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TOC: mulheres e solteiros são mais afetadas por um sintoma pouco conhecido da condição; mostra estudo brasileiro



A lentidão obsessiva é um sintoma pouco conhecido do transtorno obsessivo compulsivo (TOC), que pode fazer com que pessoas levem horas para executar tarefas simples e repitam suas ações com medo de errar ou causar problemas. Um estudo publicado recentemente no International Journal of Psychiatry in Clinical Practice identificou que mulheres e pessoas solteiras tem maior probabilidade de apresentar esse sintoma.


A pesquisa que identificou as pré-disposições clínicas da lentidão obsessiva foi coordenada pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), braço científico e acadêmico da Rede D’Or. O trabalho, que analisou dados de mais de mil pacientes com TOC recrutados e avaliados pelo Consórcio Brasileiro de Pesquisa em Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo, contou com a participação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e Universidade de Monash, na Austrália.


Desse total, 189 participantes apresentavam lentidão obsessiva, enquanto outros 478 pacientes com TOC que não apresentavam o problema serviram como grupo comparativo. Os resultados mostraram que esse sintoma é mais predominante na população feminina.


Ainda segundo a pesquisa, os indivíduos solteiros com TOC tinham uma probabilidade 54% maior de desenvolver lentidão obsessiva. Esse marcador foi mais relevante até que a taxa de desemprego e o nível de escolaridade dos pacientes.


Apesar da relação com algumas características demográficas, os aspectos clínicos tiveram maior destaque na predisposição ao problema. Foi descoberto que os participantes com lentidão obsessiva possuíam sintomas em todas as principais dimensões do TOC, sendo mais recorrentes os sintomas relacionados a simetria e contaminação.


Não só isso, aqueles que apresentavam tiques (movimentos ou vocalizações involuntárias e repetitivas) tinham mais de 71% de chance de apresentar a lentidão obsessiva. Outros sintomas do TOC, como acumulação e pensamentos sobre agressão, também aumentavam as chances de desenvolver a lentidão no espectro obsessivo-compulsivo.


"O que difere a procrastinação da lentidão obsessiva é que a primeira é um sintoma mais inespecífico, que pode ser observado em pessoas com diferentes sintomas ansiosos, caracterizados pelo medo, ou depressivos, caracterizados por falta de ânimo ou iniciativa. A lentidão obsessiva se deve a uma meticulosidade e necessidade de precisão que pode envolver ou não sentimentos de medo”, esclarece o coordenador do estudo, Leonardo Fontenelle, pesquisador do IDOR e professor na UFRJ, em comunicado.


Segundo ele, transtornos de ansiedade e depressão não aparentaram relação direta no desenvolvimento da lentidão obsessiva no TOC, o que sugere que tratamentos focados em redução de ansiedade podem não ser efetivos para esse caso clínico. Já algumas complicações pós-natais, que foram relatadas pelos pacientes, apresentaram uma maior relação estatística com o desenvolvimento da lentidão, mas os autores afirmam que o assunto precisa ser aprofundado antes de se estabelecer uma associação definitiva.


Os cientistas reportam ainda que, como não há uma duração precisa e quantificada da intensidade de lentidão para o diagnóstico dos pacientes, é possível existir diferentes graus do problema, e isso é outro ponto que necessita de investigações no futuro.


As descobertas do estudo podem ser particularmente úteis para profissionais da prática clínica. Saber que o estado civil, tiques e outros sintomas do TOC podem ser fatores de risco para o desenvolvimento da lentidão obsessiva e isso é muito relevante para o direcionamento terapêutico de seus pacientes.


TOC


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2% da população apresenta TOC. Seus sintomas mais comuns são relacionados a pensamentos invasivos sobre contaminação, simetria, religião, verificação, além de comportamentos como a acumulação excessiva. Todos esses sintomas, contudo, são apenas parte do espectro obsessivo-compulsivo, que engloba várias outras características, entre elas a lentidão obsessiva.


São pessoas que, por exemplo, acordam 4 horas mais cedo pro trabalho porque não consegue tomar banho e escovar os dentes em menos tempo que isso? Em alguns casos, uma simples rotina matinal pode levar até 10 horas para ser executada por alguém com o problema, e o atraso pode estar relacionado a momentos de paralisação e imobilização que atrapalham na execução de tarefas corriqueiras. Dificuldades na carreira profissional tendem ser uma realidade constante na vida dessas pessoas, e os sintomas geralmente começam a se desenvolver na adolescência e no início da idade adulta.


A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma das abordagens da psicologia clínica. Com evidências científicas robustas, o método é capaz de trazer muita qualidade de vida para pacientes com ansiedade, depressão e principalmente com TOC, pois o seu foco é no entendimento e ressignificação de pensamentos que influenciam o comportamento das pessoas.


Fonte: O Globo

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