Sentir-se jovem faz bem à saúde e atrasa o envelhecimento


Irrefreável, natural e universal. Assim é o processo de envelhecimento, que governa todas as criaturas vivas. Contudo, para alguns, a marcha dos anos parece passar de maneira mais lenta. É como se a certidão de nascimento mentisse, pois o sujeito se sente mais jovem em relação à própria idade cronológica. E aqui não estamos falando de uma sensibilidade estética, não se trata daqueles comentários sobre como aquela pessoa nem parece ter tantos anos assim. Trata-se de uma discussão que diz, sobretudo, de uma sensação subjetiva de bem-estar. E, curiosamente, essa impressão sobre si próprio, para além de aspectos socioculturais, pode fazer sentido à luz da biologia.


Por muito tempo, esse sentir-se mais jovem foi interpretado como um mecanismo de defesa psicológica do sujeito contra os estereótipos negativos da idade ou como resultado de comparações sociais. Acreditava-se, portanto, que essa sensação de jovialidade estaria ligada ao sentimento de não se enquadrar naquela ideia limitada e limitante que normalmente se faz da velhice. Também poderia ser resultado da impressão de se estar em melhores condições de saúde que outras pessoas do mesmo grupo etário.


Interocepção


Aos olhos da ciência, a compreensão subjetiva da própria idade já vinha sendo apontada como um bom indicador de saúde. É mais ou menos disso que se trata a hipótese de interocepção. De maneira bastante resumida, a tese defende que o ser humano tem conhecimento sobre seu processo de saúde e doença. Então, segundo o que indicam essas pesquisas, uma pessoa que se sente mais velha tende a ter, de fato, marcadores de envelhecimento biológico mais acentuados.


O que só se soube mais recentemente é que essa autopercepção pode ser resultado de uma percepção indireta não apenas do estado de saúde como um todo, mas do próprio envelhecimento neurobiológico. Esses indivíduos sentem que não possuem a idade que possuem pois as funções cerebrais deles se deterioraram menos e mantiveram características de um cérebro mais jovem. É como se, neurobiologicamente falando, a certidão de nascimento estivesse mesmo mentindo. É o que sugere um estudo da Universidade de Nacional de Seoul (Coreia do Sul), que avaliou 68 idosos saudáveis.


Os participantes foram submetidos a análises sobre como se sentiam em relação à própria idade face à idade mental e, posteriormente, fizeram exames de ressonância magnética. Segundo os autores, os voluntários que se sentiam com uma cabeça mais jovial tinham um cérebro dotado de mais massa cinzenta do que os que haviam reportado sentir-se com a idade que realmente tinham ou mais velhos. Além disso, o primeiro grupo apresentou melhores resultados em testes de memória e demonstrou estar menos suscetível a sintomas de depressão.


À luz dessas evidências, Elisa de Paula França Resende, doutora em neurociência pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), reforça que a sensação de ser mais jovem do que sugerem as velinhas sopradas em um aniversário não é resultado só de um construto social ou psicológico. “É também, provavelmente, um construto biológico. Nesse sentido, podemos dizer que a idade cerebral é realmente menor do que aquela que era estimada para a idade da pessoa”, sinaliza. A especialista ressalta que o estudo acrescenta novas evidências científicas de que esse sentimento de jovialidade é um indicador de um processo de envelhecimento mais lento ou mais saudável.


Fonte: O Tempo

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