Cientistas testam vacinas para barrar câncer de intestino antes que ele se forme
- Portal Saúde Agora

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A médica Stacy Norton tinha apenas 7 anos quando a mãe morreu de câncer de intestino, uma entre várias pessoas da família que tiveram tumores agressivos em idades incomumente jovens.
Décadas depois, Norton arregaçou a manga para ajudar a testar se um novo tipo de vacina poderia protegê-la — e também seus filhos — contra o câncer.
A médica de Houston está entre cerca de 1 milhão de americanos que têm síndrome de Lynch, uma alteração genética herdada de um dos pais que aumenta muito o risco de câncer colorretal e também deixa essas pessoas mais vulneráveis a alguns outros tipos de câncer.
Em geral, elas são orientadas a fazer colonoscopias todos os anos — com uma frequência bem maior do que a recomendada para a população em geral — para identificar e remover lesões pré-cancerosas chamadas pólipos.
Agora, cientistas estão desenvolvendo vacinas que pretendem ir além, ensinando o sistema imunológico a interromper esse processo antes que o câncer de intestino se transforme em um tumor.
Pelo menos três possíveis vacinas contra a síndrome de Lynch estão em desenvolvimento, incluindo duas em fases iniciais de testes clínicos nos Estados Unidos e uma terceira que começa a ser testada no Reino Unido.
A vacina que Norton ajudou a testar apresentou resultados considerados promissores o suficiente para que o pesquisador responsável, Eduardo Vilar-Sanchez, do MD Anderson Cancer Center, espere iniciar um estudo maior no começo do ano que vem.
“Isso me dá esperança”, disse Norton, de 59 anos, do Houston Methodist Willowbrook Hospital.
Ela já havia sobrevivido a outro câncer causado pela síndrome de Lynch e tem dois filhos, na faixa dos 20 anos, que herdaram a mesma mutação. Se uma vacina funcionar, “talvez eles não precisem fazer uma colonoscopia todos os anos pelo resto da vida”.
Síndrome de Lynch é causada por uma mutação genética hereditária
Todas as pessoas têm genes chamados de reparo de incompatibilidade, que funcionam como uma espécie de corretor para consertar erros no DNA que podem ocorrer quando nossas células se multiplicam.
Na síndrome de Lynch, um desses genes não funciona adequadamente, o que dificulta a capacidade do organismo de impedir o acúmulo de alterações que podem levar ao surgimento de tumores, muitas vezes antes dos 50 anos.
O câncer colorretal é a consequência mais comum. Na população em geral, o risco de desenvolver a doença ao longo da vida é de cerca de 5%.
Entre pessoas com síndrome de Lynch, esse risco pode chegar a 80%, dependendo do gene alterado que foi herdado, segundo Vilar-Sanchez.
Outro risco importante é o câncer de endométrio, ou câncer do útero. Pessoas com síndrome de Lynch também têm maior chance de desenvolver outros tipos de câncer, incluindo os de pâncreas, estômago, ovário e alguns tumores de pele, além de um tipo de tumor cerebral que matou a irmã de Norton aos 25 anos.
Norton sabia que alguns parentes de sua mãe também haviam tido câncer de intestino, mas só descobriu que tinha síndrome de Lynch quando já estava na faixa dos 40 anos, após fazer um teste genético.
A partir daí, passou a fazer colonoscopias todos os anos. Como ginecologista e obstetra e conhecendo os outros riscos associados à síndrome, ela também decidiu fazer uma histerectomia preventiva. Durante a cirurgia, os médicos descobriram um câncer em estágio inicial no útero retirado.
Possíveis vacinas para prevenir câncer causado por alterações genéticas
Hoje existem duas vacinas capazes de prevenir tipos de câncer: as vacinas contra o HPV e contra a hepatite B, que evitam infecções por vírus que podem provocar tumores.
Desenvolver vacinas para prevenir câncer causado por alterações genéticas, porém, é mais difícil do que ensinar o organismo a reconhecer invasores externos, como vírus.
Lesões provocadas pela síndrome de Lynch “tendem a acumular centenas de mutações que vão gerar proteínas novas, que não são produzidas pelas nossas células normais”, disse Vilar-Sanchez. “É possível treinar o sistema imunológico para reconhecer essas proteínas.”
Em um estudo inicial, Norton e outras 44 pessoas com síndrome de Lynch testaram uma vacina desenvolvida pela empresa suíça de biotecnologia Nouscom. Ela ensina o sistema imunológico a identificar 209 alterações presentes em lesões pré-cancerosas causadas pela síndrome.
A vacina aumentou a atividade de células T capazes de eliminar tumores e, um ano depois, colonoscopias mostraram menos lesões pré-cancerosas e nenhum pólipo avançado, segundo resultados publicados pela equipe do MD Anderson na revista Nature Medicine.
“Será que conseguimos estimular ainda mais o sistema imunológico” para acompanhar a formação de tumores provocada pela síndrome de Lynch?, questionou John Marshall, oncologista da Universidade Georgetown e consultor da Colorectal Cancer Alliance, que não participou do estudo.
“Esse trabalho inicial sugere que sim, talvez seja possível.”
Pela primeira vez desde 2014, as colonoscopias de Norton feitas um e dois anos depois da vacinação não encontraram pólipos. Ela também faz parte de um grupo de participantes que recebeu uma dose de reforço um ano depois. Novos dados são esperados para este segundo semestre.
Pesquisadores da Universidade de Oxford também começaram os primeiros testes de uma abordagem semelhante para atacar lesões pré-cancerosas provocadas pela síndrome de Lynch.
A vacina, desenvolvida pela Moderna, usa a mesma tecnologia de RNA mensageiro empregada na vacina da empresa contra a Covid-19.
Cientistas também aguardam os resultados de um estudo um pouco maior que compara a vacina Tri-Ad5, da empresa americana ImmunityBio, com placebo. Essa vacina busca identificar outros marcadores relacionados ao câncer.
Síndrome de Lynch tem relação com aumento de câncer de intestino entre jovens?
Cerca de 158 mil pessoas são diagnosticadas com câncer colorretal a cada ano nos Estados Unidos, a maioria delas com mais de 50 anos.
Os casos entre adultos mais jovens estão aumentando, embora ainda não esteja claro o motivo.
A síndrome de Lynch afeta cerca de 1 em cada 279 pessoas. Embora a maioria não saiba que tem a condição, mais pessoas podem estar recebendo o diagnóstico, disse Vilar-Sanchez, à medida que testes genéticos passam a ser discutidos com maior frequência entre pessoas que têm casos de câncer relacionado à síndrome na família ou desenvolvem determinados tumores em idades mais jovens.
Esses testes também podem mostrar se parentes próximos correm risco.
Para a população em geral, as recomendações nos Estados Unidos orientam que o rastreamento de câncer colorretal — com colonoscopia ou outros exames — comece aos 45 anos.
Independentemente da idade, porém, é importante procurar avaliação médica diante de sintomas como sangue nas fezes ou sangramento retal, alterações persistentes no funcionamento do intestino, como diarreia, prisão de ventre ou afinamento das fezes por mais de alguns dias, perda de peso sem explicação, cólicas ou dor abdominal.
Fonte: G1




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