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Dismorfia corporal: relatos de obsessão com a própria aparência crescem nas redes; entenda o que dizem especialistas

A dificuldade de lidar com a própria imagem refletida no espelho pode ser mais preocupante do que apenas algo derivado da vaidade. Na realidade, a obsessão com defeitos que não são observados por outras pessoas (ou não existem) e a necessidade persistente de mudanças são indicativos de dismorfia corporal, uma condição psiquiátrica grave.


Oficialmente chamado de transtorno dismórfico corporal, esse quadro tem o potencial de abalar todos os pilares da autoestima e afetar gravemente a saúde mental. Para quem convive com a condição, nem mesmo um físico atlético, considerado “ideal”, é o bastante. O campeão olímpico de saltos ornamentais Tom Daley, de 31 anos, agora aposentado do esporte, abriu o coração no ano passado sobre o diagnóstico de dismorfia corporal. A pressão que a imagem de si mesmo exercia foi um dos grandes motivos de sofrimento psíquico da sua carreira como atleta.


Outra figura pública que também conviveu a vida inteira com o transtorno é o ator Sebastian Stan, conhecido por seu papel como Soldado Invernal na saga do Capitão América nos filmes da Marvel. Segundo Stan, de 43 anos, ele sentia que seu corpo apenas mantinha o “auge” por uma semana, enquanto se esforçava para manter a rotina de exercícios físicos e alimentação. Passado esse período, ele voltava a se sentir "insuficiente".


Nas redes sociais, relatos de pessoas que afirmam ter desenvolvido insatisfação corporal ao se sentirem pressionadas pelos ideais corporais do mundo fitness ganham cada vez mais tração. No TikTik, a hashtag #dismorfiacorporal acumula mais de 150 mil vídeos.


Entre eles, está o de Ranaísis Azenha, de 20 anos. A estudante de Nutrição decidiu compartilhar o que estava vivendo na plataforma de vídeos. Atualmente acompanhada por profissionais da saúde, ela acredita que é possível buscar evolução física sem se autodestruir.


— Quando comecei a treinar, minha motivação não era saudável. Eu queria mudar meu corpo rapidamente a todo custo, tentando compensar excessos e ter controle. Os sintomas começaram ainda durante a pandemia, junto com o transtorno alimentar. Eu me olhava no espelho e não conseguia enxergar meu corpo de forma realista. Sempre parecia que eu precisava emagrecer mais e mais — relata.


A jovem brasiliense também afirma que o ambiente das redes sociais também serviu como amplificador.


— Era uma distorção constante da minha própria imagem, acompanhada de comparação excessiva e sensação de nunca ser suficiente — conta.


Nem toda insatisfação é dismorfia corporal


Juliana Lopes Fernandes Massapust Pestana, doutora em Neurociências pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca que nem toda insatisfação é, de fato, o transtorno dismórfico corporal.


— De um lado, temos uma subnotificação de casos de dismorfia corporal no Brasil, do outro temos o uso do termo para descrever o que, muitas vezes, trata-se de inseguranças com o próprio corpo causadas pela pressão estética — esclarece.


De acordo com Pestana, a principal forma de diferenciar as duas coisas são as consequências do transtorno na vida das pessoas acometidas por ele. Estimativas internacionais apontam que ele atinge cerca de 2% a 3% da população.


— O transtorno vai trazer prejuízos de forma significativa. Em primeiro lugar, isso ocorre porque a obsessão com a aparência tem uma intensidade acima da média. Essa pessoa fica muito preocupada com a maneira como é vista, então isso prejudica muito a forma como ela se relaciona com outras pessoas. Ela nunca vai estar satisfeita consigo mesma, e isso pode afetar também o trabalho — enumera.


Alguns sinais e sintomas que podem indicar um sinal de alerta são:

— Comportamentos repetitivos, como sempre estar se olhando no espelho, tratamentos e procedimentos em excesso, modificações corporais, uso de roupas muito largas que possam ocultar alguma falha. Em casos mais graves, quando chegam ao consultório, geralmente essas pessoas já fizeram tantas intervenções estéticas que acabam perdendo suas características originais — diz.


Dismorfia muscular


No mesmo cenário de relatos como os de Tom Daley e Sebastian Stan, muitos homens são afetados pela vigorexia, termo que descreve o transtorno dismórfico corporal com especificador de dismorfia muscular, que é o desejo obsessivo de se tornar mais forte, ao mesmo tempo que o indivíduo nunca se enxerga como tal.


— Nesse caso, a musculação não é mais prazerosa. Esse homem pode deixar de sair, de ter relações por conta da sua forma física e desenvolver crenças cognitivas de que é pequeno, fraco, inadequado e que vai ser rejeitado. Pode chegar até mesmo a sofrer lesões mais severas pela musculação muito pesada e também desenvolver problemas fisiológicos pelo uso de anabolizantes — aponta.


Um estudo publicado na revista científica Performance Enhancement & Health em 2025 mostrou que a alta exposição a conteúdo fitness nas redes sociais e a paixão obsessiva por treinar podem ser fatores de risco potenciais para o desenvolvimento de sintomas de dismorfia muscular. Para a pesquisa, foram analisados dados de 502 participantes entre 16 e 30 anos.


“Em contrapartida, uma relação harmoniosa com o treinamento de resistência pode, teoricamente, diminuir o risco de desenvolver sintomas de dismorfia muscular”, concluíram os autores do estudo.


Para Thiago Mathias, doutor em Ciências do Movimento Humano pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UESC) e membro da Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde, isso está associado ao fato de a academia ser vista como um local onde é possível “resolver problemas” que uma pessoa tem com o próprio corpo.


— Então, muitas pessoas procuram as academias de musculação para atender a um objetivo estético. O que a gente observa na literatura é que sim, existe uma associação entre pessoas que têm um comportamento compulsivo, no sentido de vício com a prática de exercício de academia, e maiores chances de apresentar o transtorno. Não significa que é uma uma associação causal, ou seja, não significa que todos que entrarem na academia irão desenvolver a dismorfia — explica o professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


Mathias salienta que, embora a busca por se sentir melhor com a própria aparência seja algo legítimo, faz parte da construção da identidade.


— Entretanto, quando essa busca passa a interferir na dinâmica da vida, com um foco intenso ou até mesmo não conseguir reconhecer o que já está bom. Ou até mesmo se colocar em risco, como a realização de procedimentos estéticos em locais irregulares, isso exige tratamento — adverte.


Pestana, por sua vez, frisa que a preocupação com autoimagem pode ser exacerbada a partir dessa comparação existente no mundo da musculação (onde quem é mais musculoso apresenta maior visibilidade), mas não é o fator principal para o surgimento do transtorno.


— É uma condição multifatorial. Outras questões que podem ser cruciais são a genética e a maneira com que essa pessoa cresceu dentro de casa, se o ambiente familiar já era de uma pressão estética exacerbada — argumenta.


Assim como apontado no estudo, as redes sociais também desempenham um papel nessa conjuntura, de acordo com Pestana. Especialmente na maneira como ter um corpo masculino ou feminino “sarado” ou “no shape” está associado a um valor social.


— A rede social é problemática porque passa essa mensagem de que a sua imagem é o seu valor. Um exemplo disso é como mulheres magras são atreladas ao conceito de “pessoa bem-sucedida”. Para alguém que preenche aquelas categorias que mencionei, da genética e sofre ao longo da vida uma forte influência familiar para ter um controle da própria aparência, essa influência externa do mundo “perfeito” das redes pode se tornar mais um empurrão — expõe.


O crucial, como ressaltam os especialistas, é que aqueles que sofrem com esses sintomas procurem ajuda. Ainda que não exista cura, o transtorno pode atingir um estágio de remissão, principalmente com a combinação de tratamentos, geralmente incluindo medicamentos antidepressivos e a terapia cognitivo-comportamental (TCC).


Fonte: O Globo

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