'Não vou faltar no meu': homem com câncer terminal organiza festa para o próprio velório (em vida)
- Portal Saúde Agora

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Os convidados chegam ao som de bossa-nova. Clássico, cara de lounge, início de festa, mas não só: é também o estilo que Tiago Pitthan aprendeu a ouvir com o pai ainda criança. Em seguida, a programação segue com samba, roda de verdade; gente em pé, pandeiro, surdo, cavaco, tamborim, cuíca e tantã.
O DJ então assume a trilha e enfileira brasilidades diversas, de todas as décadas, enquanto o próprio protagonista da festa se ajeita com a banda para performar uma música. Ele, na guitarra, instrumento que insistiu em aprender a tocar quando metástases de um câncer de estômago se espalharam pelo seu corpo.
A noite segue adentro com rock and roll ‘de todo mundo’. Bandas de amigos, de desconhecidos, de quem quiser chegar.
O que os convidados vão celebrar, no dia 30 de maio, no espaço da Cervejaria Canárias, em Campo Grande, não é um aniversário, nem um show, nem uma despedida qualquer.
É o velório de Tiago Martins Pitthan, de 49 anos. Ele está vivo.
O corpo avisou antes
No Réveillon de 2023 para 2024, Tiago estava em Bonito com um grupo de amigos. A cidade, no Mato Grosso do Sul, é conhecida pelos rios de água transparente, pelas cachoeiras e pelo silêncio que não existe em Campo Grande, onde ele mora.
Na ceia, tentou comer e não conseguiu. Na primeira garfada, a sensação foi imediata —o estômago cheio antes de começar. Forçou um pouco mais e vomitou. Atribuiu ao excesso dos dias anteriores, viagem, bebida, e voltou para casa, mas o problema continuou.
Ele treinava para hipertrofia, mas estava perdendo peso.
Foram meses de médicos até chegar a um gastroenterologista. A endoscopia, em março de 2024, identificou um adenocarcinoma gástrico —tumor maligno que se forma na mucosa do estômago e responde por mais de 90% dos cânceres gástricos.
“A descoberta do câncer foi um alívio”, ele não ironiza. Depois de meses, o que tinha ganhou nome, ufa. Iniciou as sessões protocolares de quimioterapia e agendou a gastrectomia: retiraria o estômago, o intestino assumiria a função, a vida seguiria.
A cirurgia foi marcada para maio. Quando os médicos abriram, encontraram a metástase. Dois focos no intestino, comprometimento do peritônio e início de invasão pulmonar. A gastrectomia não foi feita. Em cânceres gástricos com disseminação peritoneal, a cirurgia curativa deixa de ser viável —não há mais como retirar o tumor por cirurgia.
“Eu descobri que não tinha cura. Que teria de viver com aquilo; provavelmente, morrer daquilo.”
Por meses, o câncer foi, nas palavras dele, um inimigo abstrato, invisível. Sabia que tinha. Fazia quimioterapia. Mas continuava trabalhando, pedalando, treinando. Pesava 88, 89 quilos. Saía de casa, ia à academia, mantinha o cotidiano.
Mudou em novembro de 2025. Os pulmões reduziram a capacidade de repente. Tiago parou de conseguir comer com regularidade. Em dois ou três meses, perdeu 22 quilos —chegou a 67. Ficou fraco, sem fôlego, impossibilitado de praticar qualquer esporte.
Desenvolveu neuropatia periférica induzida pela quimioterapia, síndrome chamada pé caído: o nervo fibular é afetado pela toxicidade dos quimioterápicos, o pé perde mobilidade dorsal, e a marcha vira um arrasto. Ele passou a andar mancando; precisou adotar bengala, acessório que, diz, lhe caiu muito bem. Achou que pedia uma boina.
Foi então que resolveu marcar o próprio velório.
A ideia não surgiu do nada. Em agosto de 2024, com o diagnóstico feito e a metástase já confirmada, Tiago perdeu o pai. A família fez o velório —ele pessoalmente não é fã do ritual, acha que prolonga o sofrimento, mas a mãe quis e ele não foi contra.
O velório, diz, foi bonito: amigos reunidos, histórias sendo contadas, gente se divertindo. Para Tiago, no entanto, faltou o pai —o próprio homenageado—, que saberia mais histórias do que qualquer um.
“Naquele momento, decidi: não vou faltar no meu.”
O espaço é o antigo galpão da Canárias, cervejaria local que mudou de endereço e o cedeu para a festa. A data se ajeitou ao calendário do irmão, que mora em Portugal.
Os dois antigos sócios de uma produtora de eventos que Tiago teve anos atrás —ele é turismólogo antes de ser advogado— estão organizando tudo: palco, som, bandas, estrutura. Ele acompanha, quer que seja perfeito, mas passa o operacional para eles. Com meses de antecedência, dá para fazer uma produção tranquila.
Não quer só os chegados. Quer conhecidos, quem o conhece de um “oi, tudo bem?” e quer estar presente. Postou no Instagram, sem assessoria, sem nada, e o que veio de volta ele não esperava: bandas oferecendo equipamento, desconhecidos pedindo para participar, relatos de gente que diz ter reconfigurado a própria forma de encarar a vida depois de ler sobre o velório.
Também recebeu hate. Estima que seja 1% das reações.
Além da música, haverá um flash mob e um aquarelista pintando um quadro da festa em tempo real. Tiago quer muito esse quadro.
O after
Entre um detalhe e outro da festa, Tiago cuida também do que vem depois.
Já separou as senhas: banco, redes sociais, tudo anotado e entregue para as pessoas certas. Definiu a destinação dos bens —coisas pequenas mesmo, um drone, um notebook, cada um já tem dono. O velório de fato, o ritual que vem depois, ele deixou para outra pessoa resolver. “Nem mexo com isso.”
A família foi avisada pessoalmente, com antecedência, para não receber o choque pela tela. O núcleo mais próximo ainda processa. Não usam a palavra velório —dizem “a festa”. Dificilmente usam a palavra câncer —dizem “essa doença”. Todos confirmaram presença.
A mãe é quem cuida dele. Tiago morava fora, voltou para Campo Grande para ficar perto dos pais —o pai estava doente, a ideia era cuidar dos dois. Construiu uma casa no terreno em que moravam.
No final das contas, é a mãe quem cuida dele. Com ela, conversa sobre a doença, sobre os cuidados paliativos, sobre o que come e o que não come. Sobre a morte, não. “Se eu tento puxar o assunto, ela sai pela tangente. Eu nem forço.”
Hoje, Tiago faz quimioterapia paliativa e imunoterapia —o objetivo não é curar, mas tentar retardar o avanço do tumor. Tem acompanhamento neurológico por causa do pé e gastroenterológico para mitigar o estrago de uma gastrite permanente que dificulta a alimentação. Toma remédios para conseguir comer.
A dieta mudou numa conversa entre amigos. Uma nutricionista que estava no grupo foi direta: naquele momento, não havia dieta a seguir —era preciso comer o que fosse possível, do jeito que desse.
Foi uma virada. Ele voltou a se alimentar; pouco, a cada três horas, com dificuldade, mas voltou. Às vezes iogurte, às vezes fruta. Recuperou alguma força.
No restante do tempo, aprende a tocar guitarra. Nunca havia tocado nada na vida, mas comprou o instrumento e entrou numa aula. Quer fazer pelo menos um show antes de ir —subir num palco uma vez. Joga sinuca com amigos, que é esporte que o corpo suporta.
Na semana anterior a esta conversa, havia descido 70 metros de rapel até o Abismo Anhumas, em Bonito: um buraco no chão da mata que abre para uma caverna gigantesca com lago de água cristalina, um dos mergulhos mais procurados do mundo. No dia seguinte, saltou de paraquedas.
“Lá em cima não tem câncer. Só tem eu e aquele mundão.”
A viagem de volta de Bonito foi extenuante. Chegou debilitado. Mas não importa. Enquanto puder ir, diz, vai.
Tiago não tem medo da morte. O medo é do processo: sentir dor, ficar acamado, terminar em hospital. Cita Gilberto Gil —’não tenho medo da morte, mas de morrer, sim’— como se a distinção prescindisse de qualquer comentário adicional.
Tem um sonho que ainda não realizou. Quer ir à praia e aprender a surfar. Quer uma foto pegando onda.
É essa foto, ele diz, que vai estar exposta no velório real —o velório que vem depois.
Fonte: G1




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