O cacau pode ajudar o cérebro durante uma viagem ao espaço? Pesquisadoras analisam possíveis efeitos

Oito mulheres cientistas de diferentes universidades colombianas permaneceram isoladas no hábitat durante um período de estudos. Com restrições à exposição direta à luz solar — embora o hábitat conte com iluminação artificial e um sistema que reproduz ciclos circadianos —, um banheiro seco, alimentação baseada em produtos enlatados e desidratados e alguns alimentos cultivados em uma estufa, as participantes dormiam em duplas em espaços de acomodação dentro do hábitat, que não são herméticos nem pressurizados.
O cenário serviu para testar uma hipótese relacionada à saúde humana em futuras missões espaciais: determinar se o cacau pode contribuir para prevenir o declínio cognitivo associado ao isolamento prolongado e às condições de estresse físico e mental que os tripulantes poderiam enfrentar durante uma viagem ao espaço.
A pesquisa foi desenvolvida pelo Núcleo de Pesquisa em Fisiologia do Desempenho Humano no Espaço Aeroespacial “MedStratos”, da Faculdade de Medicina da Universidade Nacional da Colômbia. O projeto contou com a participação de Katherine Rodríguez Patiño, estudante do quinto semestre de Medicina e formada em Nutrição e Dietética pela mesma universidade.
Rodríguez ficou responsável pela liderança no desenho do estudo e pela coleta dos dados dentro do hábitat. Além disso, durante a missão, atuou como Oficial de Saúde e Segurança, uma função operacional dentro da simulação que envolvia o acompanhamento diário das condições físicas e psicológicas das colegas.
— Como Oficial de Saúde e Segurança, minha participação em algumas atividades extraveiculares de maior risco foi limitada, porque minha presença dentro do hábitat era necessária para garantir a capacidade de resposta diante de uma eventual emergência durante a simulação — explicou Rodríguez. Essa função fazia parte da operação simulada da missão; os mecanismos reais de segurança e resposta a emergências do hábitat funcionavam de maneira independente.
A pesquisadora afirmou que a experiência também permitiu identificar a necessidade de que, em futuras missões espaciais, os integrantes de uma tripulação tenham conhecimentos básicos para responder a situações de emergência.
— Essa experiência nos permitiu reconhecer que, nas missões espaciais, é importante que todos os integrantes da tripulação tenham formação em primeiros socorros e resposta inicial a emergências, de modo que isso não dependa de uma única pessoa — acrescentou.
Como parte de suas atividades, Rodríguez verificava todas as manhãs os sinais vitais e o estado psicológico das participantes e administrava suplementos de vitamina D para reduzir os efeitos relacionados à falta de exposição ao sol.
As condições de alimentação também fizeram parte da experiência. O único alimento fresco disponível vinha de uma estufa onde eram cultivados couve-chinesa, alface e calêndula. Esta última também era utilizada como anti-inflamatório natural.
Sete doses de cacau durante a missão
O estudo se concentrou nas possíveis propriedades do cacau colombiano diante das alterações que podem afetar o desempenho cognitivo em condições de isolamento. A pesquisa partiu do fato de que esse alimento tem alto teor de flavonoides e de que a Colômbia ocupa o terceiro lugar entre os exportadores mundiais de cacau fino de aroma, segundo o comunicado.
Para avaliar a hipótese, as participantes receberam sete doses de cacau durante a missão, preparadas em uma infusão semelhante à água de panela. Os resultados foram comparados com os obtidos por um grupo de controle.
Antes e depois de cada dose, foram realizados testes cognitivos com o objetivo de estabelecer diferenças entre os dois grupos e observar possíveis mudanças no desempenho das participantes ao longo do isolamento.
— O cacau tem sido estudado por seus possíveis efeitos sobre a função cognitiva, com resultados positivos em diversas pesquisas, embora as evidências ainda sejam heterogêneas. Nosso estudo explora essa intervenção em um contexto diferente, o de uma missão espacial análoga. Até onde sabemos, somos os primeiros a relacionar essas duas coisas — explicou Rodríguez. Os resultados da pesquisa ainda estão em análise.
A equipe espera apresentar o trabalho em eventos acadêmicos nacionais e internacionais, entre eles o Congresso Internacional de Medicina Aeroespacial da Associação Americana de Medicina Aeroespacial (Asma), previsto para maio de 2027, em Dallas.
Também está prevista a participação em encontros de núcleos de pesquisa, porque o projeto se relaciona a uma das linhas atualmente priorizadas por diferentes agências espaciais: as contramedidas destinadas a proteger a saúde humana durante as missões espaciais.
Pesquisa aeroespacial desde a graduação
O projeto faz parte do trabalho desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisa em Fisiologia do Desempenho Humano no Espaço Aeroespacial, vinculado ao Departamento de Ciências Fisiológicas da Faculdade de Medicina da Universidade Nacional.
Para José Fernando Galván, decano da Faculdade de Medicina, a participação de Rodríguez reflete o papel da pesquisa na formação dos estudantes.
— Na Faculdade, entendemos que formar bons profissionais também exige formar pesquisadores, e temos orgulho de que seja uma mulher a representar esse compromisso em um campo como o aeroespacial, no qual as cientistas colombianas vêm conquistando espaço — afirmou.
Galván acrescentou que a universidade considera o setor aeroespacial uma área em crescimento e destacou que a Faculdade conta com uma Especialização em Medicina Aeroespacial e outras áreas que desenvolvem pesquisas relacionadas, entre elas as ciências fisiológicas.
A diretora da “MedStratos”, María Alejandra Corzo, médica e fisiologista espacial e integrante da Asma, explicou que o interesse pela pesquisa aeroespacial já existia na Colômbia, mas ganhou novo impulso depois que o país assinou os Acordos Artemis, em 2022, um marco de princípios de cooperação internacional para a exploração civil do espaço promovido pela Nasa, diferente do Programa Artemis, que é o programa da agência dedicado ao retorno de missões tripuladas à Lua. Nesse contexto, a Divisão de Fisiologia da Faculdade adquiriu neste ano uma mesa inclinada para pesquisas análogas espaciais. O equipamento permite reproduzir o deslocamento de fluidos no corpo humano, uma das primeiras mudanças fisiológicas enfrentadas pelos astronautas quando chegam ao espaço.
As missões análogas não reproduzem todas as condições de uma missão espacial. Em particular, não recriam a microgravidade, mas permitem estudar situações como confinamento e isolamento. Além disso, essas missões exigem que os participantes desenvolvam projetos que contribuam para o conhecimento relacionado à ciência e à tecnologia espacial.
— As missões análogas espaciais não recriam a microgravidade, mas reproduzem o confinamento e o isolamento e, em sua filosofia de uso, sempre exigem a realização de um projeto de pesquisa que contribua para a ciência e a tecnologia espacial — afirmou Corzo.
A professora explicou que, junto com Rodríguez e o núcleo de pesquisa, foi elaborado um projeto destinado a verificar se o cacau pode influenciar os níveis de fadiga e o desempenho das tripulantes.
A experiência também busca aproximar estudantes de graduação de uma área que ainda tem desenvolvimento limitado na Colômbia, além de promover sua participação em publicações e eventos científicos e facilitar a articulação com outras especialidades médicas a partir de uma perspectiva aeroespacial.
A missão foi realizada no âmbito da convocatória Propulsando Sonhos, da Associação Colombiana de Mulheres no Espaço Aeroespacial (ACMA), financiada pela Fundação Con Cora, juntamente com a Fundação Cydonia, responsável pelo projeto e pela operação do único hábitat análogo da Colômbia, de acordo com as informações fornecidas.
Por enquanto, os resultados da pesquisa continuam em aberto. A análise dos testes cognitivos permitirá determinar se as doses de cacau estiveram associadas a mudanças no desempenho das participantes durante o período de isolamento e se essa estratégia pode fornecer informações para o estudo de possíveis contramedidas destinadas a preservar a saúde humana em futuras missões espaciais.
Fonte: O Globo





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