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Você tem uma mente flexível? Veja as técnicas para encontrar novas soluções para problemas cotidianos



Os recorrentes fracassos de Martín em seus relacionamentos amorosos começaram a pesar sobre ele e o levaram a se questionar.


— Nos relacionamentos sou atencioso e carinhoso. Considerei que cuidei deles tentando sempre dizer o que é certo ou errado na minha perspectiva.


Para “cuidar” de seus relacionamentos, Martín revisou redes sociais, status de WhatsApp e olhou os horários em que sua namorada estava online.


— Não entendi por que meus parceiros terminaram o relacionamento quando coloquei muita atenção neles. Fiz o que era certo, tudo que me ensinaram quando era criança — conta.


Sempre acreditando que sua forma de abordar o namoro era a correta e com pouca capacidade de se colocar no lugar do outro, ele sempre tropeçava na mesma pedra em seus relacionamentos. Assim que decidiu recorrer à terapia, as sessões abordaram seus pensamentos negativos repetitivos, resultantes de sua inflexibilidade ou padrão rígido de comportamento.


Em casos como o de Martín, “o que se investiga é que eles não toleram sentir um alto nível de tristeza depois de uma perda, que é o que acontece depois de um rompimento amoroso”, destaca Marisol Barreiro, formada em psicologia e neuropsicóloga clínica, coordenadora da área de reabilitação do sanatório San Gabriel.


No contexto da terapia de Martín, o primeiro passo foi aceitar as suas emoções e pensamentos negativos, sem lutar contra eles. Ele tinha que encontrar uma maneira de lidar com eles. Ele também teve que aprender a evitar controlar os outros, tomando consciência de que os comportamentos e pensamentos dos outros estão além do seu controle.


— Em cerca de três meses percebi uma maior flexibilidade em mim mesmo e consegui aplicar as ferramentas que adquiri nas situações do dia a dia — revela.


A rigidez de pensamento e a falta de capacidade de adaptação às situações de mudança que surgem ao longo da vida traduzem-se em comportamentos que muitas vezes colidem com a realidade, contra as crenças ou desejos dos outros. Isso pode ocorrer em diferentes personalidades e em diferentes aspectos da vida. Ao pensar nos requisitos essenciais para resolver problemas ou ter sucesso, a primeira coisa que normalmente se leva em consideração é a inteligência e o foco é colocado, mais precisamente, no QI.


Porém, “na realidade, as maiores conquistas dependem da criatividade, da imaginação, da curiosidade, da capacidade de se colocar no lugar do outro e da empatia. E todas essas características estão, basicamente, ligadas à flexibilidade cognitiva”, alerta Alejandro Guillermo Andersson, neurologista e diretor do Instituto de Neurologia de Buenos Aires (INBA). O especialista explica que é uma habilidade que permite mudar um conceito ou adaptar um comportamento para atingir o objetivo em um ambiente novo, diferente e em mudança.


— Alguns dizem que se trata de aprender e ser capaz de ser flexível na forma como se aprende. Isso significa uma mudança nas estratégias para uma tomada de decisão ideal — acrescenta.


Segundo Andersson, a flexibilidade cognitiva oferece a possibilidade de reconhecer que o que está sendo feito não é útil e que mudanças são necessárias para atingir o objetivo desejado. — Tem que ser feito de forma diferente, não pelo caminho que se insiste.


Essencial para se adaptar aos diferentes desafios, a flexibilidade proporciona a plasticidade essencial para se adaptar a eles. Num estudo desenvolvido por investigadores italianos, é explorado o efeito moderador da flexibilidade psicológica e da atenção plena na saúde física e psicológica.


"Os dados mostram que uma atitude flexível e atenta a eventos psicológicos difíceis ajuda na capacidade de responder às mudanças e na capacidade de trabalhar de forma mais eficaz”, conclui o estudo.


A influência genética


Segundo Marisol Barreiro, flexibilidade mental – ou pensamento flexível – refere-se “à habilidade de função executiva que utilizamos todos os dias, que nos ajuda a passar de uma tarefa para outra, a utilizar a informação de diferentes formas e a estar abertos a outros pontos de vista”.


No dia a dia, a flexibilidade é decisiva nos resultados de cada ação. O psiquiatra Ricardo Corral afirma que é desejável que todo ser humano tenha essa capacidade. Precisamente, graças a esta capacidade, a cultura e a civilização atuais conseguiram evoluir e desenvolver-se.


Nesta aptidão, que nos permite resolver novos problemas, um componente genético e presente na personalidade coexiste com outro que é adquirido. A genética influencia as habilidades cognitivas e estas incluem flexibilidade.


— O fator genético tem a ver com herança dos pais, linhagens familiares — destaca Corral.

Mas, “o ambiente e as experiências de vida também desempenham um papel crucial na sua melhoria. Há interação entre o que cada pessoa tem, que veio da genética e o meio ambiente”, acrescenta Alejandro Andersson.


— É por isso que a educação familiar e escolar é tão importante — explica Corral.


O psiquiatra enfatiza o valor de proporcionar uma educação que favoreça o pensamento, a autonomia, a decisão e o raciocínio, longe de preconceitos ou falsas crenças. É também aconselhável “ter espírito crítico e ter capacidade de refletir sem tantas condições. Tudo isso é algo muito desejável e está intimamente ligado ao desenvolvimento da personalidade”, destaca Corral.


Outro fator que afeta o grau de flexibilidade de uma pessoa é a idade. Esta capacidade “segue uma trajetória em forma de U invertido, da infância à idade adulta, atingindo o seu pico entre a segunda e a terceira décadas de vida e diminuindo na velhice”, afirma Andersson.


A moeda reversa é a inflexibilidade, a rigidez da mente ou do pensamento. Consiste, justamente, na dificuldade de enfrentar situações novas ou de ver as coisas de outro lugar.


— O fato de ver um problema, uma dificuldade, um desconhecido, uma encruzilhada sob outras perspectivas implica flexibilidade cognitiva — descreve Corral. No lado oposto, a personalidade rígida tende a ter uma perspectiva linear.


É “um padrão rígido de comportamento, em que a pessoa orienta suas ações com base em experiências privadas momentâneas, em vez de valores livremente escolhidos”, detalha Barreiro.


A rigidez cognitiva, do ponto de vista neurológico, “refere-se a uma dificuldade em mudar padrões de pensamento ou comportamento”, diz Andersson. Isto está ligado à possibilidade de adaptação a novas situações ou de modificação de estratégias dependendo das circunstâncias.


Mariano, um estudante universitário que dedicava muitas horas do seu dia à preparação de cada matéria, não estava conseguindo os resultados que desejava.


— Não conseguia passar de sete e isso me gerou frustração, pelo tempo e dedicação que sempre investi — confessa.


Ele fazia sempre a mesma coisa, sem nunca mudar métodos ou hábitos de estudo, por isso os resultados não variavam. Mariano, diagnosticado com TOC (transtorno obsessivo compulsivo), recorreu à ajuda profissional, onde obteve as ferramentas necessárias para adquirir a flexibilidade que lhe faltava.


— Se quero ter melhores resultados, tenho que fazer as coisas de maneiras diferentes — reconhece.


Assim, seguindo alguns passos que ajudam no processo de flexibilização, seu esforço finalmente se traduziu em notas condizentes com seu estudo. O que afetou o desempenho de Mariano teve a ver com a pouca flexibilidade.


Embora essa falta ou escassez de flexibilidade possa ocorrer em qualquer pessoa, é comum observá-la em quem sofre de determinados transtornos, como “pessoas com TOC, transtorno de personalidade ou TEA (transtorno do espectro do autismo)”, diz Barreiro.


No entanto, esclarece que a falta de flexibilidade também pode ocorrer em pessoas que não apresentam nenhum distúrbio subjacente.


— Ser perfeccionista, por exemplo, ou não abrir mão de regras e experiências vividas, pode levar a comportamentos limitantes que não nos permitem resolver problemas procurando outras alternativas — afirma.


Em todos os casos, essa rigidez pode ser tratada com terapia.


Modificar padrões


A flexibilidade é um sinal saudável e positivo para a vida e, assim como a rigidez, está associada a características de personalidade. Este último não é um problema em si, embora “a pessoa simplesmente tenha menos possibilidades de adaptação”, diz Corral. Num estudo realizado por um pesquisador da Universidade de Miami, afirma-se que os mecanismos cerebrais que permitem a flexibilidade podem ser examinados por meio de neuroimagem não invasiva e abordagens comportamentais.


Foram avaliadas evidências de melhora da flexibilidade por meio de treinamento cognitivo, atividade física e experiência bilíngue. Alejandro Andersson explica que a flexibilidade cognitiva pode ser melhorada, até certo ponto, através de práticas e estratégias.


— Se houver predisposições genéticas, o cérebro pode se modificar em resposta à experiência e à prática — detalha.


Ele também destaca a eficácia do treinamento e das intervenções cognitivas, bem como dos jogos de quebra-cabeça, resolução de problemas e tarefas que exigem uma mudança de foco para melhorar.


Além disso, Andersson afirma que a terapia cognitivo-comportamental é útil para mudar padrões de pensamento e comportamento. Ricardo Corral assegura que, se a pessoa tem consciência da situação, a reconhece “e percebe que pode limitar o seu desenvolvimento pessoal ou profissional, é hora de tentar encontrar algum tipo de solução”.


— Neste caso, a psicoterapia não é para um caso de doença mental, mas para alcançar o desenvolvimento pessoal e melhorar os processos de pensamento de uma forma mais adaptativa — acrescenta.


Marisol Barreiro afirma que a Terapia de Aceitação e Compromisso (TAC) também é eficaz e alcança resultados em curtos períodos de tempo.


— Nos primeiros três meses as mudanças já são visíveis.


Em que consiste a terapia? Ao buscar que o paciente separe emoções e sentimentos da ação.


— Nós nos concentramos no que fazemos quando enfrentamos certas emoções e sentimentos — descreve.


Cabe a cada um perceber a própria limitação e buscar as ferramentas que ajudem a erradicar da vida aquilo que impede o crescimento e o encontro com o outro.


Um guia para colocar em prática


Ao adotar determinados comportamentos e atitudes é possível ganhar flexibilidade.


  • Evite a autocrítica. — Ser constante ou extremamente autocrítico é negativo. A flexibilidade começa em si mesmo, não tendo tanta rigidez na hora de se perceber — afirma Marisol Barreiro.

  • Tente não reclamar antes de começar algo. — Se eu colocar a reclamação em primeiro lugar, não encontrarei alegria nem prazer nisso — explica Barreiro. A psicóloga garante que pensamentos e sentimentos orientam as ações.

  • Enfrentar novas rotinas e experiências impede que o cérebro atue no piloto automático. Isso ajuda a torná-lo mais flexível.

  • Encontre tempo para lazer, viagens e aproximação com outras culturas. — É benéfico conviver com pessoas com pensamentos diferentes — diz Barreiro.

  • Aja sobre seus pensamentos negativos. Você pode anotá-los ou fazer uma lista mental com eles. — Registrá-los ajuda a reconhecê-los — diz Barreiro. O profissional indica que é conveniente deixar os pensamentos virem à mente e depois deixá-los passar. Para fazer isso, é recomendável definir um tempo limitado por meio de um alarme. Quando toca, você passa para outro pensamento. — É estabelecido um certo tempo para o cérebro vagar com esses pensamentos ruminativos. Deixo fluir, mas depois tomo uma atitude e mudo o foco do pensamento — explica.

  • Outra técnica que o neuropsicólogo aconselha é perguntar o que posso fazer com aquele pensamento que é complicado. — Quanto mais respostas você puder dar, mais flexível você será. É uma forma de saber que existem muitas possibilidades e não apenas aquela que sempre aplicamos — afirma.


Fonte: O Globo

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