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O que é 'personalidade Ozempic'? Remédio pode achatar emoções em pacientes

Remédios da classe GLP-1, como Ozempic e Wegovy, tornaram-se referência global no tratamento de obesidade e diabetes tipo 2. Mas, à medida que o uso se expande, um efeito colateral mais sutil tem chamado a atenção de médicos e pesquisadores: a redução da capacidade de sentir prazer, não apenas por meio da comida, mas também por atividades antes consideradas fonte de alegria.


O fenômeno tem um nome clínico: anedonia. E nas redes sociais, ganhou um apelido coloquial de "personalidade Ozempic". O Washington Post publicou levantamento sobre relatos de pacientes e médicos que descrevem um tipo de "embotamento emocional", uma sensação de que tudo ficou indiferente.


O que é anedonia e por que os GLP-1s podem causá-la


A anedonia é definida clinicamente como a perda de interesse ou prazer em atividades que antes eram fonte de satisfação. No contexto dos GLP-1s, médicos relatam que alguns pacientes descrevem dificuldade em se motivar para hobbies, relacionamentos e até o trabalho, sem que isso configure depressão clínica.


A hipótese mais investigada envolve a dopamina, neurotransmissor central no sistema de recompensa do cérebro. Daniel Drucker, pesquisador de obesidade no Instituto de Pesquisa Lunenfeld-Tanenbaum, no Hospital Mount Sinai de Toronto, explica que os GLP-1s parecem reduzir a atividade em regiões cerebrais associadas ao prazer. Esse mecanismo provavelmente explica por que os medicamentos suprimem o chamado "ruído alimentar", o impulso persistente de comer, e também reduzem o desejo por álcool, nicotina e outras substâncias.


O problema, segundo Drucker, é que esse efeito pode, em algumas pessoas e em determinadas doses, ir além do pretendido e afetar outras vias de recompensa. Um pesquisador da Universidade da Flórida que estuda a sinalização de dopamina em animais observou que a resposta a recompensas de alto valor fica cronicamente reduzida. Em outro laboratório, no estado de Michigan, resultados aparentemente opostos: o sinal de dopamina se mostrou mais sensível, levando o cérebro a atingir a sensação de satisfação mais rapidamente e, portanto, precisar de menos estímulo. Mecanismos diferentes, resultado semelhante: menos desejo.


Evidências contraditórias


Os GLP-1s também acumulam dados favoráveis em saúde mental. Um estudo publicado em abril de 2026 na The Lancet Psychiatry, com cerca de 95.000 participantes acompanhados por registros nacionais suecos, mostrou que pacientes que usaram semaglutida apresentaram risco 42% menor de piora de transtornos mentais em comparação a períodos sem o medicamento, com redução de 44% para depressão, 38% para ansiedade e 47% para uso de substâncias.


Em março de 2026, outro estudo publicado no BMJ analisou dados de cerca de 606.000 veteranos dos EUA e associou os GLP-1s a menor risco de mortes e hospitalizações ligadas ao uso de drogas.


Os dados apontam, portanto, para uma contradição aparente: os mesmos medicamentos que parecem beneficiar a saúde mental de uma população mais ampla podem, em um subconjunto menor de pacientes, produzir efeitos no sentido oposto. Os dois fabricantes dos principais produtos do segmento, Novo Nordisk (Ozempic e Wegovy) e Eli Lilly (Mounjaro e Zepbound), afirmaram que a anedonia não figura como efeito adverso documentado nos estudos clínicos e que a segurança dos pacientes é prioridade.


Spencer Nadolsky, especialista em obesidade com grande audiência online, afirmou ao Washington Post que começou a ouvir relatos de perda sutil de motivação entre seus pacientes há cerca de um ano e meio. Na maioria dos casos, a redução da dose resolvia o quadro em poucas semanas. Para casos mais persistentes, ele recorre à bupropiona, antidepressivo que potencializa a atividade dopaminérgica.


Nadolsky e um pesquisador da Universidade da Flórida estão compilando um conjunto de cerca de 100 casos extraídos de milhares atendidos para tentar caracterizar melhor o fenômeno. A pesquisa é preliminar e ambos ressaltam que ainda não está claro se o efeito é farmacológico, psicológico ou uma combinação dos dois.


Fonte: Época Negócios

 
 
 

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