Sonhar acordado: especialistas defendem classificar ‘viver no mundo da fantasia’ como doença



Passar boa parte do dia no mundo da fantasia criado pela própria mente, negligenciando responsabilidades e com impactos nos relacionamentos da vida real. O conceito, quando exacerbado, é normalmente interpretado como uma característica do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), sendo atribuído em alguns casos ao termo “imaginação hiperativa”. Porém, cada vez mais estudos buscam identificar peculiaridades do maladaptive daydreaming (MD) — algo como devaneio excessivo mal adaptado, em português — que o enquadraria como um próprio, e novo, diagnóstico de transtorno mental. Mas o que é esse devaneio excessivo?

Um grupo de pesquisadores israelenses, em estudo publicado recentemente na revista científica Journal of Clinical Psychology, define o devaneio excessivo mal adaptado como uma “atividade de fantasia compulsiva caracterizada por uma imaginação imersiva e uma mudança na atenção em direção a um rico mundo interior, negligenciando atividades sociais, ocupacionais e acadêmicas”.

— Os estudos científicos sobre esse conceito são recentes, mas é um fenômeno que conhecemos há muitos anos. A questão é que a pessoa saudável entra e sai desse estado de divagação de uma forma relativamente rápida, com qualquer estímulo do ambiente externo, por exemplo. O que não é o caso dessas pessoas [que têm a condição] — explica o psiquiatra Mario Rodrigues Louzã, coordenador do Programa de Déficit de Atenção e Hiperatividade no Adulto do Instituto de Psiquiatria da USP (Prodath/ Ipq). Para os cientistas do Laboratório de Consciência e Psicopatologia da Universidade Ben‐Gurion e da Universidade de Haifa, em Israel, existe uma noção hoje de que a maioria dos adultos com a condição atendem a critérios e são diagnosticados com TDAH. No entanto, eles defendem que o déficit de atenção para essas pessoas seria algo secundário ao problema principal — o vício nos devaneios imersivos e fantasiosos.

“Alguns indivíduos que se tornam viciados em seus devaneios fantasiosos experimentam grande dificuldade em se concentrar e focar sua atenção em tarefas acadêmicas e vocacionais, mas descobrem que um diagnóstico de TDAH e o plano de tratamento subsequente não os ajudam necessariamente. Classificar formalmente o MD (maladaptive daydreaming) como um transtorno mental permitiria que os psicólogos atendessem melhor muitos de seus pacientes”, afirma a pesquisadora da Universidade Ben-Gurion Nirit Soffer-Dudek, uma das autoras do estudo, em comunicado. Ela defende que o ideal seria a inclusão do conceito na próxima edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, documento da Associação Americana de Psiquiatria, como um transtorno independente. Para isso, a cientista conduz uma série de pesquisas na área em busca de descobrir, e eventualmente reforçar, as peculiaridades do devaneio excessivo mal adaptado.

Seu último estudo envolveu um questionário com 83 adultos diagnosticados com TDAH. Os resultados mostraram que apenas 20,5% dos participantes atenderam aos critérios estipulados para o diagnóstico do devaneio excessivo mal adaptado, o que reforça a tese de que o quadro não é um sintoma do TDAH (pela baixa incidência no grupo), mas sim algo à parte. Além disso, os pesquisadores observaram que essas pessoas tiveram índices “significativamente” maiores de depressão, solidão e baixa autoestima, denotando sintomas clínicos em graus diferentes.

Diagnóstico e tratamento

Os pesquisadores advogam pela separação do diagnóstico justamente defendendo que o tratamento seria mais eficaz. Eles destacam que os fármacos utilizados para tratar o TDAH, por exemplo, podem até mesmo aumentar o tempo empreendido nos devaneios excessivos em casos do devaneio excessivo mal adaptado.

“Especificamente, alguns entrevistados indicaram que a medicação à base de estimulantes aumentavam sua concentração não apenas na vida cotidiana, mas, paradoxalmente, também em sua atividade durante os devaneios”, escreveram os pesquisadores.

Mario Rodrigues Louzã explica que há uma estrutura no cérebro que é ativada quando entramos nesse modo de “suspensão” em devaneios comuns, chamada de default mode network, que pode estar relacionada ao diagnóstico. A descoberta dessa rede de regiões cerebrais interativas é recente. Ela fica ativa quando uma pessoa não está focada, funcionando como um “piloto automático” do cérebro.

— É como um computador que entra no estado de hibernação, que está ligado mas não em atividade. Essas áreas do cérebro funcionam quando entramos no estado de divagação, quando saímos desse estado de pensamento mais racional — explica o psiquiatra.

Porém, ele entende que são necessárias mais evidências para se ampliar o debate sobre a categorização do novo conceito. Ele afirma que as características são apontadas como sintomas relativamente comuns de pessoas com TDAH, diagnóstico que compreende cerca de 5% das crianças e 2,5% dos adultos.

— Essa distraibilidade é um sintoma bem conhecido do TDAH, mas esse trabalho busca separar o diagnóstico, como se houvesse uma categoria específica de pessoas que têm esse devaneio. Acho que isso precisa ser mais bem definido e estudado ainda, porque o estudo aborda a observação do próprio sujeito, o que não é algo fácil de se analisar — diz o psiquiatra

Quando os devaneios passam a preocupar?

Embora o devaneio excessivo mal adaptado esteja ganhando repercussão, as divagações pontuais durante o dia são comuns e não fazem parte do conceito. Estudos indicam que 96% das pessoas fogem da realidade em algum momento durante o dia, no que chamamos de “sonhar acordado”. Essa atitude, no entanto, é considerada positiva pois, embora possa causar um grau de distração, ajuda a planejar planos futuros, interpretar situações e no bem-estar.

De acordo com um estudo publicado na revista científica Consciousness and Cognition, que envolveu um questionário com mais de 440 participantes, esses momentos de suspensão da realidade começam a se tornar preocupantes quando acontecem de forma exacerbada, seu conteúdo é muito vívido, a pessoa perde a capacidade de controle e esse hábito passa a interferir em outras atividades do cotidiano.


Fonte: O Globo

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