Tecnologia na psiquiatria: benefícios, mas não sem riscos

A medicina e as plataformas digitais estão cada vez mais próximas. Aspectos positivos e negativos dessa aproximação foram discutidos no 37º Congresso Brasileiro de Psiquiatria, realizado em outubro, no Rio de Janeiro.

Para o Dr. Félix Kessler, médico e presidente do Centro de Estudos Luís Guedes (CELG), apesar de o volume de pesquisas científicas ainda ser incipiente, o uso da realidade virtual no tratamento de pacientes é uma tendência: “Os relatos são impressionantes, pessoas com queimaduras graves conseguem se desligar do ambiente hospitalar e apresentam melhora emocional imediata”, [1] afirmou o médico durante a apresentação.

Na área psiquiátrica, o Dr. Félix apresentou estudos que utilizaram avatares como recurso terapêutico em pessoas com transtorno da personalidade borderline. “Os pacientes conseguiram desfusionar cada um de seus aspectos mentais”, [2] explicou.

A realidade virtual também pode ser usada em casos de transtornos de ansiedade, da compulsão alimentar e por uso de substância. [3] Mesmo com os prognósticos positivos da aplicação de realidade virtual em casos de transtornos mentais, o Dr. Félix alertou para a possibilidade de o paciente desenvolver um quadro de adição ao tratamento com realidade virtual.

Outra questão que vem preocupando autoridades de saúde no mundo todo é o uso de smartphone. Falar sobre o aumento do número de pessoas viciadas em usar o celular foi tarefa do psiquiatra e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Dr. Osvaldo Luiz Saide. Para o médico, que chamou esse tipo de dependência de “mobilemania”, o comportamento patológico pode ser diagnosticado quando o prazer em mexer no smartphone evolui para um padrão excessivo e produz impacto negativo em uma ou mais esferas da vida pessoal – como baixo rendimento na escola ou no trabalho, por exemplo.

De acordo com uma pesquisa realizada pela Comunidad Laboral Universia, existem grupos populacionais mais suscetíveis a este tipo de dependência, como: adolescentes, jovens adultos e pessoas com transtorno de personalidade, fobia social ou alguma outra doença psiquiátrica. Outro estudo aponta que adolescentes que passam três horas ou mais por dia usando dispositivos eletrônicos têm 35% mais chances de terem um fator de risco para cometerem suicídio. O vício em celulares não tem tratamento e, segundo o médico, o melhor caminho é a prevenção: “Devemos aprender e ensinar a forma correta de usar os smartphones, que basicamente consiste em estabelecer limites para o uso do aparelho.”

O Dr. Osvaldo explicou os mecanismos envolvidos no transtorno mental: “O sistema de recompensas variáveis intermitentes (SRVI) é a dinâmica que se processa no cérebro do dependente. Os fatores neuroquímicos equivalem aos provocados por jogos de computador.” Apesar dessa aproximação fisiológica, o médico alertou que antes de fechar um diagnóstico de vício em smartphone, o psiquiatra deve confirmar se o aparelho é a verdadeira causa do problema ou se o celular é apenas o sintoma mais aparente de outros vícios, como comprar e jogar compulsivamente.

Da mesma forma que o celular pode ser o agente catalizador da dependência, o aparelho também pode ser a porta de saída do vício para dependentes químicos. O Dr. Carlos Salgado, especialista em dependência química, faz do WhatsApp uma ferramenta eficaz para o tratamento de pacientes. Para o médico, “esse contato continuado via aplicativo ‘esquenta’ a relação do indivíduo com o tratamento”. Ele também exemplificou o impacto positivo da troca de mensagens: “Quando mando mensagens, até mesmo só um emoji, muitos pacientes dizem que foi bom eu ter entrado em contato, porque já estavam pensando em recaídas.”

Ainda de acordo com o Dr. Carlos, pacientes que moram em outras cidades conseguem seguir o tratamento por mais tempo: “Como eles estão distantes, outro médico faz o acompanhamento e nós também trocamos informações sobre o caso pelo WhatsApp“, esclareceu.

O Dr. Carlos lembrou que o Conselho Federal de Medicina (CFM) permite o uso do WhatsApp para a comunicação entre médicos e pacientes desde 2017, [4] mas alertou para a questão da privacidade das conversas entre médicos e pacientes no aplicativo.

“É uma questão muito sensível e vulnerável”, ponderou. Para o Dr. Carlos, todas as mensagens trocadas devem ser anexadas aos prontuários oficiais dos pacientes: “Tudo deve ir direto para o prontuário”, afirmou.

O Dr. Frederico Garcia, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do Núcleo de Pesquisa em Vulnerabilidade à Saúde, apresentou um olhar crítico sobre o uso de dispositivos eletrônicos na saúde: “A maior parte das ferramentas está sendo criada para realizar funções que nós já desempenhamos muito bem.” Para o médico, a tecnologia deve suprir as lacunas no sistema de saúde, mas os profissionais devem atentar para o fato de “o dispositivo tecnológico não conseguir reproduzir o vínculo afetivo e humano construído entre médicos e pacientes”.

O Dr. Frederico acredita que a falta de regulação sobre a produção e introdução da tecnologia na medicina é uma das causas para os vícios ligados a essa área. “Vamos esperar quantas pessoas ficarem viciadas?”, perguntou.

O psiquiatra também questionou a avaliação da segurança em longo prazo dos mecanismos tecnológicos usados para tratar dependentes químicos: “Para ser comercializado, todo método farmacológico deve, antes mesmo da eficácia, ser comprovadamente um produto seguro”, disse. Dessa forma, o médico coloca que “a utilização da máquina de forma acrítica pode colocar pacientes em risco”.

Fonte: Medscape

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