Como a arte pode ser a 'próxima revolução' no tratamento de transtornos mentais e doenças crônicas
- Portal Saúde Agora

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Imagine sair de uma consulta médica com a prescrição de, assim que possível, visitar um museu, ir ao teatro, ao cinema ou a um show — tudo isso sendo seriamente considerado como uma ferramenta de tratamento. Parece insólito, é verdade, mas a prática começa a ganhar força no Brasil e no mundo e tem até nome. São as “prescrições sociais” que miram na necessidade de conexão com o outro e, portanto, na capacidade da arte (e outras atividades coletivas) de aproximar pessoas, contar histórias, partilhar contextos, entre outros aspectos.
Projetos realizados na Bélgica e na Suíça, por exemplo, permitiam que médicos dessem indicações de visitas a museus para quem passa por desafios de ordem psicológica, da depressão ao burnout, como uma forma de promover o bem-estar.
No Brasil, a conversa sobre atividades artísticas também ocupa as consultas e fazem parte da anamnese (a conversa entre médico e paciente que coleta informações para diagnóstico e tratamento) de diversos psiquiatras.
— A prescrição de atividades culturais entra como uma ferramenta terapêutica adjuvante, ela não substitui medicação. — explica Priscila Rocco, psiquiatra e psicoterapeuta do Hospital Sírio-Libanês. — Ela pode colaborar com o alívio de sofrimento psíquico. E, nesse caso, a gente não precisa de um diagnóstico psiquiátrico para oferecer. O nosso foco pode ser aliviar o estresse, por exemplo.
Priscilla explica que um dos ganhos desse tipo de atividade é, basicamente, a manifestação “não verbal” de alguns dos sentimentos. Ou seja, vai além de só incentivar o paciente a sair de casa e dar uma volta, tem a ver com o contato com novas narrativas e interpretações do mundo, da sociedade.
Luiz Gustavo Zoldan, psiquiatra e gerente médico da unidade de saúde mental do Einstein, diz ainda que esse tipo de prescrição pode ir além e não só “remediar” diagnósticos de saúde já conhecidos, mas trabalhar na promoção da boa saúde, ou seja, na área da prevenção de problemas psíquicos.
— São atividades que ajudam a reduzir estresse, desacelerar o ritmo mental, ampliar a percepção de si, do mundo, gerar emoções positivas, o que ajuda a contrabalancear emoções negativas — diz. — Isso contribui para o bem-estar emocional de forma concreta, e tem impacto na promoção de saúde e no cuidado de transtornos como depressão e ansiedade.
A prescrição, dizem os especialistas, não pode ser feita de maneira generalista, mas deve levar em consideração experiências anteriores e os gostos do paciente. Ou seja, se a pessoa costumava ir a exposições e em algum momento deixou de ir, é uma ótima ideia voltar ao hábito de visitar museus. Mostras temáticas sobre assuntos como futebol, música e história — quando se conectam com algo que já despertava uma vontade anterior — também são mais do que válidas. Além disso, o vínculo entre médico e paciente também pesa na hora de aderir, ou não, à indicação.
— Muitas vezes eu tenho trocas com meus pacientes, não só eu recomendo coisas, mas também recebo referências que podem ser úteis. Por vezes, alguns comentam sobre obras literárias que se relacionam com sentimentos que eles estão vivendo — conta.
No Reino Unido as chamadas “prescrições sociais” miram ainda em pessoas que estão sozinhas ou se sentem isoladas, além de questões mentais diversas. O serviço abrange atividades culturais como grupos de coral, aulas de dança, visitas a galerias, sessões musicais e ainda abre espaço para atividades como grupos esportivos e práticas onde há contato com a natureza.
Os dados mais recentes sobre o uso da prática dão conta de que, apenas no ano de 2023, 1,3 milhão de pacientes receberam prescrições do tipo. Um número que ultrapassou a estimativa de 1 milhão de prescrições anteriormente projetada para aquele ano. A taxa de recusa, mostrada por dados coletados pela Universidade College London, baixou de 22% para 12% entre 2017 e 2023. Ou seja, há uma grande demanda de interessados.
Uma das maiores especialistas no tema em todo o mundo, a pesquisadora e professora Jill Sonke, ligada à Universidade da Flórida, conta que ao menos 40 países adotam algum tipo de prescrição social, e a maior parte dessas localidades conta com prescrições de atividades artísticas. O Canadá e o Reino Unido, ela explica, têm avançado rapidamente nesse tipo de prática.
Uma publicação recente da professora Sonke junto a outros pesquisadores, porém, chama atenção ao demonstrar que as atividades culturais têm impactos positivos que vão além dos desafios de ordem mental. Eles podem ser benéficos também para reduzir doenças não transmissíveis, como diabetes e obesidade, que figuram como grandes desafios em termos de saúde global. O estudo — que fez uma revisão de 95 artigos com análises de programas artísticos em 27 países — foi publicado em outubro de 2025 na revista Nature.
— A informação complexa, com a arte, pode não só ser mais compreensível, mas também mais empolgante por conta da diversidade de formatos que pode usar — afirmou a pesquisadora ao GLOBO.
Além disso, explica a professora, atividades culturais que incluem moradores de uma determinada comunidade podem mostrar aos especialistas em saúde quais são os aspectos sociais e econômicos que, naquela região, são os motores para o avanço das doenças crônicas não transmissíveis, como a obesidade e o diabetes.
— A arte pode dar voz a essas pessoas que não têm tido espaço para falar — conta.
Embora ainda exista uma resistência em incluir atividades artísticas como verdadeiras promotoras de saúde, a professora acredita que viveremos uma verdadeira “revolução”, na qual esse tipo de participação se tornará cada vez mais relevante para a saúde individual e coletiva.
— Nos anos 1950, os exercícios físicos eram hobbies. Nos anos 1980, porém, as pessoas começaram a fazer caminhadas, aeróbicos, tinha uma revolução em andamento, mas ainda havia dúvidas para determinar o benefício do exercício do corpo. Essa evidência aumentou com a chegada de novos estudos. Hoje, por outro lado, a pergunta se o paciente faz atividade física está, basicamente, em todas as consultas médicas — conta. — Em relação às artes e a saúde sinto que estamos neste momento no mesmo patamar que os exercícios físicos estavam em 1980. Temos evidências fortes, mas talvez não fortes o suficiente ainda, e a compreensão não foi socializada. Mas estão próximas de ser.
Fonte: O Globo






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