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Isso é realmente narcisismo? Psicólogo derruba 10 mitos sobre o transtorno

No TikTok, não faltam dicas para identificar um narcisista. Procure por "agressividade passiva", sugeriu um influenciador. Um narcisista é alguém que "cria dependência emocional", disse outro. Ser "extremamente charmoso e carismático, mas meio morto no olhar", explicou uma mulher enquanto se maquiava.


Décadas atrás, o termo narcisismo raramente era usado fora de um ambiente clínico ou de um estudo acadêmico. Hoje, no entanto, ele se tornou um "rótulo genérico para uma ampla gama de comportamentos desagradáveis ou frustrantes", afirma Virgil Zeigler-Hill, professor de Psicologia da Oakland University, nos Estados Unidos.


O narcisismo, ou o impulso de se sentir especial e único, é um traço de personalidade comum. Todos têm algum grau dele; aqueles que estão mais acima no espectro costumam ser egocêntricos e vaidosos, mas isso não significa necessariamente que tenham transtorno de personalidade narcisista (TPN).


Há critérios específicos para diagnosticar alguém com TPN. Alguns deles incluem uma necessidade inabalável de admiração, um senso elevado de autoimportância e falta de empatia em relação aos outros. Essas características não vão e vêm — elas são persistentes e geralmente causam sofrimento ou interferem nos relacionamentos, no trabalho ou em outras áreas da vida.


O quanto você entende sobre narcisismo? Veja se reconhece alguns dos mitos comuns abaixo.


Mito: os narcisistas mais prejudiciais têm um transtorno


Pessoas que não atendem aos critérios para transtorno de personalidade narcisista ainda podem causar dor aos outros e a si mesmas. O TPN é raro: estima-se que afete cerca de 1% a 2% dos adultos nos Estados Unidos.


Mas não é necessário ter um diagnóstico para ser considerado narcisista: profissionais de saúde mental descrevem narcisistas como pessoas que exibem comportamentos ou traços narcisistas acima da média.


— Isso pode incluir baixa empatia, arrogância, egoísmo, manipulação, engano, transferência de culpa e um impulso por buscar admiração, status e validação — diz Ramani Durvasula, psicóloga clínica e autora de "It’s not you: Identifying and healing from narcissistic people" ("Não é você: identificando e se curando de pessoas narcisistas", em tradução livre).


Os narcisistas são especialmente prejudiciais quando se tornam vingativos ou insensíveis, ou quando se aproveitam das vulnerabilidades dos outros. Segundo Durvasula, eles também têm grande dificuldade para administrar as próprias emoções.


— Ser narcisista muitas vezes pode significar uma vida se sentindo injustiçado, vitimizado, traído, desconfiado e desconectado dos outros. Não é uma forma agradável de viver — acrescenta.


Mito: todos os narcisistas são iguais


Ao longo dos anos, pesquisadores identificaram vários tipos diferentes de narcisistas.


  • Narcisismo autônomo é o que a maioria das pessoas imagina ao pensar em um narcisista. Esses indivíduos são confiantes, assertivos, arrogantes e têm forte senso de autoimportância, além de serem focados em status, poder e sucesso.

  • Narcisismo neurótico é caracterizado por uma necessidade constante de validação e sensibilidade à crítica e à rejeição. Essas pessoas frequentemente vivenciam vergonha intensa, ansiedade, instabilidade emocional, insegurança e dúvida sobre si mesmas.

  • Narcisismo antagonista se manifesta de forma competitiva, exploratória e hostil. Essas pessoas estão dispostas a rebaixar os outros para se sentirem superiores e também carecem de empatia.


As pessoas não se limitam a expressar apenas uma forma de narcisismo. Em vez disso, podem apresentar qualquer combinação dos três traços — alguém pode ter níveis altos em dois e baixos em outro, ou exibir perfis mistos.


Mito: nenhuma pessoa narcisista tem empatia


Pessoas narcisistas são capazes de empatia, mas ela costuma ser utilitária.


— Os narcisistas podem demonstrar empatia quando precisam de algo — diz Durvasula.


Em certas situações, acrescenta ela, podem expressar empatia quando querem criar a percepção de que são empáticos. Em outros casos, entendem a necessidade de empatia, mas simplesmente não se importam em mobilizar uma resposta compassiva.


— Embora nenhuma dessas formas seja empatia profunda ou empatia compassiva, elas parecem e soam como empatia — ilustra Durvasula, demonstrando que isso frequentemente confunde as pessoas, que vivenciam momentos que parecem empatia, mas que desaparecem assim que o narcisista consegue o que quer.


Mito: narcisistas não sabem que são narcisistas


Os narcisistas sabem que são narcisistas. Estudos mostram que eles têm consciência dos aspectos negativos de sua personalidade.


— Eles sabem que parecem arrogantes, mas, para eles, isso não é um problema — afirma Mitja Back, professor de Psicologia da Universidade de Münster, na Alemanha, e especialista em pesquisas sobre narcisismo.


Em um estudo, pesquisadores perguntaram aos participantes até que ponto concordavam com a afirmação "eu sou um narcisista". Depois, eles preencheram o Inventário de Personalidade Narcisista, um dos testes mais utilizados para avaliar o narcisismo. Aqueles que se rotularam como narcisistas também obtiveram pontuações altas no teste.


Mito: um narcisista nunca muda


— O narcisismo não é um traço estático. Na verdade, tende a diminuir levemente ao longo da vida adulta — explica Ulrich Orth, professor de Psicologia do Desenvolvimento da Universidade de Berna, na Suíça. — Isso pode ocorrer, em parte, porque a empatia tende a aumentar com a idade — acrescenta.


Há também pesquisas que sugerem que as pessoas podem reduzir suas tendências narcisistas quando são incentivadas a se importar mais com os outros ou a refletir sobre seus valores.

Se os narcisistas realmente quiserem mudar, podem buscar ajuda terapêutica.


— Aqueles com tendências narcisistas autônomas ou antagonistas frequentemente resistem a procurar ajuda, em parte porque não se veem como necessitando dela ou porque encaram o tratamento como uma admissão de fraqueza — aponta Zeigler-Hill.


Em contraste, indivíduos com alto nível de narcisismo neurótico são mais propensos a buscar tratamento, geralmente por sofrimento relacionado à ansiedade, depressão e instabilidade emocional.


Mito: narcisistas não receberam amor ou valorização suficientes na infância


Quando se trata de parentalidade, evidências empíricas sugerem o oposto. A tendência de um pai ou mãe ver o filho como mais especial e merecedor do que outras crianças tem sido associada ao desenvolvimento de traços de personalidade narcisista desde cedo, de acordo com Orth.


— Mas a influência dos pais pode ser em grande parte genética — diz Back.


Pesquisas mostram que filhos de narcisistas têm maior probabilidade de pontuar alto nesse traço.


Pesquisadores teorizam que outros fatores, como amizades, relacionamentos amorosos e experiências na escola e no trabalho, podem desempenhar um papel ainda mais importante do que a criação parental no desenvolvimento de traços narcisistas.


Mito: narcisistas só pensam em si


Pessoas narcisistas podem se comportar de maneira cooperativa e prestativa, como ao fazer voluntariado ou doar para a caridade.


— A diferença está no porquê e no como elas fazem isso — aponta Sara Konrath, diretora do Programa Interdisciplinar de Pesquisa em Empatia e Altruísmo da Indiana University, nos EUA.


A motivação não é puramente altruísta, mostram as pesquisas. Elas estão mais interessadas em impressionar os outros e em obter algum tipo de benefício ou recompensa. Além disso, tendem a ajudar mais em público do que de forma anônima, para garantir que seus esforços sejam visíveis.


Mito: pessoas narcisistas costumam ser bem-sucedidas


O narcisismo, por si só, não garante sucesso, mas pode oferecer vantagens.


Alguém com uma dose saudável de narcisismo tende a possuir "confiança, assertividade e forte motivação para liderar", sugere Zeigler-Hill, e isso frequentemente contribui para o sucesso pessoal e profissional.


Mas os narcisistas, assim como todas os outras pessoas, também têm outras características. Se tiverem habilidades sociais ruins ou forem desorganizados, isso pode ser um obstáculo à realização. O sucesso deles também depende das expectativas das pessoas ao redor.


Como líderes narcisistas tendem a ser decisivos e agressivos e a buscar validação, eles podem ser muito úteis quando é importante mudar as coisas em um curto espaço de tempo, diz Back, acrescentando que são menos úteis "quando é mais importante manter a estabilidade e seguir como as coisas estão".


Mito: narcisistas têm alta autoestima


O narcisismo não é sinônimo de autoestima. Pesquisas revelam que alguns narcisistas, na verdade, têm autoestima frágil.


— Por exemplo, uma pessoa com alto nível de narcisismo neurótico pode se sentir confiante apenas quando recebe elogios sobre sua aparência ou conquistas, mas rapidamente se torna ansiosa ou ressentida quando essa validação desaparece, deixando sua autoestima em constante oscilação — explica Zeigler-Hill.


Mesmo aqueles com tendências grandiosas, acrescenta ele, frequentemente abrigam percepções excessivamente positivas de si mesmos que dependem de validação externa constante.


Mito: pessoas narcisistas não sentem remorso


Pessoas narcisistas sabem quando fizeram algo errado, mas isso não as impede de repetir o comportamento.


— Qualquer culpa rapidamente se transforma em vergonha e depois em transferência de culpa: "Ok, eu te traí, mas o que você esperava? Você nunca me dá atenção" — exemplifica Durvasula. — Em vez de serem vulneráveis e responsáveis, pessoas narcisistas atacam quando são confrontadas.


Se você sente que alguém em sua vida manipula, mente e faz gaslighting, e não tem certeza se essa pessoa é narcisista, pode ser útil escolher um momento mais calmo para conversar sobre seus sentimentos. Durvasula chama isso de "entrar na jaula do tigre".


— Se a pessoa demonstra responsabilidade genuína, então existe a possibilidade de reparação e crescimento — acrescenta.


Se, no entanto, sua tentativa de abordar o problema for recebida com mais transferência de culpa e raiva, é mais provável que se trate de uma personalidade narcisista.


— Talvez seja melhor não voltar a entrar nessa jaula — conclui Durvasula.


Fonte: O Globo

 
 
 

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