‘Me assusta ver médicos achando que vão fazer carreira alternativa pela mídia social’, diz David Uip
- Portal Saúde Agora

- 13 de out. de 2025
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Um dos maiores infectologistas do País, conhecido por sua atuação em epidemias marcantes como as da Aids e da covid-19 e por ter cuidado de figuras públicas como o ex-governador de São Paulo Mário Covas e seu neto, o ex-prefeito Bruno Covas, David Uip chega aos 50 anos de carreira com preocupações que vão além das doenças infecciosas e da saúde de seus pacientes.
Uma das principais vítimas de ataques e perseguições durante a pandemia do coronavírus, quando comandou o Centro de Contingência da covid-19 do governo paulista, Uip demonstra inconformismo diante do avanço do negacionismo científico, mesmo após a pior crise sanitária dos últimos cem anos. Também diz estar assustado com a escolha de parte da nova geração de médicos de buscar sucesso não com especialização e residência, mas por meio da atuação nas redes sociais, muitas vezes disseminando conteúdo sem embasamento científico.
Em entrevista ao Estadão, o médico, hoje Diretor Nacional de Infectologia da Rede D’Or e reitor do Centro Universitário FMABC (Santo André), relembrou momentos marcantes das principais epidemias que enfrentou na linha de frente e detalhou o impacto pessoal e familiar das ameaças e perseguições sofridas durante a pandemia de coronavírus por parte dos opositores da vacina e do distanciamento social.
“Na covid foi desumano. Ameaçaram meus filhos e meus netos, invadiram a minha clínica, tentaram invadir a minha casa. Perdi metade da minha clínica, pessoas me ligavam falando: ‘Eu te odeio, quero que você morra’.”, contou Uip, que disse sempre acreditar que “a História iria contar” quem estava certo e errado. “Dito e feito. A História contou e está contando”.
Além de liderar a resposta ao coronavírus em SP, Uip, hoje com 73 anos, foi secretário de Estado da Saúde de São Paulo entre 2013 e 2018 e secretário de Estado de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento de São Paulo em 2022. Ele fez residência, mestrado, doutorado e livre-docência na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e ocupou vários cargos dentro do complexo do Hospital das Clínicas da FMUSP, como o de diretor do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e do Instituto do Coração (Incor).
Na epidemia de Aids nos anos 1980, ele integrou a equipe que diagnosticou o primeiro caso autóctone (de transmissão local) da doença no País. Passou por momentos de tensão, como quando ficou por mais de um ano sem saber se havia contraído o HIV durante um acidente ao passar um cateter em um paciente soropositivo. Na ocasião, não havia exame de sangue capaz de detectar a doença.
Na entrevista, Uip também recordou sua relação com Mario Covas, de quem era médico pessoal, e os últimos dias de vida do ex-governador, morto por um câncer de bexiga em março de 2001. O infectologista ajudou o tucano a realizar o desejo de ver o mar pela última vez.
Vinte anos depois, Uip também fez parte da equipe médica que diagnosticou o câncer de Bruno Covas, que morreu em 2021 por complicações de tumores no sistema digestivo. “Essa coisa que falam que o médico vai ficando mais velho e não sofre… coisa nenhuma, ele sofre igual. Mario Covas e Bruno Covas foram perdas extremamente sofridas."
Uip falou ainda sobre as principais tecnologias capazes de mudar o combate a epidemias nos próximos anos e alertou sobre a crescente ameaça das bactérias multirresistentes, tema de um projeto que ele vem liderando na Rede D`Or para monitorar micro-organismos resistentes e racionalizar o uso de antibióticos. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Ao longo dos seus 50 anos de carreira, o senhor esteve na linha de frente em epidemias de doenças desconhecidas, como a Aids, nos anos 80, e a covid-19. Como equilibrava a obrigação, como infectologista, de atuar em emergências sanitárias com o medo de se contaminar e colocar em risco a sua família?
Vou te contar uma história que reflete bem isso. Nos primeiros anos de Aids, em 1984, quando não tinha exames de sangue, eu trabalhava no Hospital das Clínicas, chegou um paciente, internou e, na hora que fui passar o intracath (cateter intravenoso central), o rapaz pulou e perfurou meu dedo com uma agulha grande. Posteriormente, ele foi para a necropsia e descobrimos que ele tinha hepatite B e Aids. Naquele ano, a minha mulher estava grávida da minha segunda filha. Não tinha vacina contra a hepatite B. O laboratório Abbott abriu para me dar imunoglobulina por conta do vírus B. E eu fiquei sem saber se era HIV positivo ou não. Isso foi até o final de 1985, quando surgiu o exame. Então, eu acho que não dá para dizer que não se tem medo. É o absoluto desconhecido. Não sabíamos as formas de transmissão, não sabíamos que era um vírus, não sabíamos nada.
Eu entendo hoje, olhando desde o começo, que só tem uma palavra que define: missão. Você tem missões e quando você fica entre o medo e a missão, entre o medo e a responsabilidade, você tem que fazer opções. Eu sempre optei por ir em frente. Eu nunca me escondi. Isso vale para a epidemia de Aids e para a covid-19, que você assistiu bem de perto.
No caso da covid-19, além do medo da doença (Uip foi infectado logo no início da pandemia) e do trabalho frenético à frente do Centro de Contingência do Coronavírus do governo de São Paulo, o senhor também sofreu bastante com perseguições e ameaças, inclusive contra a sua família. Isso foi pior do que lidar com o próprio vírus?
Eu sou casca dura, já passei por muita coisa, mas tive duas situações dramáticas nesse sentido. Uma quando fui diretor executivo do Incor e juntei a presidência da Fundação Zerbini. Fui ameaçado, extorquido, perseguido. Para você ter ideia, eu recebi e-mails falando ‘olha, a tua filha que está grávida mora no Guarujá e vai ser morta’. E eu saía correndo para ver onde estava a minha filha. Fui ameaçado de maio a dezembro. A polícia pegou, e eles pegaram penas de 5 anos e 4 meses. Eu incomodei pessoas, esquemas, peguei esquemas e denunciei. E responderam assim.
E na covid foi desumano. Ameaçaram meus filhos e meus netos, invadiram a minha clínica, tentaram invadir a minha casa. Eu tenho uma filha que as filhas estudam em uma escola católica e as mães têm um grupo de orações. Esse grupo foi invadido por uma tia, irmã de uma mãe, que falou: ‘Olha, essa David é um desgraçado, tem que morrer’. Essa minha filha ficou 24 horas chorando. Eu perdi metade da minha clínica, pessoas me ligavam falando: ‘Eu te odeio, eu quero que você morra’. Uma coisa inacreditável.
No domingo de Páscoa, eu chamei a minha família e falei: ‘Olha, nós vamos ter que ser muito resilientes. Aguentar esse massacre não vai ser fácil, mas eu aprendi com a vida: a História vai contar. Esperem e vocês vão ver o que vai acontecer’. Dito e feito. A História contou e está contando. E eu não estava fazendo nada de errado, estava coordenando uma pandemia, a pedido do governador (João Doria), sem cargo, sem remuneração, sem nada.
Nós fizemos o que era melhor e o que era possível. Então, não tem o menor sentido tudo o que aconteceu. E o pior é que não acabou. Ainda hoje, vem gente aqui no consultório me questionar. Veio um grande empresário e falou: ‘Graças a você, nós quase quebramos’. Eu falei: ‘Eu conheço bem você e seus três irmãos. Teu pai tá vivo?’ Ele falou: ‘Está’. Eu falei: ‘É disso que nós estamos falando. O distanciamento e a vacina salvaram muitas pessoas, inclusive teu pai’.
Eu chamei a minha família e falei: ‘Olha, nós vamos ter que ser muito resilientes. Aguentar esse massacre não vai ser fácil, mas eu aprendi com a vida: a História vai contar. Esperem e vocês vão ver o que vai acontecer’. Dito e feito. A História contou e está contando.
Considerando todo esse custo emocional para o senhor e para a sua família, se arrepende de algo?
Em momento algum. Eu acho que são duas coisas que me movem: primeira, saber que eu estou fazendo o que é certo dentro do que é possível fazer. E segundo, que eu tenho uma fé inabalável. Foi difícil. Eu tenho três stents, todos de quando eu era secretário de Estado da Saúde. Quando eu aceitei comandar o Centro de Contingência da pandemia, minha família queria me matar. Mas eu não vou me esconder.
Ao mesmo tempo que temos a responsabilização de pessoas que disseminam desinformação, o negacionismo ganha força em alguns contextos, como nos Estados Unidos, com o governo Trump. Como avalia esse cenário global?
Eu volto a falar: a História vai contar. E paga o preço do que é certo e errado. Recentemente me perguntaram: ‘O que você acha das pessoas que são contra a vacina?’ Para mim é fácil de resolver: precisa ser processado, culpado e preso. Porque você não está discutindo só uma questão pessoal, é um bem social. Aqui no consultório, eu tenho paciente que paga uma consulta para me contestar. É inacreditável. Até que chega um momento que eu falo: ‘Você não vai me convencer e nem eu vou te convencer. Nós dois estamos perdendo tempo. Fala com a secretária que ela vai devolver o valor da consulta’.
Não precisa nem ser conhecedor para ver o que aconteceu com as vacinas. Vimos sarampo voltando. Estamos vendo doenças tidas como controladas voltando. Agora, eu imagino como é que pais podem tomar a decisão de não vacinar seus filhos. Esse pessoal não viu o que eu vi: a paralisia infantil, crianças morrendo de sarampo. Não dá para entender, ainda mais quando eu vejo que, por trás disso, está uma opção política.
Eu nunca discuto as opções políticas de cada um, como também não tenho nenhum prazer em ver as pessoas presas. Mas o que eu acho é que a vida vai responsabilizar todo mundo. Se não é agora, é daqui a pouco. A covid foi um exemplo marcante. As pessoas me perguntam: no que vocês erraram? Nós não erramos. Muitas vezes nós aprendemos, nós não sabíamos nada. Então foram decisões muito difíceis.
Esse tipo de questionamento sobre as ações na pandemia acontecem até hoje, então?
Até hoje. Tem tanto as pessoas contra a vacina quanto aquelas que não entenderam o distanciamento. Eu vi 4 mil mortes por dia. Como é que você esquece isso em tão poucos anos? Eu falo para as pessoas: eu não preciso que vocês tenham sensibilidade, porque muitos não têm, mas olhem os dados. O que mudou essa história? A vacina.
Recentemente me perguntaram: ‘O que você acha das pessoas que são contra a vacina?’ Para mim é fácil de resolver: precisa ser processado, culpado e preso. Porque você não está discutindo só uma questão pessoal, é um bem social.
Vimos na pandemia muitos médicos espalhando desinformação. Pensando agora na formação médica, ainda mais com a abertura de tantas faculdades de Medicina, como podemos tentar garantir que essa atual geração de estudantes não caia nessa armadilha do negacionismo? Ou que não sigam o caminho de influenciadores que propagam práticas sem evidência científica?
Eu estou muito preocupado com o que eu estou vendo. Primeiro, com o percentual grande de egressos não querendo fazer residência. Eu fui tentar entender o porquê. Um dos motivos é a busca pelo primeiro emprego. Não é brincadeira, o indivíduo fica dois, três anos para entrar numa faculdade de Medicina boa. Seis anos para se formar. E ele não está pronto. Tem que fazer residência, e está endividado ou os pais sustentaram. Então ele prefere ir para o primeiro emprego.
Agora, o que me assusta mesmo é eles acharem que vão fazer uma carreira alternativa pela mídia social. Então, o que eu vejo muito é as pessoas se enganarem. Medicina você tem que ser dedicado. Tem que entender a modernidade, mas não dá para deixar de estudar, não dá para deixar de trabalhar.
Outra questão marcante da sua carreira foi que o senhor ficou conhecido por cuidar de alguns pacientes famosos, celebridades, políticos. Quais foram os momentos mais marcantes e desafiadores dessa jornada e como lidar com a pressão de um País inteiro acompanhando o quadro de saúde da um paciente?
Eu fiz parte da equipe que tratou do Tancredo (Neves) em 1985. Em seguida, eu tratei do João Sayad, que era ministro do Planejamento no Plano Cruzado. Mas o que foi muito complicado foi o Mario Covas. Era alguém que eu me identificava muito e ele comigo. Quando ele começou o primeiro mandato, ele me pôs como assessor especial, porque eu já o conhecia da época do Senado porque ele internou com erisipela no Incor, então fomos ficando cada vez mais próximos. Em novembro (de 1998), eu estava em um congresso na Escócia, ele me liga e fala: ‘David, eu estou com dor no baixo ventre’. Eu já estava voltando para o Brasil no dia seguinte, daí chamei outros médicos e saiu o diagnóstico de câncer de bexiga. E foi uma tristeza porque nós vimos que o câncer era extremamente invasivo. Fomos contar e ele falou: ‘Primeira coisa, eu quero que o povo seja informado de tudo que aconteça. Eu fui eleito pelo povo, o povo tem que saber’. E foi uma quebra de paradigma.
Mas foi um sofrimento, porque foi evoluindo e ele continuava cumprindo os compromissos. Foi muito difícil. Até que, em uma sexta-feira de Carnaval (de 2001, pouco antes da morte de Covas), ele me chamou e falou: ‘David, eu quero ir para praia’. Primeiro, eu falei que ele estava louco, mas ele quis ir. Ele foi para Bertioga, eu fui para Guarujá. No domingo, falei: ‘Governador, nós temos que voltar direto para o Incor’. Viemos de helicóptero, só que a tonelagem do helicóptero não dava para parar no HC (Hospital das Clínicas, complexo onde fica o Incor). Então, o piloto disse que íamos ter que pousar no Pacaembu, mas ele não ia aguentar. Os pilotos se aproximaram do HC, não chegaram a pousar, ficaram a meio metro do chão e nós tiramos o Mario Covas no braço. Foi uma história inacreditável.
No caminho (de volta do litoral), ele percebeu que estava muito ruim e falou: ‘Olha, que bom que eu estou vendo o mar pela última vez’. Ele foi para a UTI nesse dia, conseguiu sair da UTI, foi para o quarto e eu fiquei ‘morando’ lá nesses dias, que eu sabia que seriam os últimos (Covas morreu em 6 de março de 2001, dez dias após chegar para sua última internação no Incor).
Eu conhecia o Bruno Covas desde moleque. Ele ficou muito amigo da minha filha mais velha. Anos depois, ele aparece aqui no consultório com uma erisipela. Internamos para investigar e veio o diagnóstico de câncer. Ele era muito querido. As enfermeiras, todos nós ficamos muito mal (quando ele morreu). Não tem como. Essa coisa que falam que o médico vai ficando mais velho e não sofre… coisa nenhuma, ele sofre igual. Mário Covas e Bruno Covas foram perdas extremamente sofridas.
Falando agora sobre o avanço da Medicina nessas cinco décadas de carreira, o que mais te impressionou e o que mais te empolga para o futuro?
A vigilância genômica, tanto do parasita quanto do ser humano, nós vamos antecipar os surtos. Estamos avançando muito, principalmente em toda essa pesquisa genômica, que é espetacular. O CRISPR, que é uma forma de você recortar o DNA, você altera, modifica e adiciona. Agora, aquilo que você não vai perder nunca é o contato pessoal, aconchegar as pessoas, olhar e ouvir, isso não vai mudar nunca.
Uma das suas frentes de trabalho hoje é relacionada a bactérias resistentes e como o uso indiscriminado de antibióticos pode agravar esse quadro. Poderia falar mais sobre isso?
Nós estamos vivendo uma epidemia de micro-organismos multirresistentes. Se nada for feito, em 2050, o número de mortes por bactérias multirresistentes ultrapassará o número de mortes por doença cardiovascular e câncer. A OMS (Organização Mundial da Saúde) tem o compromisso mundial de diminuir 10% da multirresistência em 2026, mas a grande maioria dos países não têm desenvolvimento e estrutura para isso. Para esses países em desenvolvimento, tem que se investir agora U$ 9 bilhões por ano. E quando você olha as pesquisas, você não fica animado porque não tem novas classes de antimicrobianos.
E esse foi um dos motivos de eu ter ido para a Rede D’Or. Sou um dos responsáveis pelo comitê de combate à infecção dos 80 hospitais da rede e estamos com um banco de dados absolutamente espetacular de infecções multirresistentes. E com um programa que, com o auxílio de inteligência artificial, padroniza antibióticoterapia para todos os procedimentos. Nós já temos os dados de 60 dos 80 hospitais da rede sobre os micro-organismos, consumo de antibióticos. Então, esses dados são fundamentais primeiro pela multirresistência, mas também pela sustentabilidade do sistema de saúde. Tem um dado da literatura que diz que 50% dos antibióticos prescritos em hospitais são errados: dose errada, intervalo inadequado.
Então por meio desse projeto, vocês monitoram a prescrição e administração dos antibióticos para que o uso na rede seja mais racional, certo?
Antes, nós adequamos os recursos humanos de todas as comissões de controle de infecção hospitalar. Já sabemos quais são as bactérias e fungos mais prevalentes nesses hospitais e quais os sítios mais frequentes: infecção da corrente sanguínea, infecção de via urinária com cateter, infecção respiratória com aparelho mecânico e infecção de sítio cirúrgico. Nós fizemos um congresso em abril com as regionais já para padronizar a profilaxia e a conduta nesses quatro importantíssimos locais de infecção. E estamos continuando. Pela grandeza da rede, com 80 hospitais, eu estou falando com o (ministro da Saúde, Alexandre) Padilha, nós vamos poder ajudar muito porque o que nós temos de dados é difícil alguém ter.
Temos o banco de dados e agora a inteligência artificial vai filtrar tudo isso, nos mostrando o consumo de antibióticos, o perfil de resistência. Já racionalizamos o uso de nove antimicrobianos em todos os hospitais da rede. Esses antibióticos precisam ser referenciados pelos infectologistas da comissão de infecção.
Depois desses 50 anos de Medicina, o que o senhor ainda sonha em ver em termos de tratamentos ou curas?
Primeiro, um sonho que já está se realizando: o controle do HIV-AIDS. Hoje tem uma prevenção muito competente, agora com um medicamento que você vai dar uma injeção a cada seis meses, e tem a evolução do tratamento, que, além de melhorar a qualidade de vida, acabou diminuindo muito a transmissão. Um sonho seria ver a cura da Aids.
Fonte: Estadão






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