Uso de mídias sociais associado a prejuízos à saúde mental de jovens

Os prejuízos à saúde mental associados ao uso frequente de mídias sociais podem ser atribuíveis a intimidação cibernética, diminuição do sono ou a redução das atividades físicas – especialmente entre os jovens, sugere nova pesquisa.

Em um estudo longitudinal feito durante três anos com quase 10.000 adolescentes britânicos entre 13 e 16 anos de idade, a quantidade de uso “muito frequente de mídias sociais” passou de 34% no primeiro ano para 62% no terceiro ano entre os meninos e de 51% para 75% entre as meninas.

Embora o uso muito frequente de mídias sociais tenha sido associado a maior sofrimento psíquico em ambos os sexos, foi maior entre as meninas e atribuível aos efeitos da intimidação cibernética, do sono insuficiente e da redução das atividades físicas.

“Isso significa que os efeitos das mídias sociais sobre a saúde mental são indiretos”, disse ao Medscape a autora sênior, Dra. Dasha Nicholls, médica do Imperial College School of Medicine, no Reino Unido.

“O uso da mídia social foi muito maior entre as meninas do que entre os meninos, sendo possível que as meninas usem as mídias sociais de modo diferente dos meninos e tenham diferentes tipos de exposição e reação ao conteúdo que acessam”, disse Dra. Dasha, psiquiatra infantil e hebiatra, que também trabalha como consultora honorária no Central and North West London NHS Trust e no East London NHS Trust.

Os dados sugerem que “o uso muito frequente de mídias sociais entre os jovens não tenha o potencial de exercer efeitos nocivos diretos”, escreveram os autores, “mas tragam prejuízos relacionadas com a visualização de conteúdos nocivos ou pelo deslocamento de atividades saudáveis que promovem o bem-estar”, como o sono ou a atividade física.

“As intervenções para reduzir o uso de mídias sociais para melhorar a saúde mental podem ser inadequadas; as intervenções para prevenir ou aumentar a resiliência à intimidação cibernética e assegurar o sono e a prática de atividade física adequados entre os jovens devem ser consideradas”, concluíram os pesquisadores.

Os achados foram publicados on-line em 13 de setembro no periódico Lancet Child and Adolescent Health.

Evidências contraditórias

Mais de 90% dos adolescentes do Reino Unido utilizam a internet para relacionamentos sociais (ou social networking), levantando a questão de que esta atividade possa ter algum efeito deletério na saúde mental. No entanto, as evidências sobre essa questão “permanecem contraditórias”, escreveram os pesquisadores.

“O estudo foi motivado pela necessidade de compreender melhor a relação entre as mídias sociais e a saúde mental ao longo do tempo”, disse Dra. Dasha. “A maior parte das pesquisas até hoje tem sido transversa, não podendo examinar os mecanismos pelos quais os dois podem interagir.”

Além disso, poucos estudos têm investigado os potenciais mecanismos através dos quais as mídias sociais possam prejudicar a saúde.

Os pesquisadores do estudo em tela utilizaram dados do estudo Our Futures, um estudo de representação nacional, longitudinal com jovens de 13 a 16 anos de idade, que foi realizado em três etapas.

A 1a etapa começou em 2013 e contou com jovens de 13 a 14 anos (N = 12.866); a 2a etapa foi realizada em 2014, quando os participantes tinham entre 14 e 15 anos de idade (N = 10.963); e a 3a etapa foi realizada em 2015, quando os participantes tinham entre 15 e 16 anos (N = 9.797).

Durante cada etapa do estudo, os participantes foram solicitados a descrever a frequência com que habitualmente acessavam ou checavam suas mídias sociais. “Muito frequente” foi definido como acessar mídias sociais três vezes ou mais por dia.

As informações dadas pelos próprios participantes dos dados sobre a saúde mental e o bem-estar (satisfação com a vida, sentir que a vida vale a pena, felicidade e a ansiedade) foram obtidas durante a 2a e 3a etapas, respectivamente.

Na 2a etapa, os participantes preencheram o 12-item General Health Questionnaire (GHQ12) e também responderam perguntas sobre intimidação cibernética, duração do sono (todo o período entre a hora de dormir e o despertar) e prática de atividades físicas.

Na 3a etapa, os participantes responderam perguntas sobre o próprio bem-estar geral.

As análises foram ajustadas para haver “uma estrutura mínima suficiente de confusão”, e foram feitas separadamente com os meninos e as meninas. Os pesquisadores avaliaram a intimidação cibernética, a adequação do sono e a atividade física como potenciais mediadores dos efeitos. As características da amostra foram “muito semelhantes entre as etapas”.

Meninas mais vulneráveis

Quase todos os participantes (94,5%) informaram ter o próprio celular na 1a etapa, com acesso à internet relatado por 98% na 2a etapa. O uso muito frequente de mídias sociais entre ambos os sexos aumentou com a idade entre a 1a e a 3a etapas.

Tabela. Uso muito frequente de mídias sociais, da 1a à 3a etapas

*IC = intervalo de confiança

Na 2a etapa, o sofrimento psíquico (definido como pontuação ≥ 3 no GHQ12) foi informado por 19% dos participantes.

Entre as meninas, foi encontrada uma relação de dose-resposta entre a frequência de uso de mídias sociais e a alta pontuação no GHQ12 na 2a etapa; 27,5% (variação de 25,6 a 29,5%) das meninas com uso muito frequente tiveram alta pontuação no GHQ12 vs. 19,9% (variação de 15,3 a 25,5) que utilizaram uma vez por semana ou menos.

Esse gradiente foi menos pronunciado entre os meninos, atingindo 14,9% (variação de 13,1% a 16,8%), com uso muito frequente vs. 10,2% (variação de 8,0 a 12,9) dos que usaram mídias sociais uma vez por semana ou menos.

O ajuste pelas variáveis de confusão da existência de alguma doença crônica, da conexão dos pais com a escola, do uso de substâncias químicas e da evasão escolar fizeram pouca diferença nos resultados de ambos os sexos.

A persistência do uso muito frequente da mídia social na 1a e 2a etapas previu menor bem-estar entre as meninas:

  1. Satisfação com a vida: razão de chances ajustada ou adjusted odds ratio (aOR) = 0,86; IC 95%, de 0,74 a 0,99; P = 0,039

  2. Felicidade: aOR = 0,80; IC 95%, de 0,70 a 0,92; P = 0,0013

  3. Ansiedade: aOR = 1,28; IC 95%, de 1,11 a 1,48; P = 0,0007

Quando os pesquisadores ajustaram por intimidação cibernética, sono e atividade física, as associações de uso de mídias sociais com a alta pontuação no GHQ12 foram atenuadas (proporção mediada = 58,2%, satisfação com a vida = 80,1%, felicidade = 47,7% e ansiedade = 32,4%) entre as meninas, de tal forma que estas associações não foram mais significativas (exceto para a ansiedade).

Por outro lado, a associação da alta pontuação com o GHQ12 entre os meninos permaneceu significativa, sendo mediada apenas 12,1% por esses fatores.

“As principais conclusões foram que existe uma relação de dose-resposta entre a frequência do uso e marcadores tardios de saúde mental e bem-estar, o que foi verdadeiro para meninos e meninas”, disse Dra. Dasha.

“No entanto, quando potenciais mecanismos pelos quais as mídias sociais podem influenciar a saúde mental foram examinados, isso respondeu perfeitamente por esta relação para as meninas”, disse a pesquisadora.

Pergunte sobre a intimidação on-line

Comentando o estudo para o Medscape, a Dra. Ann DeSmet, Ph.D., professora do Departamento de Comunicação da Universiteit Antwerpen, na Bélgica, disse que o desenho longitudinal e o grande tamanho da amostra “agregam força às evidências disponíveis sobre este tema”.

Além disso, “as mídias sociais não precisam necessariamente ser prejudiciais em si”, disse Dra. Ann, que escreveu o editorial que acompanha o estudo.

No entanto, pode se tornar prejudicial se substituir o tempo que poderia ser gasto em atividades físicas, sono “ou quando aumenta a ocorrência de intimidação cibernética”, acrescentou.

“A prevenção e a promoção de programas de saúde mental deveriam, portanto, incluir o suporte para uma vida saudável, bem como ensinar aos jovens como usar as mídias sociais de uma forma ‘saudável'”, disse a Dra. Ann.

Também comentando para o Medscape, o Dr. Ric Steele, Ph.D., professor de psicologia e ciências comportamentais aplicadas e diretor da Clinical Child Psychology Doctoral Program na University of Kansas, nos Estados Unidos, disse que os dados sobre os jovens do Reino Unido correspondem aos “dados sugerindo que os adolescentes nos EUA também são usuários assíduos das mídias sociais”.

Além disso, há “bastante evidências de que mulheres e homens utilizem as mídias sociais de forma diferente”, disse Dr. Ric, que não participou da pesquisa em tela.

Por exemplo, “a literatura sugere que as mulheres podem ser mais propensas a usar as mídias sociais como meio de expressar emoções, obter apoio e sensação de pertencimento, enquanto os homens podem ser mais propensos a usar de modo mais operacional (ou seja, menos relacional)”, disse o comentarista.

As adolescentes “que tentam obter aprovação social” podem ser especialmente vulneráveis à intimidação, observou o Dr. Ric.

“Além disso, o uso das mídias sociais pelas meninas para manter relacionamentos também pode explicar por que o maior uso pode afetar o sono, já que elas podem se sentir mais obrigadas a estarem disponíveis on-line quando seus amigos postam e/ou mandam mensagens a qualquer hora da noite”, disse o Dr. Ric.

A Dra. Dasha reiterou a importância de manter o equilíbrio de modo que as mídias sociais não substituam outras atividades importantes, como uma boa noite de sono, a prática de atividades físicas e contatos pessoais com os amigos.

“Também é importante estar ciente do potencial de intimidação on-line, que só pode ser conhecido quando diretamente perguntado”, acrescentou a pesquisadora.

Fonte: Medscape

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