sensores de movimento e pulseiras eletrônicas, sabem onde cada um está, se estão se mexendo e respirando. Se alguém atrasar 15 minutos para uma refeição, um funcionário vai checar. Para o meu pai, a experiência parecia “um cruzamento entre estar em um internato e ser um cavalo de corrida campeão”, diz ele.
— Talvez exagerado — acrescentou. — Mas é muito eficaz.
As dietas são reformuladas e planos alimentares personalizados são elaborados. (Uma dieta rica em proteínas é comum no centro.) No dia em que visitei, os pacientes foram almoçar no refeitório, onde havia sopa clara de carne com macarrão em formato de letras, vegetais frios e chucrute. De sobremesa, uma fatia generosa de melancia.
Mas ainda estávamos na Áustria: o prato principal era um Schnitzel levemente empanado.
Aprendendo a relaxar
Para alguns pacientes, pode ser difícil se adaptar ao ritmo lento, explica a Dra. Jeanette Strametz-Juranek, diretora e cardiologista-chefe de Bad Tatzmannsdorf.
— Na nossa sociedade, as pessoas são recompensadas por trabalhar sob imensa pressão — afirma.
Diversos estudos já sugeriram que altos níveis de estresse podem afetar negativamente o coração. Por isso, segundo a doutora, ela e outros profissionais do centro acreditam que é fundamental que os pacientes cardiológicos saiam da vida cotidiana e tenham, talvez pela primeira vez, “tempo para si mesmos”.
Os pacientes podem se consultar com psicólogos ou experimentar o treinamento autógeno, uma técnica de relaxamento criada na Alemanha dos anos 1930 que usa exercícios mentais para gerar sensações de peso e calor.
Há também uma sala de música, com um instrumento de madeira chamado Klangliege, semelhante a uma cama: o paciente deita sobre ele enquanto as cordas são tocadas por baixo, enviando vibrações pelo corpo.
No dia da visita, a terapeuta Elina Gleich tocou um singing bowl, tigela usada em práticas meditativas para reduzir o estresse.
— Não é só o som, mas também a vibração que relaxa o corpo — diz ela. Na parede, estavam expostas pinturas abstratas feitas pelos pacientes, incluindo uma aquarela de pôr do sol e uma composição de manchas coloridas em tons de arco-íris.
— Se eles odeiam pintar, claro que não precisam pintar, mas são incentivados a tentar coisas novas — conta Gleich.
Em junho, Martin Jäger, 55, estava no centro pela segunda vez. Ele havia participado anos antes, após médicos detectarem pequenos problemas em uma válvula cardíaca. Quando seu médico sugeriu que voltasse, ele aceitou de imediato.
Ele diz que percebeu “que a vida estressante faz mal à saúde” e que precisava “reconhecer os danos que estava causando ao corpo”.
Uma filosofia diferente
Bad Tatzmannsdorf pode receber até 175 pacientes ao mesmo tempo, em sua maioria em quartos individuais com banheiro privativo e varanda. Para os mais graves, como aqueles com cicatrizes de cirurgia de ponte de safena, há uma ala com 21 leitos.
Às vezes, pode parecer um hospital, mas a filosofia é diferente.
— As internações hospitalares costumam ser muito curtas, com pouco ou nenhum acompanhamento posterior — diz a Dra. Strametz-Juranek. — Então, na cabeça das pessoas, é como se recebessem um carimbo dizendo que está tudo bem, e pronto — ela completa.
O centro adota uma abordagem de longo prazo, com ênfase também na educação. Em uma sala parecida com uma sala de aula, os pacientes aprendem a controlar os níveis de insulina.
Esse tipo de cuidado com o coração não costuma ser oferecido em outros países, mas, para a médica, isso é um equívoco. Longe das responsabilidades do dia a dia e da vida moderna, os pacientes podem focar no corpo inteiro e repensar seus hábitos.
Meu pai ainda guarda boas lembranças da estadia em Bad Tatzmannsdorf. Havia um senso de camaradagem entre pessoas que ele provavelmente nunca conheceria fora dali, em um ambiente afastado da vida comum.
Quando voltou ao trabalho, muitos colegas comentaram seu aspecto mais saudável, ele conta. Também disseram, meio em tom de brincadeira, que gostariam de ter ido junto.
Fonte: O Globo






Comentários