Lassidão: saiba como é o sentimento que descreve o estado pandêmico



Desde o início da pandemia, não são raros os relatos de pessoas que se dizem sem ânimo, apáticas, com problemas de concentração e sem interesse por coisas que antes lhes davam prazer. Em inglês, o sentimento vem sendo chamado de “languishing”. Em português, poderia ser descrito como lassidão ou languidez. O termo tenta definir um estado de espírito de cansaço, fastio e tédio, no qual a percepção principal é de que a vida está apenas se arrastando, sem um objetivo.


Embora se encaixe perfeitamente para descrever os sentimentos provocados pela pandemia de Covid-19, a lassidão não é um termo necessariamente novo. Um trabalho conduzido em 2002 pela Universidade Emory, nos Estados Unidos, descreve a condição como uma “ausência de saúde mental”. O estudo, feito com 1.995 pessoas de 25 a 74 anos, mostrou que 12,1% dos participantes apresentavam sinais desse estado de espírito. Dos 14,1% dos voluntários diagnosticados com Transtorno Depressivo Maior (TDM), 4,7% também tinham o sentimento de apatia.


Uma outra pesquisa feita em 2010, também na Universidade Emory, mostrou que pessoas que, provavelmente, desenvolverão depressão ou transtornos de ansiedade passam por esse estado. Um trabalho mais recente, feito com profissionais de saúde em março de 2020, apontou que aqueles que se sentiam apáticos tinham três vezes mais chances de desenvolver algum transtorno relacionado ao estresse pós-traumático do que seus colegas não lânguidos.


Um dos grandes perigos desse sentimento é justamente seu caráter discreto: a pessoa não percebe o quanto seu ânimo está definhando. De acordo com os pesquisadores, o entorpecimento acontece de forma tão gradual que o acometido não consegue ver o próprio sofrimento – portanto, não busca ajuda.

Associada a outros sentimentos, como tristeza e sofrimento, a languidez pode ser um sintoma de depressão. Outros sinais de que a apatia está se transformando em doença é a tristeza prolongada, com perda de apetite, falta de prazer em atividades, alteração do sono. Porém, não há motivo para alarde, segundo Renata Nayara Figueiredo, médica psiquiatra e presidente da Associação Psiquiátrica de Brasília (APB).

“Isoladamente, é apenas um sentimento. Quando associada a outros sentimentos ruins, aí passa a ser sintoma [de depressão]. Se a gente começa a transformar qualquer sentimento em sintoma, começamos a ver tudo como doença”, pondera a psiquiatra.

Ainda que a sensação não desencadeie um transtorno psiquiátrico propriamente dito, pode ser que o indivíduo precise de acompanhamento psicológico para lidar com o incômodo. “Já existem pesquisas indicando que a procura por psiquiatras e psicólogos aumentou na pandemia”, completa Renata.

“Observamos uma piora no bem-estar e na saúde física, já que muita gente parou de praticar exercícios e começou a beber e a fumar mais. Outros estudos indicam que houve aumento de peso, em alguns locais, de até 1 kg a cada mês de pandemia“, enumera a médica.

Pandemia infinita


A longa duração da pandemia de Covid-19 é um dos desencadeadores da lassidão. Do susto inicial aos dias de hoje, já passamos pela adaptação às máscaras, ao distanciamento social, mudanças de pessoas consideradas grupos de risco para a infecção, novas variantes e muita angústia. “Tudo isso tem causado muita incerteza. Não sabemos quem vai sobreviver, como o mundo vai ser depois da pandemia. Isso dá uma sensação de falta de energia e provoca perda de sono”, descreve a psiquiatra Renata Figueiredo.


A mudança súbita causada pela pandemia afetou aspectos sociais, afetivos e psíquicos das pessoas. A privação das atividades e o risco de adoecimento, além do alto número de mortes, têm impactado a saúde mental de todos nós, detalha Alisson Marques, médico psiquiatra.

Em situações tão abruptas, ele explica que o primeiro sentimento é o medo, seguido de insegurança e ansiedade. “Toda vez que nosso cérebro entende que estamos em uma situação perigosa, ele libera diversos neurotransmissores e hormônios para que a gente preserve a vida e gere emoções de luta, fuga e proteção.”


Entretanto, esse estado de alerta – e todas as emoções que o acompanham – a longo prazo pode adoecer o corpo e a mente. “Estamos há mais de um ano vivendo essas emoções de forma constante e diária, com momentos de ápice e outros mais brandos, mas nunca sem viver o que está acontecendo”, comenta. “Essa cronificação, esse modelo arrastado da pandemia, é o que tem se tornado um grande problema do ponto de vista psíquico para todos nós.”


Alisson Marques alerta que a estagnação prolongada pode causar ansiedades crônicas, depressão, perdas funcionais (acadêmicas, profissionais e pessoais), além de alguns prejuízos físicos. “Por não conseguirem praticar atividades físicas, pode ocorrer ganho de peso, além de baixa produção de neurotransmissores, como dopamina e serotonina”, exemplifica.


Ainda que a pessoa consiga ver pontos positivos na situação atual, como o fato de ainda ter um emprego ou de não estar internado, por exemplo, é difícil escapar da sensação de apatia causada pela incerteza. “Cada pessoa vai se motivar por uma coisa diferente. É preciso encontrar o que lhe causa motivação”, ensina Renata Figueiredo. Aqui, vale qualquer coisa que seja capaz de tirar o foco da pandemia: exercícios físicos, leitura, séries, filmes ou outra atividade semelhante.


Fonte: Metrópoles

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