Mamadeira, ambiente quentinho e marshmallows: como vivem os porcos criados em fazenda para serem doadores de órgãos
- Portal Saúde Agora

- 23 de mar. de 2025
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Em uma fazenda de 300 acres em um local não divulgado no interior do estado norte-americano de Wisconsin, cercada por campos pontilhados de grandes celeiros vermelhos e margeada por arbustos de chicória azul, vivem alguns dos porcos mais mimados do mundo.
Eles nascem por cesariana para protegê-los de vírus que as porcas mães podem carregar e são alimentados com mamadeira, em vez de amamentados, pelo mesmo motivo. Nos primeiros dias de vida, ficam sob luzes de aquecimento e são monitorados 24 horas por dia, recebendo brinquedos e marshmallows como recompensa.
Mas eles não podem sair para brincar na terra como outros porcos. São clones e, por consequência, frágeis, geneticamente projetados para terem rins, corações e fígados mais compatíveis com o corpo humano.
Esses mini porcos fazem parte de um ousado experimento científico que aproveita avanços na clonagem e edição genética para concretizar o antigo sonho do xenotransplante, que é a transferência de rins, corações, fígados e outros órgãos de animais para humanos.
O sucesso da empreitada pode trazer grandes lucros para as duas empresas de biotecnologia líderes no setor: a eGenesis, sediada em Cambridge, no estado norte-americano do Massachusetts, e a Revivicor, sediada em Blacksburg, Virgínia, também nos EUA, e pertencente à United Therapeutics Corporation. A demanda por órgãos é enorme.
Mais de 100 mil americanos estão em listas de espera por órgãos doados, a maioria precisando de um rim. Apenas 25 mil rins humanos doados ficam disponíveis a cada ano. Em média, 12 americanos na lista de espera por um rim morrem todos os dias.
Os cientistas primeiro transplantaram órgãos de porcos geneticamente modificados para outros animais e depois para pacientes com morte cerebral. Em 2022, os pesquisadores receberam permissão para transplantar esses órgãos em alguns pacientes gravemente enfermos e, no ano passado, em pessoas mais saudáveis.
Agora, pela primeira vez, um estudo clínico formal sobre o procedimento está sendo iniciado.
Curtis prevê um futuro no qual a engenharia genética tornará os órgãos de porco tão compatíveis com humanos que os pacientes não precisarão tomar medicamentos imunossupressores fortes, que previnem a rejeição, mas os tornam mais vulneráveis a infecções e câncer.
— Imagine que você tem uma doença renal, você sabe que seus rins vão falhar e tem um rim de porco, que nunca precisa de diálise, inclusive, esperando por você — comenta Mike Curtis, presidente e CEO da eGenesis.
Bebês nascidos com defeitos cardíacos graves poderiam receber temporariamente um coração de porco enquanto aguardam um coração humano. Um fígado de porco poderia servir como uma ponte para aqueles que precisam de um fígado humano.
Alguns cientistas argumentam que há um imperativo moral para seguir adiante.
— É ético deixar milhares de pessoas morrerem todos os anos em uma lista de espera quando temos algo que pode, possivelmente, salvar suas vidas? — pergunta David K.C. Cooper, que estuda xenotransplantes em Harvard e é consultor da eGenesis.
— Acho que está começando a ser eticamente inaceitável deixar as pessoas morrerem quando há uma terapia alternativa que parece promissora — complementa Cooper.
Mas críticos dizem que a xenotransplantação é um empreendimento arrogante e fantasioso que busca resolver a escassez de órgãos com tecnologia, quando há uma solução mais simples: expandir o suprimento de órgãos humanos incentivando mais doações.
E a xenotransplantação vem carregada de questões sem resposta.
Porcos podem carregar patógenos que podem ser transmitidos para humanos. Se um vírus mortal, por exemplo, emergisse em pacientes transplantados, ele poderia se espalhar com consequências catastróficas.
— Os sintomas podem levar anos ou até décadas para serem observados — alerta Christopher Bobier, bioeticista da Escola de Medicina da Universidade Central de Michigan.
— Uma possível transferência de alguma zoonose pode acontecer a qualquer momento após um transplante e durar para sempre — afirma ele.
— O risco é considerado pequeno, mas não é zero — complementa Bobier.
De fato, uma autópsia realizada com o primeiro paciente a receber um coração de porco, um homem do estado de Maryland, revelou a presença de um citomegalovírus suíno no órgão que não havia sido detectado antes do transplante, apesar dos rigorosos testes. Um vírus extremamente parecido com este já teria a capacidade de infectar humanos.
Ninguém sabe quanto custaria um órgão de porco geneticamente modificado, nem se os planos de saúde cobririam esse procedimento.
Mas muitos pacientes com insuficiência orgânica, presos a uma máquina de diálise por quatro horas a cada dois dias, enxergam nesses pequenos porcos a esperança de um retorno à vida normal.
— Minha esperança em um xenotransplante é maior do que meu medo dos riscos — disse um paciente em diálise em uma pesquisa nacional.
DNA Editado
Os cientistas escolheram usar órgãos de porcos geneticamente modificados, em vez de chimpanzés ou babuínos, por uma razão simples: os porcos são mais fáceis de criar, amadurecem em seis meses e o tamanho de seus órgãos é compatível com o de humanos adultos.
Na eGenesis, as células dos porcos são coletadas com pequenos cortes na orelha. Os cientistas editam o DNA dessas células como se editassem um manuscrito: adicionando alguns genes, deletando outros e alterando mais alguns.
Os porcos da eGenesis receberam dezenas de edições genéticas. A Revivicor produz porcos com dez edições genéticas, e outros com uma única edição.
As empresas clonam embriões a partir das células modificadas e os implantam em porcas, onde se desenvolvem por cerca de quatro meses antes de nascerem.
Os cientistas da eGenesis primeiro transplantaram os rins dos porcos em macacos. Os órgãos vinham de porcos que passaram por 69 edições genéticas, um número que céticos consideravam impossível.
— Eles disseram: ‘Você não pode fazer tantas edições, vai transformar o genoma em queijo suíço’, mas nós mostramos que era possível — conta Curtis.
Os cientistas logo provaram que macacos com rins de porcos geneticamente editados viveram mais do que aqueles que receberam rins de porcos não modificados. Um macaco sobreviveu por mais de dois anos após o transplante.
— Foi uma questão de princípios provar que o órgão era seguro e capaz de sustentar a vida — , afirma Wenning Qin, vice-presidente sênior de inovação da eGenesis.
Mas será que a técnica funcionaria em humanos?
Primeiros Testes em Humanos
A primeira pessoa a receber um rim de porco geneticamente modificado foi Richard Slayman, um homem de 62 anos de Weymouth, Massachusetts. Ele sofria de diabetes e hipertensão, e seu rim transplantado de um doador humano tinha falhado após cinco anos, forçando-o a voltar para a diálise.
Ele recebeu um rim de porco geneticamente modificado da Revivicor no Hospital Geral de Massachusetts em março. Os médicos anunciaram que o procedimento foi um sucesso e que o rim começou a produzir urina imediatamente.
Mas, apenas dois meses depois, Slayman morreu. O hospital declarou que não havia indícios de que sua morte tenha sido resultado do transplante, mas não revelou mais detalhes.
Outros pacientes transplantados com órgãos de porco geneticamente modificados também faleceram, incluindo David Bennett, um homem de 57 anos com insuficiência cardíaca terminal que, em 2022, recebeu um coração de porco em um procedimento experimental realizado na Universidade de Maryland.
Ele sobreviveu por dois meses, mas os médicos acreditam que seu corpo rejeitou o órgão devido à presença inesperada de um vírus suíno.
Outro paciente, Aaron Flanigan, de 54 anos, recebeu um rim de porco no NYU Langone Health, em Nova York, como parte de um estudo clínico iniciado no ano passado. Ele faleceu 47 dias depois.
Agora, pesquisadores do Hospital Geral de Massachusetts e da eGenesis começaram um estudo formal de transplante de rim de porco em pacientes humanos. Eles receberam aprovação da FDA (Food and Drug Administration, a agência reguladora dos EUA) para testar rins de porcos geneticamente modificados da eGenesis em até 10 pacientes humanos.
Os primeiros dois pacientes serão transplantados ainda este ano. Se os rins funcionarem bem por três meses, os próximos pacientes poderão receber um transplante permanente.
— Se tudo correr conforme o esperado, os órgãos de porcos poderão começar a ser usados regularmente nos próximos anos — afirma James Markmann, chefe de cirurgia de transplantes do Hospital Geral de Massachusetts.
Questões Éticas e Controvérsias
Mas a ciência não é a única barreira. Há profundas questões éticas em torno do uso de órgãos de animais em humanos.
Algumas religiões proíbem o consumo de carne de porco e podem se opor ao uso de órgãos suínos, e defensores dos direitos dos animais criticam a criação de porcos apenas para transplantes.
— Se aceitarmos essa prática, estaremos justificando a ideia de que os animais existem para o benefício humano, como meras peças de reposição— diz Vasile Stanescu, professor da Mercer University, que pesquisa ética da xenotransplantação.
Outros argumentam que, em vez de investir em órgãos de porcos, os governos deveriam incentivar mais doações de órgãos humanos, educando a população e facilitando o processo de doação.
— Estamos buscando soluções biotecnológicas caras para problemas sociais que poderiam ser resolvidos de forma mais simples — afirma Matthew Liao, professor de bioética da Universidade de Nova York.
Ainda assim, para pacientes desesperados, um rim de porco pode significar a diferença entre a vida e a morte.
— Se eu tivesse a opção, escolheria um rim de porco sem hesitar — disse um paciente com insuficiência renal que está na lista de espera há cinco anos.
— É isso ou continuar preso a uma máquina pelo resto da vida— complementa.
Fonte: O Globo






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