Por que cada vez mais médicos experimentam sintomas de burnout; e o que fazer diante desse crescimento
- Portal Saúde Agora

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Foi durante a pandemia de Covid-19 que a médica intensivista Tatiana Krüger Perin, de 44 anos, percebeu que algo não estava certo com seu estado mental. Trabalhando num CTI e vivendo a quarentena no hospital e em casa, começou a sentir cansaço, irritação, piora do padrão de sono, agressividade e mudanças de humor. Era o burnout chegando.
— Infelizmente, toda equipe do CTI precisava estar presente e cobrir plantões de outros médicos que estavam doentes no período, então não consegui me afastar do trabalho — conta Perin, que desde a crise tomou algumas providências para se blindar de novos episódios: reduziu o número de plantões, passou a levar livros de para distrair a mente nos intervalos do trabalho e voltou a praticar atividade física.
Embora tenha sido um cenário agudo para a profissão, a pandemia não foi um momento inédito de esgotamento para esses profissionais. Pelo contrário. De acordo com inúmeras pesquisas sobre o tema, o burnout é uma palavra — e um diagnóstico — corrente nos ambulatórios e serviços de saúde. Pressionados por plantões exaustivos, altas responsabilidades e falta de tempo para a vida social, médicos estão entre os profissionais mais atingidos pela deterioração da saúde psíquica.
Segundo um estudo feito pela Afya, em 2025 cerca de 45% dos médicos no Brasil apresentaram algum quadro de transtorno mental, como ansiedade, depressão e burnout. E esse patamar elevado não mudou significativamente em comparação a 2022, no pós-pandemia. Mais que isso, houve uma alta de 13% em relação a 2024.
— A pandemia só evidenciou um cenário que já existia, com um alto esgotamento profissional entre médicos. Vivemos uma sobrecarga assistencial, pressão por produtividade e desgaste emocional por conta de trabalharmos diretamente com a vida e a morte — descreve o médico Eduardo Moura, à frente do Research & Innovation Center da Afya.
Origem
O exercício da medicina está na raiz da própria definição de burnout. Em 1974, o psicólogo estadunidense Herbert J. Freudenberger ajudou a cunhar o conceito a partir da observação de profissionais de saúde e voluntários que atuavam em clínicas comunitárias sob alta demanda emocional. Ele percebeu que alguns deles experimentavam quadros de exaustão que iam além do aspecto físico: tinham sinais de desmotivação, cinismo e queda de desempenho causados pelo estresse ocupacional crônico.
Outra estudiosa por trás da definição de burnout, a psicóloga Christina Maslach, também dos EUA, resumiu o quadro em três dimensões principais: a exaustão emocional, a despersonalização — sensação de desconexão de si e dos outros, também referida em outros estudos como cinismo — e a redução da realização profissional.
— Quando a pessoa sente que perdeu o controle do seu trabalho, quando percebe que nunca é suficiente, que não tem espaço para ser escutada, esse desgaste vai ser acumulando. É um cansaço emocional, existencial, uma sensação de esvaziamento e perda de sentido — afirma a psicóloga Karen Scavacini, formada pela USP e fundadora do Instituto Vita Alere, que descreve o ambiente responsável por esse estado: — Médicos lidam todo dia com a dor, com o sofrimento, com o medo, precisam tomar decisões difíceis no meio de uma cultura que diz que não podem falhar nem demonstrar fragilidade.
Um estudo de pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) que analisou a saúde mental de médicos intensivistas em cinco capitais brasileiras mostrou níveis elevados de exaustão emocional (em 50,6% deles), despersonalização (26,1%) e ineficácia (15%). A prevalência de burnout foi de 61,7%, quando considerado nível alto em pelo menos uma das três dimensões e de 5% com nível alto em todas simultaneamente. Foram entrevistados 180 profissionais de Porto Alegre (RS), São Paulo (SP), Salvador (BA), Goiânia (GO) e Belém (PA).
Segundo o levantamento da Afya, que ouviu 2.147 pessoas entre janeiro e abril do ano passado, o burnout faz parte de um quadro mais amplo que afeta a saúde mental de profissionais de medicina. Os dados coletados apontam que 1 a cada 2 médicos (58,2%) já vivenciaram algum grau de esgotamento relacionado ao trabalho, enquanto 4 em cada 10 convivem com um diagnóstico de transtorno de ansiedade.
Apenas 24,7% dos respondentes afirmam nunca ter apresentado sintomas de ansiedade — o que significa que mais de 75% já vivenciaram algum grau de sofrimento ansioso ao longo da vida. No caso da depressão, apenas 36,1% nunca apresentaram sintomas — ou seja, quase dois terços da amostra já passaram, em algum grau, por experiências depressivas.
Gênero e idade
A pesquisa revelou ainda que as mulheres são maioria entre os profissionais com diagnósticos de saúde mental. A justificativa, segundo os pesquisadores, envolve diferenças de estruturais entre os gêneros, principalmente relacionadas à dupla jornada de trabalho feminina, que sobrecarrega o estado emocional. Houve ainda um aumento da prevalência entre elas na última edição do relatório: 51,8% em 2025, contra 46,8% no ano anterior.
A idade também é definidora. Jovens médicos são os mais afetados pela ansiedade, a depressão e o burnout. No grupo até 35 anos, pelos números da pesquisa, metade dos profissionais apresenta algum desses diagnósticos. A partir dos 36, há uma inversão gradual: aos 56 anos, 82% dos profissionais não têm transtornos identificados.
Para Moura, o início da vida profissional em medicina costuma carregar uma carga a mais de estresse. O esforço de construir do zero uma carreira bem-sucedida pode levar a mais exposição a jornadas excessivas e pressões exacerbadas:
— Esses médicos recém-formados acabam aderindo a formatos de trabalho mais pesados. Eles pegam os plantões menos desejados, as posições de mais desgaste, são menos autônomos e têm menor poder de decisão.
Essa mesma tendência aparece em um levantamento da plataforma Medscape. Os números mostram que 59% dos médicos com menos de 45 anos experimentam esgotamento, sendo essa faixa também a que mais manifesta desejo de passar mais tempo com a família (56%, contra 42% dos mais velhos). Os jovens profissionais têm vontade de se aposentar mais cedo — em média aos 60 anos —, enquanto os mais experientes demonstram disposição para seguir trabalhando até os 70 ou 80 anos.
— Médicos mais experientes vão aprendendo ao longo do tempo como lidar com as frustrações da carreira. Conseguem ganhar mais trabalhando menos e desenvolvem mais habilidades para lidar com o luto — defende Moura.
Remédios e saídas
No caso da medicina, outro complicador é o acesso mais fácil a remédios para mascarar a dor emocional. O uso de substâncias por conta própria acaba adiando o diagnóstico e o tratamento, com a ilusão de que é possível “continuar funcional” mesmo sob intensa pressão.
— Quando o remédio é usado para manter a pessoa produtiva em privação de sono e sofrimento contínuo, ele vai silenciar um alerta. Ela pode até continuar funcionando, mas cada vez mais desconectada de si, do outro e do sentido do que ela faz — afirma Scavacini.
Na opinião da psicóloga, ao identificar os sintomas de exaustão, o médico deve conversar com pares, buscar espaços de escuta e cuidar dos próprios limites, abrindo espaço para socialização, atividade física e passatempos. Mas destaca que a solução para o burnout não passa apenas pela esfera individual.
— Ninguém deve ser tratado como uma máquina produtiva. Sem que haja uma mudança no ambiente de trabalho nenhuma estratégia pessoal vai dar conta sozinha — resume.
Fonte: O Globo






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