A fórmula para superar as pressões e alcançar o prazer de não fazer nada nas férias
- Portal Saúde Agora
- há 3 horas
- 3 min de leitura

Com certeza vocês viram Cristian Castro, o novo guru do ócio. Para quem estava ocupado demais para ouvir o cantor — agora também militante do “não fazer nada” —, contamos que já faz algum tempo, em uma entrevista com Daniel Gebel, o mexicano passou a relatar que se dedica a “não fazer nada” em certos momentos da vida. Diante dessa afirmação, Gebel pediu mais detalhes, e a resposta não foi muito clara:
— Não faço nada, me dedico a não fazer nada, fico olhando para esse ponto que tem aqui…
A questão não avançou muito a partir daí, sobretudo porque Castro não fez nada para acrescentar explicações à sua fala, honrando a filosofia “nadista” na qual se embarcou naquele momento. O assunto repercutiu bastante, com muitas reações hilárias, e, embora ao ouvir o que Cristian dizia não fosse possível saber se falava sério ou brincando, na prática ele “deixou no ar” um tema abordado desde sempre por contemplativos, pelo budismo zen, por meditadores e filósofos de renome, que se debatiam entre “o ser e o nada” em meio a complexidades nas quais Castro, nem de longe, gostaria de entrar.
Digamos tudo: a evocação das palavras de Cristian Castro não é inocente. Trata-se de trazer o tema em plena temporada de férias, aquela em que muitos deixam suas ocupações para fazer outras, bem diferentes, como ir à praia, fazer caminhadas no sul, se refrescar na piscina ou se deleitar nas serras.
O furor das férias, para quem tem a sorte de poder vivenciá-lo, é diretamente proporcional ao tipo de vínculo que se tem com o trabalho e com as “obrigações” que a vida impõe. Não podemos negar que a palavra “pressão” faz parte do cotidiano de muitos — inclusive das crianças que, depois do turno integral, vão para o taekwondo, cerâmica ou aula particular, entre tantas outras atividades extracurriculares.
Fala-se em desconexão, descanso, diversão, socialização, aventura. Talvez não tanto em “não fazer nada”, embora essa imagem apareça ao longo do ano na mente de muitos como reação às pressões mencionadas. A dívida com as famosas listas de afazeres desgasta as almas e os corpos, e assim as férias se tornam a Terra Prometida que permite que nem tudo seja tão duro.
O problema é que, mesmo se quiséssemos “não fazer nada”, isso ainda seria um fazer. Nesse sentido, se levássemos ao pé da letra a proposta do nosso guru mexicano, ainda assim teríamos dificuldades para alcançar sua prática.
Fala-se, então, do estado meditativo, de “fluir” com a realidade em comunhão com ela, de olhar o mar, de habitar o silêncio. No entanto, aqueles que, em meio ao agito das férias, quisessem deliberadamente cumprir a pressão “nadista” (porque pode ser uma pressão, sim) acabariam mergulhando em uma daquelas paradoxais clássicas — como naquela piada que, em diferentes versões, circulava na infância quando íamos de carro: “não pense em um elefante quando passarmos debaixo da ponte”, o que imediatamente fazia com que mentes distraídas evocassem a imagem do paquiderme.
É verdade que as férias “industrializadas” geram certo estresse. É imperativo aproveitar bem para amortizar o investimento e corresponder ao que foi idealizado. É um clássico dizer que os primeiros dias de férias costumam ser um pouco turbulentos, até que se encontre o ritmo.
Esvaziar a mente
A solução não passa por levar adiante esse “nada” proposto por Castro, mas por ir observando, dia após dia, o que se quer fazer — incluindo no cardápio a possibilidade de esvaziar a mente quando isso surgir.
É comum que, quando alguém fica olhando para um ponto com a mente em branco, não falte quem se aproxime e pergunte: “Aconteceu alguma coisa?” ou “No que você está pensando?”, estragando tudo. Não é fácil o silêncio, o vazio, o olhar sem uma intenção ulterior.
A paradoxa, insistimos, é a militância do nada, porque ela já significa “alguma coisa”. Mas se, numa praia tranquila, pinta uma soneca, um olhar profundo para o mar ou ouvir a cadência das ondas; ou se, na pelopincho, de repente se sente a água e se observam os reflexos do sol nela, seria bonito validar esse estado, respeitá-lo e fazer com que ele seja respeitado.
Não sabemos o que Cristian Castro faz nas férias. Será que vive de férias? Vai saber. Por aqui, no entanto, agradecemos sua apologia ao “não fazer nada”, não tanto pelo conteúdo do que disse, mas pela oportunidade de introduzir, em territórios diferentes, um tema que, quando bem conduzido, permite beber nas fontes — aquelas que ficam distantes quando o ano se torna duro, pressionante e, às vezes, cruel. O curioso é que, em sintonia com esse nada ou vazio, podemos nos recordar como habitantes do Todo, recuperando uma dimensão que sempre está ali, mas que esquecemos no fragor das batalhas.
Fonte: O Globo


