Por que 'relaxar' com telas pode estar nos deixando mais estressados – veja o que você pode tentar em vez disso
- Portal Saúde Agora

- há 2 dias
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À medida que os americanos relatam cada vez mais se sentirem sobrecarregados pela vida cotidiana, muitos recorrem ao autocuidado para lidar com isso. Conversas e feeds das redes sociais estão saturados da linguagem de “tempo para mim”, burnout, limites e regulação do sistema nervoso.
Para atender a essa demanda, a indústria do bem-estar cresceu e se tornou um mercado global de trilhões de dólares. Inúmeros fornecedores oferecem produtos, serviços e prescrições de estilo de vida que prometem calma, equilíbrio e restauração.
Paradoxalmente, porém, mesmo com o interesse em autocuidado continuando a crescer, a saúde mental dos americanos está piorando.
Sou professor de saúde pública e estudo comportamentos de saúde e a lacuna entre intenções e resultados. Passei a me interessar por esse paradoxo do autocuidado recentemente, depois de sofrer uma concussão. Recebi a prescrição de dois meses de repouso cognitivo rigorosamente sem telas — nada de televisão, e-mail, Zoom, redes sociais, streaming ou mensagens de texto.
Os benefícios foram quase imediatos e me surpreenderam. Dormi melhor, tive um maior tempo de atenção e uma nova sensação de silêncio mental. Esses efeitos refletem um princípio bem estabelecido da neurociência: quando os estímulos cognitivos e emocionais diminuem, os sistemas regulatórios do cérebro conseguem se recuperar da sobrecarga e do estresse crônico.
Obviamente, a maioria das pessoas não pode ficar 100% sem telas por dias, muito menos por meses, mas o princípio subjacente oferece uma lição poderosa para a prática de um autocuidado eficaz.
Uma nação sob pressão
A saúde mental autoavaliada dos americanos está agora no ponto mais baixo desde que o instituto Gallup começou a acompanhar essa questão, em 2001. Pesquisas nacionais detectam consistentemente altos níveis de estresse e desgaste emocional.
Cerca de um terço dos adultos nos EUA relata sentir-se sobrecarregado na maioria dos dias. Distúrbios do sono, ansiedade, baixa concentração e exaustão emocional são generalizados, especialmente entre jovens adultos e mulheres.
Os padrões de doenças crônicas refletem esse desgaste. Quando o estresse diário se torna crônico, ele pode desencadear mudanças biológicas que aumentam o risco de condições de longo prazo, como doenças cardíacas e diabetes. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) informam que 6 em cada 10 adultos nos EUA vivem com pelo menos uma condição crônica, e 4 em cada 10 vivem com múltiplas condições crônicas.
Como as pessoas tentam lidar
Muitos americanos dizem praticar ativamente o autocuidado no dia a dia. Por exemplo, descrevem tirar dias para a saúde mental, proteger o tempo pessoal, estabelecer limites em relação ao trabalho e priorizar o descanso e o lazer.
O problema está em como utilizam esse tempo de lazer.
Nos últimos 22 anos, a Pesquisa sobre Uso do Tempo dos Americanos, do Bureau of Labor Statistics dos EUA, tem constatado consistentemente que assistir à televisão é a atividade de lazer mais popular entre os adultos americanos. Os americanos passam muito mais tempo assistindo TV do que se exercitando, passando tempo com amigos ou praticando reflexão por meio de atividades como ioga. Outras atividades comuns de autocuidado incluem assistir a filmes e jogar videogame.
O lazer moderno inclui cada vez mais o uso do smartphone. Pesquisas sugerem que os celulares se tornaram a tela dominante para muitos americanos, com adultos passando várias horas por dia em seus telefones.
Para muitos adultos, checar redes sociais ou assistir a vídeos curtos tornou-se um comportamento padrão de relaxamento, sobreposto ao uso tradicional de telas. Essa prática é frequentemente chamada de second screening (uso de uma segunda tela).
Embora muitas pessoas recorram a atividades baseadas em telas para relaxar, essas atividades podem ter o efeito biológico oposto.
Por que o uso moderno de telas é diferente
As formas de lazer anteriores à internet frequentemente envolviam atividades como assistir a programas de televisão em horários definidos, ouvir transmissões de rádio ou ler livros e revistas. Em todas essas atividades, o conteúdo seguia uma sequência previsível, com pontos naturais de parada.
Hoje, o ambiente da mídia digital é muito diferente. As pessoas frequentemente interagem com várias telas ao mesmo tempo, respondem a notificações frequentes e alternam rapidamente entre diversos fluxos de conteúdo. Esses ambientes exigem continuamente que os usuários dividam a atenção, envolvam as emoções e tomem decisões.
Esse tipo de multitarefa mental aciona os mesmos sistemas neurais que as pessoas geralmente tentam descansar durante o lazer. O resultado é um ambiente muito mais fragmentado e cognitivamente exigente do que no passado.
Atualmente, os americanos passam aproximadamente de seis a sete horas por dia diante de telas em múltiplos dispositivos. Dividir a atenção entre mais de uma tela ao mesmo tempo, como usar o celular enquanto assiste à televisão, é comum. Esse malabarismo expõe o cérebro a múltiplos fluxos de estímulos sensoriais e emocionais simultaneamente.
Dados de pesquisas também sugerem que os americanos podem checar seus celulares cerca de 200 vezes por dia. Ao fazer isso, puxam repetidamente sua atenção de volta para as telas durante momentos rotineiros.
As plataformas digitais modernas são projetadas para maximizar o engajamento. Os algoritmos tendem a priorizar conteúdos emocionalmente estimulantes, especialmente raiva, ansiedade e indignação. Esses sentimentos impulsionam cliques, compartilhamentos e tempo gasto nas plataformas. Pesquisas mostram que esse design está associado a níveis mais altos de estresse, distração e carga cognitiva.
Quando o “descanso” não restaura
Diante de aborrecimentos diários e demandas concorrentes, pode parecer um alívio ligar a TV. Práticas como streaming ou o chamado bed-rotting — passar longos períodos na cama rolando o feed — muitas vezes são apresentadas como uma forma de descanso radical ou autocuidado.
Outros comportamentos comuns de enfrentamento incluem deixar a televisão ligada como som de fundo, rolar a tela entre tarefas ao longo do dia ou usar o celular durante refeições e conversas. Essas estratégias podem parecer relaxantes porque reduzem temporariamente demandas externas e a necessidade de tomar decisões.
No entanto, associar descanso ao uso de telas pode minar justamente a restauração que as pessoas buscam. A mídia digital estimula atenção, emoção e processamento sensorial. Mesmo quando a pessoa está sentada ou deitada, estar diante de uma tela pode manter o sistema nervoso em um estado elevado de excitação. Pode parecer tempo livre, mas não cria as condições biológicas para a restauração.
Como desacelerar
As evidências sugerem que o alívio mental não vem de adicionar novas estratégias de enfrentamento, mas de reduzir o número de demandas impostas ao cérebro.
Aqui estão algumas estratégias baseadas em evidências que favorecem uma restauração genuína:
Reduzir a multitarefa digital, como usar o celular enquanto assiste à televisão. Isso diminui o estresse e a sobrecarga cognitiva.
Limitar a alternância entre tarefas e as interrupções. Isso melhora o foco e reduz a fadiga cognitiva.
Passar tempo em ambientes de baixa estimulação, incluindo espaços silenciosos e ambientes ao ar livre. Isso favorece o humor e o bem-estar emocional.
Relaxar com atividades analógicas ou de baixa novidade, como leitura em papel, escrita em diário, movimentos suaves ou caminhadas sem dispositivos. Essas atividades permitem engajamento mental sem sobrecarga.
O objetivo é reduzir intencionalmente a carga mental, não abandonar todos os dispositivos digitais.
Para melhorar o bem-estar em nossa sociedade superestimulada, é importante compreender a diferença entre sentir que você está relaxando e realmente permitir que seu cérebro e corpo se recuperem. Na minha visão, menos telas, menos estímulos, menos demandas emocionais e mais tempo protegido para um descanso cognitivo genuíno são componentes importantes de uma estratégia eficaz de bem-estar.
Fonte: O Globo






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