Como a 'limpeza cerebral' enquanto dormimos reduz o risco de demência
- Portal Saúde Agora

- 6 de set. de 2025
- 4 min de leitura

O cérebro tem seu próprio sistema de descarte de resíduos – conhecido como sistema glinfático – que se acredita ser mais ativo enquanto dormimos.
Mas o sono interrompido pode prejudicar esse sistema de eliminação e retardar a limpeza de resíduos ou toxinas do cérebro. Pesquisadores sugerem que o acúmulo dessas toxinas, devido à falta de sono, pode aumentar o risco de demência.
Ainda há debate sobre como exatamente esse sistema glinfático funciona em humanos, já que a maior parte das pesquisas até agora foi feita em camundongos.
Mesmo assim, isso levanta a possibilidade de que dormir melhor possa aumentar a eliminação dessas toxinas no cérebro humano e, assim, reduzir o risco de demência.
Aqui está o que sabemos até agora sobre essa área emergente de pesquisa.
Por que os resíduos importam
Todas as células do corpo produzem resíduos. Fora do cérebro, o sistema linfático transporta esses resíduos dos espaços entre as células para o sangue, através de uma rede de vasos linfáticos.
Mas o cérebro não possui vasos linfáticos. Até cerca de 12 anos atrás, como ele eliminava seus resíduos era um mistério. Foi então que os cientistas descobriram o “sistema glinfático” e descreveram como ele “enxágua” toxinas cerebrais.
Esse processo começa com o líquido cerebrospinal, que envolve o cérebro e a medula espinhal. Esse fluido circula pelas áreas ao redor dos vasos sanguíneos cerebrais, depois entra nos espaços entre as células do cérebro, coleta resíduos e os leva para fora através de grandes veias de drenagem.
Em estudos com camundongos, os cientistas mostraram que o sistema glinfático é mais ativo durante o sono – com maior eliminação de resíduos nesse período.
Um desses resíduos é a proteína beta-amiloide (Aβ). Quando acumulada, ela pode formar placas. Essas placas, junto com os emaranhados da proteína tau encontrados nos neurônios (células cerebrais), são marcas da doença de Alzheimer, o tipo mais comum de demência.
Em humanos e camundongos, estudos mostraram que os níveis de Aβ no líquido cerebrospinal aumentam quando estamos acordados e caem rapidamente durante o sono.
No entanto, um estudo mais recente (em camundongos) mostrou praticamente o contrário – sugerindo que o sistema glinfático seria mais ativo durante o dia. Pesquisadores ainda debatem o que pode explicar essas diferenças.
Portanto, ainda estamos longe de entender exatamente como o sistema glinfático funciona – em humanos ou em animais – para eliminar toxinas que, de outra forma, poderiam aumentar o risco de demência.
Isso também acontece em humanos?
Sabemos que dormir bem faz bem, especialmente para a saúde do cérebro. Todos conhecemos os efeitos de curto prazo da privação de sono sobre nossa capacidade de pensar, além do fato de que o sono ajuda a melhorar a memória.
Em um experimento, apenas uma noite sem dormir em adultos saudáveis aumentou a quantidade de Aβ no hipocampo, uma área do cérebro associada à doença de Alzheimer. Isso sugere que o sono pode influenciar a eliminação da Aβ no cérebro humano, apoiando a ideia de que o sistema glinfático é mais ativo enquanto dormimos.
Isso levanta também a questão: será que dormir bem pode levar a uma melhor eliminação de toxinas como a Aβ do cérebro e, assim, ser um caminho de prevenção da demência?
E a apneia do sono ou a insônia?
O que ainda não está claro é o efeito de distúrbios do sono de longo prazo, como apneia ou insônia, sobre a capacidade do corpo de limpar a Aβ do cérebro.
A apneia do sono é um distúrbio comum em que a respiração para várias vezes durante o sono. Isso pode causar privação crônica de sono e reduzir o nível de oxigênio no sangue – fatores que podem estar ligados ao acúmulo de toxinas no cérebro.
A apneia do sono também já foi associada a um risco maior de demência. E estudos mostram que, após o tratamento da apneia, há uma maior eliminação de Aβ do cérebro.
A insônia, quando há dificuldade para adormecer ou manter o sono, também aumenta o risco de demência em casos crônicos. Mas ainda não se sabe se tratar a insônia afeta diretamente as toxinas relacionadas à doença.
Por isso, ainda é cedo para afirmar que tratar distúrbios do sono reduz o risco de demência especificamente por diminuir níveis de toxinas no cérebro.
Onde isso nos deixa?
No geral, esses estudos sugerem que dormir bem e com qualidade é importante para manter um cérebro saudável – especialmente para eliminar toxinas ligadas à demência.
Mas ainda não sabemos se tratar distúrbios do sono ou simplesmente melhorar o sono, de forma geral, realmente aumenta a capacidade do cérebro de se “limpar” e se isso reduz o risco de demência. É uma área em que pesquisadores, incluindo nossa equipe, estão se aprofundando.
Por exemplo, estamos estudando a concentração de Aβ e tau no sangue ao longo do ciclo de 24 horas em pessoas com apneia do sono – com e sem tratamento – para entender melhor como esse distúrbio afeta a limpeza cerebral.
Outros pesquisadores estão investigando o uso de medicamentos chamados antagonistas dos receptores de orexina para tratar a insônia e verificar se isso influencia a eliminação de Aβ do cérebro.
Se você está preocupado
Essa é uma área emergente da ciência, e ainda não temos todas as respostas sobre a relação entre sono interrompido e demência – ou se dormir melhor realmente fortalece o sistema glinfático e previne o declínio cognitivo.
Portanto, se você estiver preocupado com seu sono ou cognição, procure um médico.
Fonte: O Globo






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