Lo-fi e 'ficção de cura' ajudam mesmo a relaxar? Conheça as estratégias que fazem sucesso com o público jovem
- Portal Saúde Agora

- 7 de out. de 2024
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Acordar, se arrumar com rapidez para não atrasar, atravessar a cidade para trabalhar, pegar trânsito enquanto corre para a faculdade e, finalmente, esperar pelo momento de voltar para casa. Kamila Monteiro, de 30 anos, se vê sugada pela realidade acelerada, com estímulos por todos os lados. Assim, seria fácil acabar presa à tela do celular por horas a fio nos momentos que deveriam ser de descanso.
No entanto, a estudante de pedagogia encontrou duas estratégias para conseguir estabelecer um período de relaxamento efetivo ao fim do dia. O gênero musical lo-fi, ouvido principalmente em plataformas de vídeo e áudio, combinado com os livros de “healing fiction” ou “ficção de cura”, em tradução livre, também chamados de “literatura de conforto”.
— Eles me ajudam muito a relaxar porque sinto que minha mente desacelera. Os dois “abafam” o ambiente ao redor, você se sente seguro e calmo dentro de uma bolha — explica Kamila.
De acordo com a neurologista Bruna Gambirasio, especialista em neuro-oncologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em uma sociedade conectada por meio dos celulares e computadores como a nossa, os níveis de cortisol (hormônio responsável pelo estresse) das pessoas que passam muito tempo online tendem a ser mais altos:
— Nós vivemos um período em que tudo é muito acelerado e estimulante quando pensamos sob uma perspectiva cerebral. O cérebro é colocado em uma atmosfera multitarefas. Nela, uma pessoa faz várias coisas ao mesmo tempo, como ouvir uma música estimulante enquanto vai rolando o feed. Isso cria um acúmulo de estímulos e também gera sobrecarga de informações.
Uma rota de fuga contra o estresse
Assim como Kamila, diversos jovens das gerações Z e millennials encontraram alento nesses recursos para fugir do estresse e da ansiedade provocados pela cobrança — principalmente mental — da rotina diária. Nas mídias sociais e plataformas de vídeo, as comunidades em torno de leituras voltadas ao bem-estar e também a busca por músicas “calmas” não param de crescer.
A Intrínseca, uma das editoras responsáveis por trazer ao Brasil obras literárias com o perfil “de conforto”, define o gênero como algo “que se passa em ambientes acolhedores e nos permite mergulhar no desenvolvimento dos personagens e nas relações humanas”.
Um dos livros do gênero mais conhecidos e vendidos no país é “Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong”, da coreana Hwang Bo-Reum. Nele, a personagem Yeongju abre uma livraria após questionar as escolhas feitas na sua vida até aquele momento. Em sua jornada, o local se torna um espaço de “cura” também para outras pessoas.
Segundo a psicóloga e professora Edna Ponciano, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ao ler um livro, independentemente do gênero, a pessoa passa a estar presente no agora, enquanto ocorre uma combinação da própria experiência emocional e a do outro (o narrador).
— Com a literatura você tem uma experiência catártica e a possibilidade de expressar o que sente e não consegue elaborar. Por outro lado, uma diferença desse gênero literário é que ele é voltado para a superação dos problemas. Esse enquadro ajuda na ideia de que tudo vai ganhando sentido, se organizando, aí vem o clímax e a resolução de tudo que foi apresentado na narrativa — analisa a professora de psicologia.
Quanto ao lo-fi, o gerente de cultura e tendências do Youtube (plataforma de vídeos que abriga os canais mais famosos de lo-fi), Bruno Telloli, explica que o gênero musical deu seus primeiros passos nos anos 1980, mas a internet o aproximou do público geral e foi a catalizadora para a atual popularidade.
— Ele surgiu há bastante tempo e é caracterizado por batidas suaves e relaxantes. Um dos principais canais no YouTube do gênero é o Lofi Girl, muito conhecido por reunir uma verdadeira comunidade em torno desse conteúdo. Ele possui um vídeo, por exemplo, que já ultrapassa 109 milhões de visualizações — respalda.
Kamila conta que o canal mais procurado por ela é, justamente, o Lofi Girl, que oferece playlists fixas e vídeos de transmissões com músicas sortidas. Quando combinado com um livro reconfortante, é como “comer um pão na chapa junto com um café quente”.
— É o meu favorito para ler, sempre procuro por ele quando começo meu tempo de leitura do dia. Os dois me lembram que eu posso me dar ao luxo de me preocupar apenas com coisas triviais também — afirma.
Ponciano, que é pós-doutora pela Universidade de Coimbra, em Portugal, aponta que os sons com ritmo mais lento trazem um aspecto de nostalgia e contribuem para a sensação de bem-estar.
Estas alternativas realmente ajudam a relaxar?
É consenso entre as especialistas que estar “presente” é uma forma eficaz de combater a ansiedade e o estresse. A partir dessa perspectiva, a nível cerebral, o lo-fi ajuda a neutralizar outros estímulos e como consequência, a pessoa passa a conseguir se concentrar em apenas uma coisa por vez. Ambos podem facilitar esse exercício de estar focado no agora. Mas como isso se dá?
A música mais tranquila consegue, em primeiro lugar, desligar o modo multitarefas e ligar o modo foco do cérebro. Uma boa analogia é pensar no lo-fi como algo que aumenta a força da “lâmpada cerebral” ligada ao invés de acender uma “segunda lâmpada” — como é o caso da música comum, que causaria uma sobrecarga de atenção.
Isso ocorre porque o instrumental leve ou os sons característicos do lo-fi tendem a se repetir, portanto, são percebidos como algo monótono pelo cérebro. Dessa forma, não funciona como estímulo disruptivo que possa tirar a atenção da tarefa principal, mas vira uma parte do ambiente.
— Quando eu coloco essa música, posso também ter a liberação da dopamina (hormônio da satisfação, prazer e motivação) porque a tranquilidade desses sons suaves diminui tudo naquilo que está envolvido na questão da ansiedade. Além disso, sons mais suaves diminuem o cortisol, hormônio do estresse — explica a neurologista.
No caso da literatura, Gambirasio pondera que é o perfeito contraponto à realidade inatingível apresentada pelas redes sociais.
— Ela traz o foco para o momento presente, é uma atividade prazerosa e aumenta a dopamina. Mas a literatura de cura mostra que existe felicidade em coisas simples, atingíveis, quando comparada com a realidade pintada pelas redes sociais, das coisas inatingíveis. Por ser mais esperançosa, vai deixar a serotonina (o chamado “hormônio da felicidade”) mais disponível — afirma a neurologista.
Ponciano acredita que após finalizar um livro de “ficção de cura”, o segundo passo seria imediatamente refletir sobre a própria vida a partir dele, buscando inspiração e maneiras novas de encarar a rotina.
Mas a psicóloga reforça que o lo-fi e os livros não são ferramentas que funcionam de forma isolada:
— Isoladamente não apresentam um resultado excelente, mas se você pensar em combinar o lo-fi com a prática do yoga, fazer psicoterapia e trabalhar mentalmente para ter esse foco no momento presente, eu vejo essa ferramenta se encaixando de maneira perfeita para proporcionar uma vida mais equilibrada e sadia.
Embora todas as faixas etárias sejam bombardeadas por estímulos e vivam sob forte estresse, os mais jovens enfrentam fatores diferentes que os preocupam e, por isso, buscam novos caminhos para alcançar uma vida mais equilibrada. A psicóloga explica que este grupo faz parte da “adultez emergente”, afetado principalmente pela ansiedade em relação ao próprio futuro.
Uma diferença destas gerações para as anteriores, segundo ela, é o rompimento das expectativas de padrões tradicionais. Como diretores da própria história, se veem perdidos frente a uma infinidade de opções.
— É um contexto em que a pessoa se vê mais estressada porque não sabe o que fazer com tamanha liberdade. Por outro lado, esse aumento do estresse tem sido acompanhado de formas de regulação para lidar com essa adversidade do período de experimentações. Eu vejo que uma parte dos jovens estão recorrendo a estas formas de expressões artísticas para regular essas emoções — pondera Ponciano.
Fonte: O Globo




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