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Médicos mal formados: uma epidemia silenciosa

Na sala de emergência de um hospital de médio porte no interior do Brasil, relatos de diagnósticos imprecisos, condutas inseguras e insegurança clínica entre médicos jovens transformam-se, para pacientes e gestores, em sintomas de um problema estrutural: a rápida expansão da oferta de vagas e de instituições de ensino médico vem produzindo profissionais com formação desigual — e, segundo especialistas, com risco concreto para a segurança do paciente. O fenômeno, que reúne sinais no Brasil e em outros países, vem sendo chamado por acadêmicos e conselhos profissionais de uma “epidemia silenciosa” na qualidade da formação médica.


Crescimento acelerado, supervisão insuficiente

Nas últimas duas décadas o número de faculdades de Medicina no Brasil cresceu de forma acelerada. Relatórios e entidades médicas apontam que a quantidade de escolas praticamente se multiplicou, com a maior parte do aumento concentrada no setor privado e em municípios que nem sempre dispõem de rede assistencial e corpo docente adequados para treinamento prático. Para conselhos e pesquisadores, o efeito é previsível: mais médicos concluem a graduação, mas nem todos com a experiência clínica e a vivência necessárias.


Um mapeamento acadêmico e artigos críticos mostram que a expansão muitas vezes ocorre sem infraestrutura hospitalar de referência, sem leitos suficientes para prática supervisionada e com equipes de atenção primária já sobrecarregadas — condições essenciais para que o estudante aprenda a cuidar de pacientes reais em contextos diversos. Pesquisadores alertam que essa “mercantilização” do ensino médico tende a priorizar número de vagas sobre qualidade pedagógica.


O preço em vidas e danos: evidências alarmantes

A relação entre falhas na assistência — não apenas de recém-formados, mas do sistema como um todo — e óbitos evitáveis é documentada em estudos nacionais. Relatórios produzidos em parceria entre institutos de pesquisa e universidades estimaram que centenas de milhares de internações resultaram em eventos adversos, e que dezenas de milhares de mortes hospitalares poderiam ser evitadas com práticas assistenciais mais seguras. Esses números não provam que toda falha decorre de má formação acadêmica, mas demonstram que déficits em práticas clínicas e protocolos de segurança têm custo humano e indicam fragilidades na cadeia de cuidado em que também entram médicos recém-formados.


Globalmente, a Organização Mundial da Saúde e estudos internacionais apontam para uma elevada carga de eventos adversos em países de baixa e média renda, com milhões de pacientes prejudicados anualmente — um cenário que amplia o impacto da formação médica de baixa qualidade quando se traduz em práticas inseguras em atenção primária e hospitais.


Nem só o Brasil: um fenômeno internacional

O dilema não é exclusivo do Brasil. Em diversos países, governos têm aumentado vagas nas escolas médicas como resposta a previsões de escassez de médicos — às vezes sem o paralelo reforço de estruturas de ensino e de residência. Em 2024, por exemplo, a decisão da Coreia do Sul de ampliar admissões nas faculdades de Medicina provocou protestos de residentes que argumentavam que mais vagas, sem melhorias nas condições de formação e de trabalho, podem degradar a qualidade do ensino e do atendimento. Organizações internacionais também sinalizam que a simples elevação do número de graduados não garante melhor saúde populacional se não houver investimento concomitante em treinamento pós-graduado, regulação e supervisão.


O que indicam os estudos acadêmicos

Artigos em periódicos revisados por pares descrevem mecanismos que ligam aumento de vagas ao risco de redução de qualidade: recrutamento insuficiente de professores qualificados, priorização do ensino teórico em detrimento de estágios clínicos robustos, falta de integração entre universidade e serviços de saúde, e ausência de avaliação contínua da formação com métricas de desempenho real-mundo. Em suma, formar mais médicos é um objetivo legítimo — manter padrões mínimos de formação é condição para que esse aumento se traduza em ganho de saúde para a população.


Fiscalização e soluções em debate

Diante do quadro, atores do setor propõem medidas convergentes: critérios mais rígidos para abertura e manutenção de cursos (infraestrutura mínima, convênios com hospitais de ensino, quadro docente qualificado), avaliações externas e periódicas da qualidade de cursos e egressos, incremento das vagas em residência médica alinhadas às necessidades do SUS, e fortalecimento de sistemas de segurança do paciente nos serviços de saúde. Audiências públicas e debates no Ministério da Educação e outras instâncias refletem essa agenda — embora a implementação seja desigual e enfrentem pressões políticas e econômicas por expansão rápida.


O papel da pós-graduação e da prática assistida

Especialistas enfatizam que a graduação é apenas o início de um percurso profissional. Programas de residência e educação continuada são cruciais para transformar conhecimento teórico em competência clínica segura. Para países que ampliam a formação de base, acompanhar esse movimento com maior oferta de vagas de residência, supervisão e formação em serviço é condição para evitar que a quantidade se transforme em problema de qualidade.


Quem paga a conta?

A conta é, em última instância, da população. Eventos adversos não só geram sofrimento e mortes evitáveis, mas elevam custos do sistema de saúde e minam a confiança nas instituições. Para pacientes em áreas remotas, onde muitas faculdades novas foram sediadas justamente para ampliar o acesso a médicos, a presença de profissionais mal preparados pode significar pior acesso a diagnóstico correto e a tratamentos oportunos — um paradoxo trágico.


Para onde olhar agora

A pressão por respostas deve vir de múltiplos vetores: universidades, conselhos profissionais, ministérios, gestores hospitalares e sociedade civil. Entre ferramentas possíveis estão a transparência sobre indicadores de desempenho dos cursos, fortalecimento de acreditação institucional, programas de mentoria clínica, incentivos para fixação de docentes qualificados nas novas escolas e políticas que alinhem expansão de vagas com investimento em estágios e residências. Sem isso, advertem pesquisadores, a promessa de mais médicos pode se transformar numa promessa quebrada para a população — em forma de diagnósticos errados, tratamentos inadequados e vidas perdidas.



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