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Cannabis para 'bem-estar': brasileiras criam startup para explorar novo nicho



Uma nova empresa do emergente setor da cannabis medicinal no Brasil está buscando um nicho que ainda não era alvo dos grandes laboratórios que entraram no setor. Lançada como startup, com investimento inicial de uma médica e de uma executiva egressa da indústria química, a nova companhia divide operações em empresas separadas, uma na Califórnia outra no Brasil, e tem como foco o uso de derivados da maconha para "bem estar".


Num momento em que o uso controlado de cannabis passa por uma abertura, com produtos baseados na planta disponíveis até pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em São Paulo, a empresa quer explorar um nicho ainda não trilhado pelas grandes farmacêuticas que atuam no setor.


Enquanto laboratórios como Eurofarma, Biolab e Hypera buscam suprir a demanda de cannabis medicinal para os portadores de síndromes graves (elegíveis para receber o produto via atendimento público), a Humora, nova no setor, explora o mercado de quem tem sintomas mais triviais.


O histórico de decisões judiciais e regulatórias em favor do uso médico de derivados da maconha tem sido até agora movido pela comoção com pacientes de problemas como síndromes de Dravet, Lennox-Gastaut e para Esclerose Tuberosa. Portadores dessas doenças, que provocam convulsões, são aqueles elegíveis para obtenção do produto via SUS. Mas a nova startup desenhou seus compostos para problemas como insônia, TPM, falta de libido, baixa imunidade e dor crônica.


A CEO e fundadora da empresa é a paulistana Ana Júlia Kiss, egressa da indústria química no ramo de colas industriais, que teve experiência como executiva tocando o negócio criado por seu pai. Pouco depois de a companhia familiar ser adquirida por uma multinacional, a empresária vendeu sua participação e deixou o negócio, buscando uma fronteira nova de investimento.


— Foi com parte dessa liquidez que eu decidi fundar a Humora — conta Kiss. — Nós temos também tem um 'investidor anjo', que é uma médica e temos a possibilidade de abrir uma rodada de investimento no segundo semestre para entrar dinheiro em 2025.

A empresária não revela ainda quem é sua parceira de negócios.


A inspiração para criar a empresa, disse, veio de sua experiência vendo o mercado da cannabis crescer nos EUA e de uma experiência com o uso medicinal em seu círculo pessoal. Ela conta que um ex-companheiro portador de doença de Chron, uma síndrome imune que afeta o intestino, não conseguia melhora com medicamentos comuns e só controlou os sintomas quando iniciou tratamento com extrato de canabidiol (CBD), o principal composto ativo da maconha ao lado do tetrahidrocanabinol (THC).


Todos os produtos da nova empresa tem zero teor de THC e são ancorados apenas em CBD, que não é um composto psicoativo (ou "não dá barato", em linguagem popular). Kiss reconhece que isso foi em parte uma escolha, porque o estigma do uso recreativo da maconha, ainda não liberado no Brasil, não é fácil de administrar.


Concierge


Operando há menos de um ano, outro entrave para o negócio é o status ainda precário de regulamentação da cannabis medicinal no Brasil. Sem poder plantar nem processar matéria prima no país, a Humora existe hoje como uma empresa separada em duas. Kiss manufatura seus produtos hoje na Califórnia e escoa parte dos lotes feitos ali para estados americanos onde o CBD é liberado. Uma outra parte é destinada à exportação para o Brasil. A empresa não tem concorrente local em solo brasileiro ainda, mas como o único acesso ao produto é a importação direta, na prática a concorrência é internacional.


— Nossa operação brasileira é uma empresa de assessoria para obtenção do tratamento — ela conta.


O serviço de "concierge" que a Humora oferece no Brasil é uma ajuda no contatos com médicos que estejam atualizados com o uso clínico da cannabis, junto de um suporte para expedir a documentação necessária, como um despachante. Quem quer adquirir o produto precisa submeter uma receita médica e um pedido eletrônico diretamente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).


— A Anvisa exige basicamente que a gente tenha três coisas na receita: o nome do produto à base da cannabis, a dosagem e a posologia — afirma Arailton Neto, médico da família com prática no Rio de Janeiro que receita ocasionalmente produtos à base de cannabis.


A receita não é controlada, mas para rastrear as importações, a referência do fabricante precisa ser explicitada na receita. O rito burocrático requerido para a aquisição do produto, reconhece Kiss, encarece o preço para o paciente e ainda é um entrave nos negócios. A proibição de plantar e processar a matéria prima no Brasil também onera.


O site da empresa não explicita preços. Arailton Neto explica que o custo de uma terapia pode variar muito conforme o porte do paciente e a dosagem receitada, independentemente da marca escolhida para importação.


— Um frasco de óleo de CBD, que é a medicação de derivado de cannabis mais prescrita no Brasil, em alguns casos dura um mês de tratamento. O preço parte de R$ 250 e vai ao infinito e além — diz. — Tem medicação custando mais de R$ 1.000.


Mercado em expansão


Citando os EUA e países da Europa, Ana Júlia Kiss se diz esperançosa de que a regulamentação de produtos de cannabis vai avançar no Brasil e criar um ambiente mais favorável para a prescrição de CBD para problemas de saúde não crônicos.


— Fora do Brasil, os números grandes do mercado de cannabis já não vêm mais do crônico. Eles vêm do bem estar, do uso recreativo e de outros fins — diz Kiss. Uma busca de diferenciar seu produto, ela afirma, foi o de criar formulações específicas para cada indicação. O CBD para insônia é administrado com melatonina, por exemplo, e o produto para TPM tem Vitex agnus, que ajuda a relaxar o útero.


Operando desde julho do ano passado, a Humora informa estar atendendo cerca de 200 clientes no Brasil, e que o número está crescendo ainda. Na Califórnia a empresa não busca consumidor final, e abastece pontos de venda indiretamente. Nos EUA um preço típico de um frasco de óleo de CBD na prateleira final é de US$ 20 (R$ 100), afirma a empresária.


Quando se trata de produtos que requerem prescrição, outro fator limitante no Brasil é uma comunidade médica com muitos focos de resistência ao uso da cannabis medicinal, inclusive em círculos influentes.


"Não existe cannabis medicinal. Existe canabidiol, que é útil para pouquíssimas doenças neurológicas" escreveu na semana passada em artigo Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, que é favorável ao endurecimento à criminalização da droga. "A indústria da cannabis utiliza o termo medicinal para abaixar a percepção de risco desta substância."


Regulamentação em evolução


Os ventos do sistema regulatório sopram ora para o lado do fechamento ora o lado da abertura, o que traz riscos para o ambiente de negócios no setor. Em outubro passado, por exemplo, o Conselho Federal de Medicina (CFM) expediu uma resolução que vetava a prescrição de CBD para doenças fora de um número limitado de síndromes nervosas. Duas semanas depois, após o Ministério Público Federal questionar a legalidade da normativa, o CFM a suspendeu.


Os médicos mais influentes favoráveis à abertura, a maioria em instituições de pesquisa, afirmam que existe já um corpo de literatura médica que justifica a indicação da cannabis para problemas de saúde mais prevalentes. O Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa publicou um relatório reunindo o resultado de 193 estudos de revisão sobre ensaios clínicos para uso medicinal da planta e derivados.


"Analisando-se apenas as revisões de alto nível de qualidade (34), foi possível identificar revisões que indicaram efeitos positivos para segurança do paciente, alívio da dor, dor neuropática, insônia, qualidade do sono, convulsões, epilepsia, transtornos de ansiedade e transtornos cognitivos", afirmou o documento, liderado pela neurocirurgiã Patricia Montagner.

Arailton Neto afirma que, apesar da onda de conservadorismo no Brasil causar receio, o meio médico está se abrindo mais para a cannabis.


— Cada vez mais os médicos estão dispostos a considerar essa opção terapêutica, desde que a gente tenha evidência científica — afirma. — Quem não está se atualizando nesse sentido está ficando sem ter como dar contrapartida para o paciente.


Fonte: O Globo

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