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Excesso de peso ultrapassa pressão alta e vira o principal fator de risco à saúde do brasileiro

há 5 horas
5 min de leitura

O coração de Martino Galliano já passou pelo que o Brasil aprendeu a tratar e pelo que o país ainda não consegue conter. Em 2013, uma cirurgia desobstruiu a artéria que estava 98% fechada, e ele chegou a perder 80 kg na reabilitação. Nove anos depois, com parte do peso de volta, sofreu um infarto.


A trajetória dele se repete num estudo publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas. A pesquisa mostra que o índice de massa corporal (IMC) elevado se tornou, em 2023, o principal fator de risco à saúde do brasileiro, à frente da pressão alta. Em 1990, o IMC ocupava o sétimo lugar.


No mesmo período, o país conseguiu reduzir as mortes por infarto e por acidente vascular cerebral (AVC), que foram as causas que mais contribuíram para o aumento da expectativa de vida.


Os pesquisadores atribuem esse ganho ao controle da hipertensão e à queda do tabagismo. O peso seguiu o caminho inverso: entre todos os fatores de risco analisados, o IMC e a glicose alta foram os que menos recuaram em mais de três décadas.


Martino, hoje com 57 anos e aposentado, chegou a pesar 172 kg. Quando descobriu o problema no coração, estava com 130 kg e não sentia nada. A obstrução apareceu num teste ergométrico de rotina e estava no tronco da coronária esquerda, a artéria que irriga a maior parte do coração.


A cirurgia resolveu a artéria, mas não resolveu o peso. Para o cardiologista Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), a recaída de Martino não representa uma falha individual, e sim o comportamento esperado de uma doença crônica.


"A obesidade não tem cura, tem controle. O organismo guarda a memória do maior peso e trabalha o tempo todo para recuperá-lo", afirma.

O fator que não cedeu


A análise faz parte do Estudo Global de Carga de Doenças (GBD, na sigla em inglês), conduzido pelo Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME, na sigla em inglês), da Universidade de Washington, com uma rede de cerca de 200 pesquisadores brasileiros.


O indicador inclui a obesidade e o sobrepeso e mede quanto cada fator contribui para as mortes precoces e os anos vividos com incapacidade.


O recuo da pressão alta e do cigarro teve causas concretas. A proporção de fumantes caiu de cerca de um terço para pouco mais de um décimo da população, com regras mais duras, cigarro mais caro e o fim da publicidade. A hipertensão passou a ser mais diagnosticada e tratada na atenção primária, com remédios gratuitos pelo Farmácia Popular.


Os autores alertam, porém, que a alta do peso e da glicose ameaça esse avanço, e as doenças do coração já superaram o AVC como principal causa de morte no país. Os fatores de risco também costumam se somar: segundo Mattar, entre 70% e 75% das pessoas com obesidade são hipertensas. E, muitas vezes, esse acúmulo avança por anos sem dar sinais.


Sem sintomas


Foi assim com Martino. Em 2013, depois do resultado alterado no teste ergométrico, ele fez um cateterismo sem imaginar o que viria. O cateter foi retirado antes do que ele esperava, e o médico voltou à sala com a esposa dele, que chorava. Dali, Martino seguiu direto para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde entendeu a gravidade do caso ouvindo as trocas de plantão.


"A cada seis horas, o médico que saía repetia para o que entrava: descobriu lesão grave de tronco e aguarda cirurgia."

Chegar a esse ponto sem sentir nada é comum entre pessoas com obesidade. Muitas atribuem a falta de ar e o cansaço ao próprio peso e demoram a procurar um médico. Quem tem resistência à insulina ou diabetes pode ter ainda menos sensibilidade à dor, e a artéria se fecha sem que o peito doa, quadro chamado de isquemia silenciosa.


"A melhor forma de tratar a doença do coração é nunca chegar a tê-la", afirma o cardiologista Felix Ramires, coordenador da Cardiologia do Hospital Samaritano Paulista.

Ele recomenda exames periódicos de colesterol, glicemia e hemoglobina glicada e, para quem tem mais fatores de risco, a tomografia de escore de cálcio, que mostra se já há placas nas coronárias.


Oitenta quilos a menos


Depois da revascularização, Martino entrou na reabilitação com acompanhamento nutricional e exercício diário.


"Minha caçula tinha 3 anos, e eu tive muito medo de não vê-la crescer", conta.

Nos dias de chuva, colocava a palmilha do tênis dentro da bota de borracha, pegava o guarda-chuva e saía para caminhar. Chegou a 92 kg.


Cada quilo perdido aliviava o coração. A gordura em excesso mantém o organismo num estado de inflamação crônica, que lesa a parede dos vasos e favorece as placas nas artérias, além de elevar a pressão, a glicose e o esforço do músculo cardíaco.


A gordura acumulada no abdômen é a mais nociva: as células de gordura dessa região, que Ramires chama de "maus adipócitos", produzem substâncias que aceleram a formação de placas. Por isso, a medida da cintura pode dizer mais sobre o risco do que o IMC. Acima de 88 centímetros nas mulheres e de 102 centímetros nos homens, a circunferência já pode indicar obesidade visceral.


A volta do peso


A pandemia interrompeu a rotina de Martino, e o peso voltou. Em fevereiro de 2022, com cerca de 115 kg, ele sentiu uma pressão forte no peito, "como se alguém pisasse em cima de mim". Era um infarto. Ele passou por angioplastia de emergência e, dias depois, por uma segunda, para reposicionar os stents.


Manter o peso perdido é a parte mais difícil do tratamento. O corpo reage ao emagrecimento aumentando a fome, reduzindo a saciedade e economizando energia, herança de um tempo em que mais reserva significava mais chance de sobreviver.


"Quem emagrece está sempre subindo uma escada rolante no sentido contrário", compara Mattar.

O peso recuperado é quase todo gordura e traz de volta a pressão alta, a glicose descontrolada e o colesterol elevado. O vaivém também cobra seu preço: perder e ganhar peso repetidas vezes é, por si só, um fator de risco para o coração.


Além da força de vontade


O país conseguiu derrubar a pressão alta e o cigarro, mas não o peso, em parte porque a obesidade só passou a ser encarada como doença há pouco tempo.


"O hipertenso recebia tratamento, e o fumante era visto como dependente. Já a pessoa com obesidade ouvia que lhe faltava força de vontade", diz Mattar.

A desigualdade agrava o quadro. Frutas, verduras e alimentos integrais custam mais do que os ultraprocessados, que chegam prontos, saciam rápido e cabem em qualquer bolso. Para quem vive com pouco, a orientação nutricional tem pouca chance de ser seguida quando desconsidera essa conta.


O estudo mostra que o Farmácia Popular, que beneficiava sobretudo os mais pobres, perdeu recursos entre 2018 e 2022 e só foi retomado em 2023. Os autores defendem que a prevenção da obesidade ao longo da vida esteja entre as prioridades do plano nacional contra as doenças crônicas, porque o controle do peso, assim como o da pressão, exige acompanhamento por anos, e não por meses.


Na linha, de novo


Martino convive com esse cuidado há mais de uma década. Treze anos depois da cirurgia, pesa cerca de 115 kg e mantém uma rotina fixa: de segunda a sexta, às 6h30, está na academia, e duas vezes por semana faz reabilitação na piscina do hospital. Com a comida, admite, a disciplina é menor: tenta comer pouco, mas não segue a dieta ao pé da letra.


Ele não vê o controle do peso como uma fase, e sim como parte permanente da vida.


"Saiu da linha, tem que pôr na linha de novo. Senão, complica."

Fonte: G1


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