Como o odor corporal pode influenciar sua vida amorosa


O rei Luís 14 da França era obcecado por fragrâncias. Flores frescas enfeitavam todos os cômodos do Palácio de Versalhes, onde os móveis e as fontes eram pulverizados com perfume — e até mesmo os visitantes antes de entrar no palácio.


Seja porque sua higiene pessoal não estava de acordo com os padrões que poderíamos esperar hoje ou porque simplesmente gostava de brincar com os aromas, Luís 14 entendeu que o cheiro era importante.

Nosso odor corporal pode revelar detalhes sobre nossa saúde, como a presença de doenças (a cólera tem um cheiro doce e a diabetes aguda, de maçã podre).

"Também pode revelar informações sobre nossa alimentação", diz Mehmet Mahmut, psicólogo especializado em olfato e odores da Universidade Macquarie, na Austrália. "Há alguns estudos que contradizem isso, mas meu grupo descobriu que quanto mais carne você consome, mais agradável seu corpo cheira."

Os homens acham o odor corporal das mulheres mais agradável e atraente durante a fase folicular do ciclo menstrual, quando as mulheres são mais férteis — e menos agradável ​​e atraente durante a menstruação.

Isso pode ter sido útil para nossos ancestrais identificarem bons candidatos à reprodução, sugerem os autores deste artigo. Os níveis de testosterona dos homens também podem melhorar seu cheiro. Embora nosso odor possa mudar dependendo da nossa alimentação e saúde, grande parte do que torna nosso cheiro único é determinado por nossa genética.

Nosso odor corporal é específico o suficiente e nosso olfato, preciso o suficiente, para que as pessoas consigam identificar e casar as camisetas suadas de gêmeos idênticos no meio de uma pilha de um grupo de estranhos.

O odor corporal de gêmeos idênticos é tão parecido que os participantes deste experimento até confundiram camisetas duplicadas do mesmo indivíduo como sendo camisetas de dois gêmeos.

"Isso é importante porque mostra que os genes influenciam o nosso cheiro", diz Agnieszka Sorokowska, psicóloga e especialista em olfato humano da Universidade de Wroclaw, na Polônia. "Portanto, podemos ser capazes de detectar informações genéticas sobre outras pessoas pelo cheiro delas."

Escolhemos, por exemplo, cosméticos que correspondem às nossas preferências de odores determinadas geneticamente. Sorokowska e seus colegas mostraram que é possível fazer avaliações sobre a personalidade de alguém com base em sua escolha de fragrâncias. Isso sugere que os convidados de Luís 14 podem ter sido capazes de captar uma ou duas coisas sobre o rei ao cheirar o ar na chegada ao palácio.

Todas essas informações estão em nosso odor corporal, mas elas são úteis para nós? Em um estudo, mulheres receberam camisetas usadas de homens aleatórios e foram solicitadas a classificá-las de acordo com o quão agradáveis ​​elas eram. Sua ordem de preferência seguiu o mesmo padrão de algo chamado dissimilaridade do Antígeno Leucocitário Humano (HLA, na sigla em inglês).

O HLA é um grupo de proteínas que ajuda nosso sistema imunológico a identificar células que nos pertencem e células que são de alguma outra coisa ou pessoa — e, portanto, são patógenos em potencial.

O complexo de genes que codifica o HLA, chamado MHC, também codifica algumas outras proteínas usadas em nossa resposta imunológica — e é útil como um atalho para os cientistas verem que tipo de proteção nosso sistema imunológico pode oferecer.

É muito provável que seu perfil HLA seja diferente de todas as outras pessoas que você conhece — embora algumas pessoas, como seus parentes próximos, sejam mais parecidas com você do que outras.

Do ponto de vista genético, é uma vantagem ter um filho com alguém que tenha um perfil HLA diferente. "Se você tem um parceiro geneticamente diferente em termos de perfil de odor corporal e imunológico, então seus filhos terão uma melhor resistência a patógenos", diz Sorokowska.

As mulheres que participaram do estudo colocaram as camisetas usadas pelos homens com o perfil HLA mais diferente primeiro e, por último, os mais semelhantes. Assim, elas foram capazes de identificar os homens, e preferiram aqueles com a melhor combinação em termos de genética do sistema imunológico. Elas não sabiam que era isso que estavam fazendo, é claro — foi subconsciente.

O mecanismo específico que faz com que a diferença de HLA resulte em um odor corporal com cheiro melhor não é conhecido, diz Sorokowska. "Mas acredita-se que o HLA resulta na produção de certas substâncias que são digeridas pelas bactérias da nossa pele que produzem um certo odor." Os humanos usam informações genéticas escondidas no odor corporal para escolher seus parceiros? Parece que não. Em um estudo com quase 3,7 mil casais casados, a probabilidade de as pessoas estarem com um parceiro com HLA diferente se resumia ao acaso.

Podemos ter preferência por certos cheiros, e pode haver uma razão genética para isso, mas não agimos com base nos odores ao escolher com quem vamos casar. "Mas, embora o HLA não influencie as escolhas, ele influencia o bem-estar sexual", diz Sorokowska.

Pessoas com anosmia congênita (perda do olfato) têm desenlaces de relacionamento piores, sugere Mahmut em um estudo com Ilona Croy da Universidade de Dresden, na Alemanha. Casais que apresentavam alta diferença de HLA — o que provavelmente aconteceu por acaso — tinham os níveis mais altos de satisfação sexual e de desejo de ter filhos.

Esta relação foi observada com mais força nas mulheres. Mulheres que estavam com homens com HLA semelhante relataram mais insatisfação sexual e menos vontade de ter filhos. Porém, quando a evidência de vários estudos é levada em consideração, o efeito pode não ser conclusivo.

Para os biólogos evolucionistas, a ênfase na escolha feminina faz sentido. Na natureza, as fêmeas tendem a escolher os machos, uma vez que é a mãe que mais investe na criação dos filhos e, portanto, tem mais a perder ao acasalar com um macho geneticamente inferior.

A fêmea deve ser criteriosa em sua escolha, então procura pistas sobre as qualidades de um macho. É por isso que os machos costumam ser coloridos, dançar, cantar ou oferecer presentes na natureza — eles precisam provar sua qualidade genética.

A relação entre a preferência pelo dor corporal e os genes estimulou a moda dos speed-datings (eventos para solteiros em que se conhece um grande número de parceiros em potencial em um período bastante curto de tempo) e até mesmo serviços de mail odor (que conecta pessoas com base no odor corporal que consideram atraente, a partir de amostras de camisetas usadas). Mas as evidências que apoiam a ideia de que podemos tomar boas decisões sobre relacionamento com base no cheiro não são claras. Podemos dizer que preferimos algo, mas na prática parece que não fazemos escolhas com base nessa preferência. Por que não? Uma razão pode ser que os cenários da vida real são complexos demais para usar as informações do cheiro com precisão. Nossos outros sentidos podem distorcer as informações que absorvemos pelo olfato. Com base apenas no odor corporal, podemos fazer avaliações precisas do neuroticismo (propensão a emoções negativas) de outras pessoas.

Mas ao ver uma foto dessa pessoa ao lado de uma amostra de seu odor corporal, "(os sentidos) ficam confusos", se tornando menos precisos, diz Sorokowska. "E não podemos avaliar o neuroticismo apenas pelos rostos."

Ela diz que o odor corporal é mais preciso para julgar o neuroticismo, mas os rostos são mais fáceis e, muitas vezes, apenas fazemos o que é mais fácil.

Em outro estudo, mulheres casadas levaram camisetas de seus maridos, e mulheres solteiras levaram a camiseta de um amigo platônico — e estas foram misturadas com outras camisetas de homens aleatórios. "As mulheres que não eram solteiras acabaram com alguém cujo odor corporal elas preferiam aos demais?", questiona Mahmut. "Não necessariamente. Não havia nenhuma evidência contundente de que colocassem seu parceiro em primeiro lugar."

Neste caso, as mulheres não haviam escolhido um marido que tivesse o melhor odor corporal na opinião delas.

Em um estudo separado de Mahmut, o odor corporal de estranhos também era mais forte do que o odor corporal de homens casados. Ele especula que isso pode ser porque "há alguma evidência de uma correlação entre níveis elevados de testosterona e odor corporal mais forte".

"Sabemos que há uma associação entre redução na testosterona e envelhecimento, o que pode ser devido às coisas que acontecem na vida de um homem casado quando ele passa dos 40 anos — priorizando filhos e coisas assim. Homens que estão em um relacionamento, e ainda mais aqueles que já tiveram filhos, apresentam níveis baixos de testosterona."

Então, sabemos que fornecemos informações sobre nossa qualidade reprodutiva por meio do nosso odor corporal, e sabemos que podemos detectá-la, mas não agimos de acordo com isso. Será que deveríamos?

"Se o seu único interesse é encontrar um parceiro com bons genes, então talvez você deva prestar atenção ao cheiro deles", diz Sorokowska.

"Mas para a maioria das pessoas isso não é o mais importante, e a maioria das pessoas não faz isso."

Mahmut concorda: "A serventia do perfume diminuiu um pouco. Passamos dezenas de milhares de anos disfarçando como cheiramos."


Fonte: G1

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