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Bruno De Luca: o que realmente significa se dissociar?



Na sexta-feira, o apresentador Bruno De Luca falou em suas redes sociais sobre o que tem vivido desde o dia 2 de setembro, quando seu amigo Kayky Brito foi atropelado na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. De Luca afirma ter passado por uma amnésia dissociativa, uma espécie de lacuna na memória associada a um trauma emocional.

Mas não é de agora que os eventos associados à dissociação têm se tornado pauta. O movimento de “sair de si mesmo” tem viralizado em redes sociais, tanto como uma forma de enxergar o mundo, como pelos relatos de pacientes com diagnósticos psiquiátricos, caso do transtorno dissociativo de identidade ou TDI. O que é se dissociar? Você já se distraiu? Talvez você tenha vivido essa experiência na estrada, sem nenhuma lembrança de ter dirigido do ponto A ao ponto B. Ou talvez você não tenha memória de algo que acabou de ler. Estas são formas leves de dissociação, que é a capacidade de nos desconectarmos de nossos pensamentos, sentimentos, ambiente ou ações.

A dissociação pode ser positiva e até ajudar os atletas a realizar o seu trabalho, por exemplo, porque “permite que as pessoas se concentrem nos aspectos mais salientes ou que preservam a vida de uma situação” sem interferência mental, diz Janina Fisher, psicóloga que trata distúrbios dissociativos há décadas. Porém, ela pode ocorrerem momentos específicos de estresse emocional, como foi com De Luca. Além disso, existem as pessoas que experimentam uma forma importante de dissociação, muitas vezes após um trauma avassalador. Neste caso, os sintomas dissociativos vão além, tornam-se mais extremos, frequentes e parte de um diagnóstico.

O fascínio público pela dissociação e seus distúrbios perdura há muitos anos – exemplos incluem os livros “Sybil” e “As Três Faces de Eva”, ambos adaptados para filmes extremamente populares, cada um sobre uma mulher com “personalidades múltiplas”.

Agora as pessoas estão compartilhando suas experiências com dissociação nas redes sociais. Os vídeos do TikTok com hashtag #dissociativeidentitydisorder (transtorno dissociativo de identidade), ou TDI, foram vistos mais de 1,7 bilhão de vezes e #dissociation (dissociação) atraiu mais de 775 milhões de visualizações.

Alguns mostram como é a dissociação ou usam efeitos visuais para explicar a estranha sensação de viver fora do corpo. Em outros, as pessoas descrevem suas diferentes identidades, também chamadas de alters ou partes.

Mas pesquisas sugerem que grande parte desse conteúdo disponível na internet em fóruns públicos não fornece informações confiáveis. Abaixo, veja o a explicação de profissionais de saúde mental sobre o que é a dissociação. Quais são os transtornos dissociativos? Em vez de lutar ou fugir numa situação estressante ou ameaçadora, algumas pessoas “congelam”, afirma Frank W. Putnam, professor de psiquiatria clínica na Faculdade de Medicina da Universidade da Carolina do Norte e especialista em transtornos dissociativos.

— Esse é o estado dissociativo em que você desliga e meio que vai embora — diz. Embora a dissociação possa ajudar uma pessoa a escapar mentalmente durante uma ameaça, ela pode interferir na vida diária quando as pessoas continuam a se dissociar durante situações benignas. Algumas pessoas podem se encontrar em um novo local sem saber como chegaram lá, por exemplo. Experiências frequentes como essa tornam a dissociação patológica, diz Putnam. Torna-se um distúrbio quando você se distancia e “perde tempo” por tempo suficiente para interferir em sua vida de forma significativa, acrescenta.

Os três transtornos dissociativos mais comuns e conhecidos são: transtorno dissociativo de identidade, transtorno de despersonalização/desrealização e amnésia dissociativa. O traço comum em cada um é uma ruptura de identidade. Transtorno dissociativo de identidade O mais grave é o transtorno dissociativo de identidade, anteriormente conhecido como transtorno de personalidade múltipla. Aqueles que experimentam TDI relatam ter duas ou mais identidades. Estudos indicam que cerca de 1% a 1,5% da população tem TDI. Mas alguns dizem que a prevalência pode ser maior.

— Acho que é subdiagnosticado— diz Judith Herman, psiquiatra e pioneira no campo dos estudos do trauma. Isso ocorre principalmente porque “você ainda ouve pessoas na minha área dizendo que não ‘acreditam em TDI’”.

Apesar da inclusão de TDI no DSM-5, o manual oficial de transtornos mentais da Associação Psiquiátrica Americana, alguns psiquiatras e psicólogos pensam que os pacientes com sintomas de TDI, na verdade, têm transtorno de personalidade limítrofe. Outros acham que é uma moda passageira ou que pode ser induzido.

Experimentar traumas graves na infância, como abuso sexual, é um preditor de desenvolvimento de TDI, dizem vários especialistas. Fisher reconhece que “é um diagnóstico difícil de acreditar, a menos que você o tenha visto”. Os pacientes apresentam alterações na linguagem corporal, expressão facial e capacidade cognitiva, acrescenta: — É meio dramático e parece quase fantástico. Transtorno de despersonalização/desrealização Acredita-se que o transtorno de despersonalização/desrealização ocorra em cerca de 1% a 2% da população e esteja frequentemente associado a um histórico de abuso verbal, como vergonha, que leva alguém a querer se desconectar de um ambiente emocionalmente traumatizante, diz Fisher. De acordo com a Associação Psiquiátrica Americana, aqueles que vivenciam a despersonalização podem, às vezes, sentir-se como se estivessem desligados de sua mente ou corpo – alienados de si mesmos – como se estivessem observando eventos acontecendo com eles.

A desrealização, por outro lado, refere-se ao sentimento de distanciamento do meio ambiente, como se as pessoas e as coisas no mundo não fossem reais, em alguns casos aparecendo como recortes de papelão. Amnésia dissociativa A prevalência da amnésia dissociativa não está bem estabelecida. Ocorre em resposta a uma variedade de tipos diferentes de trauma e envolve períodos de tempo em que você perde sua identidade e não consegue se lembrar de informações importantes sobre sua vida, como seu próprio nome. Por que os transtornos dissociativos atraem tanta atenção? — Pensei que a internet e o mundo baseado em aplicativos nos aproximariam mais. E teve exatamente o efeito oposto — afirma David Spiegel, professor de psiquiatria da Universidade de Stanford que trabalhou com pacientes com TDI por cerca de 50 anos. — Isso nos fragmentou.

O que ele quer dizer, explica, é que muitos de nós recuamos para as nossas próprias câmaras de eco online. Algumas pessoas realmente têm TDI, ou qualquer outro transtorno de saúde mental, mas outras podem estar se rotulando incorretamente porque estão presas a um looping de informações sobre TDI - por opção ou por meio de um algoritmo agressivo de mídia social.

A ideia de ter realidades alternativas ou identidades diferentes pode ressoar especialmente durante a adolescência, dizem os especialistas, uma época em que muitos adolescentes lutam com a questão “Quem sou eu?”

David Rettew, psiquiatra de crianças e adolescentes e diretor médico da Lane County Behavioral Health em Eugene, Oregon, trabalhou com muitos adolescentes que aprenderam sobre transtornos dissociativos nas redes sociais e agora estão questionando se os têm. Rettew incentivou qualquer pessoa curiosa sobre um distúrbio específico a falar com um profissional de saúde atencioso, especialmente alguém que entenda de trauma, para descobrir o que pode estar acontecendo.

— Quase tudo na saúde mental é dimensional. Existe em um espectro. E isso não torna as nossas condições menos reais, mas as torna mais complicadas — diz.


Fonte: O Globo

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