Covid-19: Dois indicadores apontam quais infectados correm mais risco no hospital



Idade e comorbidades têm sido apontadas como fatores de risco para quadros graves da covid-19, mas, nem sempre, pessoas mais jovens e aparentemente saudáveis escapam da severidade da doença. Por isso, médicos buscam identificar, no momento da admissão hospitalar, indicativos de quais pacientes podem precisar de internação, assim como aqueles que necessitarão de tratamentos mais agressivos. Dois estudos independentes, publicados ontem, indicam que é possível fazer esse diagnóstico precocemente, o que poderia evitar agravamento da enfermidade e óbitos.


Na revista Jama Network Open, da Academia Norte-Americana de Medicina, pesquisadores do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, descreveram um exame de sangue simples, com potencial de apontar os pacientes com risco elevado de piorar rapidamente, após a internação. A equipe, liderada por John M. Higgins, do Departamento de Patologia do HGM, observou que os primeiros relatórios sobre a doença na China demonstraram que a resposta inflamatória do organismo era muito forte em algumas pessoas e bastante branda em outras. O próprio grupo de Higgins havia, anteriormente, identificado mudanças no número e no tipo de células do plasma em indivíduos com enfermidades crônicas, que também provocam inflamações sistêmicas.


Os pesquisadores, então, usaram dados de todos os adultos com infecção por Sars-CoV-2 internados em um dos quatro hospitais da área de Boston entre 4 de março e 28 de abril. Antes de procurar mudanças complexas nas células sanguíneas dos 1.641 pacientes incluídos no estudo, eles analisaram as amostras da mesma forma como se faz com hemogramas realizados rotineiramente.


“Ficamos surpresos ao descobrir que um teste padrão, que quantifica a variação no tamanho dos glóbulos vermelhos — chamado de largura de distribuição de glóbulos vermelhos, ou RDW —, foi altamente correlacionado com a mortalidade do paciente. A correlação persistiu ao controlar outros fatores de risco identificados, como a idade, alguns outros testes de laboratório e algumas doenças preexistentes”, diz Jonathan Carlson, coautor do estudo.


Os pacientes que tiveram valores de RDW acima da faixa normal quando deram entrada no hospital apresentaram um risco 2,7 vezes maior de morrer, com uma taxa de letalidade de 31%, em comparação com 11%, verificados em pacientes com RDW normal. Além disso, um aumento no RDW após a admissão foi associado a um risco ainda maior de óbito, indicando, segundo os autores, que essa medida pode ser rastreada durante a hospitalização para ajudar a determinar se os pacientes estão respondendo ao tratamento ou piorando.


Embora ainda não saibam por que essa variação está associada à gravidade da covid-19 — algo que estão investigando agora —, os cientistas observam que a descoberta pode ser um marcador de gravidade da doença, obtido por um exame de sangue simples.


Tratamento


Já na Universidade de Johns Hopkins, em Baltimore, professores da Faculdade de Medicina utilizaram a combinação de dados demográficos e clínicos para publicar um modelo de previsão da gravidade da doença e, assim, determinar diretrizes no tratamento dos pacientes. As informações cobrem sete semanas de atendimento a pacientes com covid-19 no início da pandemia, em cinco hospitais da região. O estudo foi publicado na revista Annals of Internal Medicine.


“Identificamos alguns fatores demográficos e clínicos mensuráveis que, quando avaliados na admissão ao hospital, podem prever se alguém tinha 5% ou 90% de risco de desenvolver doença grave ou morrer da covid-19”, diz Amita Gupta, diretora do Centro de Educação Clínica em Saúde Global da Johns Hopkins e coautora do estudo. “Essa é uma informação extremamente útil para se ter, para direcionar o tratamento do paciente”, diz.


Durante os 52 dias aos quais o estudo se refere, os cinco hospitais internaram um total de 827 pessoas com 18 anos ou mais com teste positivo para o coronavírus e sintomas da covid. Com esses dados, os pesquisadores desenvolveram um modelo de previsão, usando um conjunto de fatores de risco conhecidos por estarem associados à doença para prever a probabilidade de um paciente piorar durante o tratamento e em que ponto da internação isso pode acontecer. Entre os fatores de risco que os pesquisadores consideraram como parte do modelo estavam a idade do paciente, índice de massa corporal (IMC), saúde pulmonar e doença crônica, assim como os sinais vitais e gravidade dos sintomas no momento da admissão.


No artigo, os autores afirmam que entre os destaques do estudo está a rapidez com que a doença pode progredir de leve ou moderada a grave. Principalmente se o paciente apresentar todos ou alguns dos fatores de risco associados à doença. Quarenta e cinco das pessoas incluídas tinham covid-19 grave quando foram admitidas no hospital. Mas 120 desenvolveram a doença severa ou morreram 12 horas após a internação. O tempo médio de progressão da enfermidade foi de 1,1 dia.


Usando a calculadora desenvolvida por eles, os pesquisadores estimam que uma mulher branca, de 60 anos, com IMC de 28, sem doença crônica e sem febre, hospitalizada por covid-19 tem 10% de chance de piorar no segundo dia da internação. Quanto mais tempo ela fica no hospital, maior o risco: 15% após quatro dias e 16% passada uma semana. Por outro lado, os cálculos indicaram que uma mulher negra, de 81 anos, com IMC de 35, diabetes, hipertensão e febre tem risco de 89% de progredir para quadro grave ou óbito apenas no segundo dia de internação. O percentual cresce para 95% entre os dias 4 e 7.


» Quarentena e queda viral


Uma nova pesquisa apresentada na Conferência Sobre a Doença do Coronavírus sugere que, à medida que a quarentena entrou em vigor na Itália e o número de casos caiu, a carga viral à qual os pacientes foram expostos também diminuiu, o que poderia ser associado a um menor número de óbitos e de internações em unidades de terapia intensiva (UTIs). Os autores analisaram 373 casos em um hospital da Calábria. A proporção de pacientes que precisaram de cuidados intensivos caiu de 6,7% em março para 1,1% em abril e chegou a zero em maio. A queda foi compatível com a diminuição da quantidade de vírus no organismo dessas pessoas, ao longo do período estudado.


Fonte: Correio Braziliense

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