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Após Covid, cientistas mantêm preparação para potenciais futuras epidemias



Imagine que rumores de uma doença nova tenha chegado a uma cidade de 500 mil habitantes, com 11 casos, incluindo três mortes, com sintomas respiratórios compatíveis com uma pneumonia, mas atípica para a época do ano. Em comum, todos os pacientes frequentam uma mesma igreja, no centro da cidade, perto de um terminal de ônibus. Ou seja, com potencial para essa infecção se espalhar por outros bairros, cidades e até países.


Pode parecer o início de um filme de terror parecido com o que ainda está fresco na memória. Mas, dois meses após a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar o fim da emergência sanitária do novo coronavírus, enquanto a população retoma a vida normal, cientistas seguem mobilizados para garantir que as sociedades estejam preparadas, caso outro surto epidêmico venha a surgir. É com simulações hipotéticas como essa que pesquisadores brasileiros treinaram em São Paulo, nas últimas duas semanas, mais de 100 epidemiologistas cientistas, médicos e profissionais de várias áreas do conhecimento de 29 países para se prepararem para potenciais emergências sanitárias.

Realizada na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), na Zona Oeste da capital, a Escola de Preparação para Enfrentamento de Epidemias foi organizada por pesquisadores e docentes de universidades de várias partes do Brasil e áreas como saúde pública, imunologia, física, virologia e ciência política.

Entre eles está Ester Sabino, imunologista e professora da USP que atuou na epidemia de HIV na década de 1980 e, em 2020, estava no grupo de cientistas que mapeou o genoma do novo coronavírus.

Em 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia do novo coronavírus, ela e os demais organizadores já haviam se unido em grupos interdisciplinares como o Observatório Covid-19 BR e a Rede de Pesquisa Solidária, para ajudar o poder público a entender e combater a disseminação do Sars-CoV-2. Mais de mil inscritos Lorena Barberia, professora de ciência política da USP e integrante da organização do curso, explica que mais de mil pessoas se candidataram, e 104 foram selecionadas para o evento presencial.

Metade são de 12 estados brasileiros, e o restante veio de dezenas de países: Austrália, Afeganistão, Gana, Estados Unidos, Turquia e Chile, entre outros. “O desafio é multidisciplinar, não envolve só a área de saúde. Por isso recrutamos de tantas áreas diferentes, e também para estreitar a questão da academia com a gestão. A academia sozinha não pode estar desenvolvendo suas pesquisas e soluções sem estar nesse diálogo com os gestores” , disse a professora. Entre 10 de julho e este sábado (22), os selecionados participaram de aulas teóricas e práticas, incluindo laboratórios e visitas a órgãos públicos municipais e estaduais para entrevistas com gestores e técnicos sobre a resposta local à pandemia.

“Estamos fazendo um trabalho de questionamento, o que estão fazendo, qual é o preparo, qual é o plano”, explicou Lorena.

A professora aplicou nos últimos três anos metodologias de estudos quantitativos e qualitativos e séries temporais para mapear a resposta das autoridades em diversas áreas, como medidas de quarentena, fechamento de escolas. Mais recentemente aplicou os esforços para detectar e tratar a chamada Covid longa, ou síndrome pós-Covid, no Brasil. Covid longa Atualmente, a doença provocada pelo novo coronavírus não desapareceu de São Paulo, mas é considerada controlada. Dados mais recentes divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde registram em média cerca de 100 novas internações por dia de casos suspeitos e confirmados de Covid-19. São quase 250 pacientes ocupando leitos de UTI-Covid em todo o Estado.

Mas alguns efeitos são persistentes. Além das 180.819 mortes confirmadas pelo governo paulista até essa semana, a Covid longa é um dos desafios atuais da pandemia que ainda persistem.

Ela desafia os médicos, que já mapearam mais de 200 sintomas atrelados à condição. “A gente ainda está estudando bastante”, afirma Otavio Ranzani, médico e especialista em saúde global em Barcelona, e um dos selecionados para participar do evento na USP.

Nesta semana, ele e um grupo de pesquisadores publicou um artigo na revista científica The Lancet descrevendo diversos sintomas da doença. “A gente já aprendeu bastante desde o começo, mas ainda falta aprender coisas de tratamento, exatamente como lidar pra evitar a [síndrome] pós-Covid. Mas sim, ela existe e é um problema grande de saúde pública" , disse Otavio Ranzani. A nova doença foi incluída em uma chamada pública de financiamento para pesquisas que o Ministério da Saúde planeja divulgar até o fim do mês. Serão R$ 80 milhões destinados ao estudo de várias questões consideradas prioritárias pelo governo federal na saúde coletiva, incluindo saúde indígena, preparação para epidemias e Covid longa.

Segundo a imunologista Ana Caetano, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que neste ano assumiu o Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, o edital terá vários eixos, e um deles é a Covid longa e a preparação para pandemias.

"Porque a gente acha, primeiro, que a Covid é um exemplo, e a gente tem que aprender com ela para preparação para próximas pandemias. E outra questão é que a Covid longa mostrou que a pandemia não acabou, e a gente precisa ter maneiras e entender como lidar com esses pacientes que têm a doença crônica. Então isso faz parte de uma das linhas de pesquisa importantes desse edital, que é um edital de saúde coletiva", explicou a professora. Paciente é internada 9 vezes e tem sequelas O estudo publicado nesta semana traz uma estimativa ainda inicial, mas que o pesquisador diz que tem sido cada vez mais reforçada pelas novas pesquisas em andamento: a de que a Covid longa afeta diretamente entre 10% e 30% das pessoas que tiveram Covid-19 leve, e mais da metade dos pacientes que precisaram de internação. A analista de licitação pernambucana Jessika Carvalho, de 31 anos, que mora em São Paulo desde 2020, está dentro da estatística. Ela acabou infectada em junho do ano passado, após três doses da vacina e provavelmente pela variante ômicron, mas teve sintomas típicos da doença na época, principalmente dor de garganta.

O problema só começou vários dias depois.

“Aí passei a sentir mais dores no peito. Era como se fosse cãibra, dava um pouquinho e passava. Uma vez foi tão forte que acabei desmaiando. Dois dias depois acordei me sentindo muito mal acabei indo pro hospital e fiquei internada na UTI. Passei uma semana e tive alta”, contou ela ao SP1. Essa foi a primeira de nove internações nos últimos 13 meses. Os sintomas foram se agravando e pioraram depois de setembro, quando ela acabou sendo infectada novamente pelo vírus. A mais recente foi no último domingo (16), e ela passou a semana toda no hospital. “Eu passei a ter sequelas neurológicas, tive perda de memória, atualmente eu tenho lapso de tempo, de memória, disfunção cognitiva, enxaqueca crônica. Também fiquei com gastroparesia. O meu estomago não faz digestão de alimentos sólidos, só de pastoso e líquido”, explica Jessika. Com a série de internações e os efeitos diretos no cotidiano, ela acabou engordando mais de 20 quilos e chegou a perder uma promoção no trabalho.

Para Maria Amélia Veras, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, integrante do Observatório Covid-19 BR e co-organizadora do curso de preparação para emergências, a Covid longa é um bom exemplo de por que a ciência precisa continuar alerta ao problema, mesmo depois que casos caem e que autoridades tiram o foco da epidemia. “O fato é que não temos ainda todas as respostas sequer que digam exatamente o que é Covid longa, qual o conjunto de complicações, quanto tempo [duram], se são complicações permanentes, se vão desaparecer com o tempo... Isso exige um monitoramento desses casos” , disse. O que dizem os especialistas sobre prevenção O curso de preparação para futuras emergências de saúde discutiu ainda a possibilidade real de que o vírus Sars-CoV-2, que continua a passar por mutações, ganhe uma nova variante que escape da proteção vacinal existente no momento e provoque outros sintomas.

Ou mesmo que um novo vírus, talvez um Sars-CoV-3, por exemplo, acabe surgindo.

Para Pedro Arcos González, diretor da Unidade de Pesquisa de Emergências e Desastres da Universidade de Oviedo, na Espanha, e um dos professores do curso disse que “é impossível antecipar, mas é certeza que, por um lado, surgirão novos agentes e, por outro, os agentes já conhecidos se tornarão reemergentes”.

O epidemiologista americano Arthur Reingold, professor da Universidade Berkeley, na Califórnia, que também esteve em São Paulo para ensinar métodos de investigação epidemiológica.

Ele explicou que “ninguém pode dizer com certeza que uma nova pandemia vai ocorrer ou que um agente microbial ou vírus vai causá-la”, mas existe um consenso forte entre cientistas de diversas disciplinas de que é “apenas uma questão de tempo. Então nós estaremos muito melhor preparados do que estávamos para a Covid-19.”

Reingold lembra que, no início de 2020, os Estados Unidos eram considerados um modelo de preparação para lidar com uma epidemia desse tipo. “Mesmo, assim, vimos uma resposta decepcionante e inadequada dos Estados Unidos e de outros países ricos. Países de renda média e baixa também estava (e permanecem) mal preparados” , disse . Ele ressaltou que o mundo teve “sorte” de que o vírus Sars-CoV-2, assim como outros vírus que preocupam os cientistas, como poliomielite e sarampo, provocam infecções leves na maior parte dos casos.

“Mas ainda assim sofremos milhões de mortes, doenças gravas e efeitos duradouros de infecções pelo Sars-CoV-2.”

Pedro Arcos, que foi um dos fundadores da organização internacional Médicos Sem Fronteiras, lembra ainda que o mundo, em conjunto, não estava preparado para a Covid-19.

Segundo ele, países que anos antes enfrentaram epidemias dos vírus da Síndrome Respiratória Médio Oriente (MERS) e da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), principalmente na Ásia e Oriente Médio, estavam melhor preparados que o resto dos países.

O professor disse que cursos como o realizado em São Paulo servirão para o enfrentamento dos desafios do futuro. “Este tipo de evento é essencial para compartilhar conhecimento, contrastar experiências e criar redes de investigação que nos ajudem no futuro” , disse o professor .

Fonte: G1

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