Saúde mental também requer atenção; como saber se há algo errado?



Basta aparecer uma dor no corpo que a maioria das pessoas corre para o médico. Mas é difícil ver a mesma urgência quando se trata de uma doença psíquica, porque acredita-se que ela não coloca a vida em risco. Só que não é bem assim.


"Há muitas causas de adoecimento grave e de morte que têm algum componente comportamental, como consumo de substâncias que agravam a saúde física, autolesão e suicídio", aponta Jocelaine Silveira, professora de psicologia da UFPR (Universidade Federal do Paraná). Por isso é tão arriscado deixar a saúde mental em segundo plano.


O primeiro erro é separar corpo e mente na hora de atribuir gravidade às doenças. Isso não faz sentido, pois a saúde é como uma grande avenida com vários cruzamentos que fazem parte dela, que são os aspectos psicológicos, biológicos, sociais, ambientais e espirituais. "Existe um fundo biológico que interage com o psicológico, com o coletivo e com o ambiente. Dessa forma, a saúde mental pode ser afetada de diversas maneiras, e assim os problemas de saúde mental começam a acontecer", resume Jair Borges Barbosa Neto, professor de medicina da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).


Em outras palavras, o organismo é um só. Um simples aborrecimento ou uma situação que a pessoa interpreta como uma ameaça à sobrevivência desencadeia várias respostas fisiológicas. Da mesma que o estresse excessivo que passamos em determinados momentos da vida pode causar problemas físicos, como dores de cabeça recorrentes ou outros mais graves. É por isso que subestimar as doenças psíquicas ou deixar sua cura a cargo do tempo não é uma boa ideia.


Outro erro é que a maioria dos males emocionais costuma chegar de forma sorrateira e sutil —exceto quando a pessoa vive um acontecimento traumático ou tem um transtorno mental mais grave diagnosticado no início da vida. O sofrimento vai se instalando aos poucos e, muitas vezes, o estrago só é percebido quando não há mais condições de resolver o problema de maneira simples, como no início. Principalmente se for uma doença psíquica mais grave.


O limite de cada um


Nem sempre as pessoas deixam de procurar ajuda por ignorar o próprio sofrimento, mas por pensar que o que estão sentindo é normal. E às vezes é mesmo. A vida é feita de altos e baixos e todos nós ficamos tristes, ansiosos, angustiados, estressados, desanimados ou preocupados em alguns momentos. Mas mesmo que tudo isso nos afete, tentamos dar um jeito de voltar a ficar bem.


"Nossa cultura nos leva a crer que precisamos ser felizes a qualquer custo. E qualquer sinal de infelicidade ou sentimento negativo significa que estamos adoentados e que precisamos nos tratar", observa Neto. Uma emoção ou outra fora do lugar pode até ser útil, pois pode nos levar a fazer mudanças positivas. Acontece que nem todos conseguem lidar com o desconforto, principalmente quando passam por grandes frustrações, situações de violência e perdas significativas.


Ao tentarem ser mais fortes do que são, muitas pessoas acabam adoecendo. Quem tem depressão, por exemplo, vai se desligando do mundo aos poucos, de uma forma tão gradual que nem a família percebe.


Dê atenção ao que está sentindo


Não é fácil enxergar onde acaba o mal-estar emocional normal e começa um transtorno mental. Isso porque ao contrário das doenças físicas, não somos treinados para identificar os sintomas das psíquicas. Silveira dá uma dica para vermos com mais clareza essa fronteira que é subjetiva. "A linha divisória é quando a pessoa vai perdendo o contato consigo mesma. Perdendo cada vez mais a consciência do que está fazendo mal."


Outro indício de que algo não vai bem é quando a pessoa tenta mascarar o incômodo emocional com coisas que trazem um alívio momentâneo, como comida, internet, jogos, compras, álcool e drogas ilícitas. Por isso é tão importante prestar atenção nos sentimentos e dar nome a eles.


Quando olhamos para o nosso estado interno, fica mais fácil perceber se esses sentimentos estão gerando muito sofrimento ou durando mais tempo do que aguentamos.

Algumas perguntas podem nos ajudar a fazer essa autoavaliação, como:


  • Tenho me sentido bem ultimamente?

  • Estou sofrendo muito?

  • Consigo fazer o que gosto?

  • Dou conta das minhas obrigações diárias?

  • Sinto um mal-estar no corpo por conta das emoções?

  • Tenho pessoas com quem posso contar?

  • Estou precisando de ajuda?

  • Quando estou sozinho, fico desconfortável?

  • Procuro fugir desse incômodo me distraindo o tempo todo?


Sinais de que há algo de errado com as emoções


  • Irritabilidade

  • Alteração do sono e do apetite

  • Presença de ruminações (sentir-se consumido pelos próprios pensamentos e julgamentos)

  • Vontade de desistir dos compromissos

  • Desejo de romper relações interpessoais e se isolar

  • Sofrimento intenso

  • Sofrimento não intenso, mas que dura muito tempo e não melhora

  • Comportamentos que fazem mal (como uso de álcool, drogas, internet, jogos etc.)

  • Não dar conta das atividades cotidianas

  • Pensar em fazer mal para si ou para os outros


O risco de deixar o tempo passar


Esses sintomas costumam se misturar. Às vezes incomodam demais e em seguida ficam mais suaves, dando a impressão de que foram embora. Mas o fato é que um tende a piorar o outro e assim eles vão crescendo, feito uma bola de neve. Por isso é tão arriscado esperar que desapareçam com o tempo. Essa atitude pode trazer inúmeras consequências, como fazer mal a si ou aos outros, ter os relacionamentos interpessoais deteriorados, não ter condições de cumprir as atividades diárias ou de se cuidar e não conseguir resolver os problemas.


Além disso, a pessoa começa a passar por períodos disfuncionais cada vez mais longos. "A passagem do tempo pode não representar uma melhora. Aliás, pode piorar. Às vezes a pessoa fica como está, mas o mais provável é aumentar a severidade do problema", enfatiza Silveira.


Mas isso não é tudo. O perigo maior é, durante uma crise originada por uma situação difícil, a pessoa pensar em se suicidar ou machucar alguém. Às vezes ela comete uma besteira antes de perceber que não era aquilo o que gostaria de fazer.


Por isso, todo cuidado é pouco. "Uma dica importante é que qualquer ideia de morte deve ser levada a sério. As pessoas que estão pensando em tirar a vida precisam procurar ajuda, principalmente de profissionais da saúde", alerta Neto. E lembre-se: mesmo os sintomas aparentemente inofensivos têm um potencial enorme de diminuir a qualidade de vida.


Quando buscar ajuda


Não existe regra para saber qual é o momento certo de procurar ajuda. Mas é importante estar atento aos primeiros sinais de um desconforto emocional, observar como eles evoluem e quando não é mais possível lidar com eles. Para isso, vale conversar com pessoas de confiança, pois quem está de fora da situação consegue vê-la melhor. Se os sintomas estiverem persistindo ou ficando mais intensos, não adie a ida ao consultório médico ou ajuda psicológica. Nesses casos, o tratamento é imprescindível, muitas vezes com o uso de medicamentos.


Ele ajuda a pessoa a recuperar a autonomia e tomar decisões mais acertadas. A atenção com a saúde mental precisa ser redobrada em momentos de estresse intenso e de longa duração, como a pandemia do novo coronavírus, que tem deixado muita gente abalada.


"Com um cuidado efetivo, as dificuldades podem ser enfrentadas. Então a dica é procurar cuidado dentro e fora de você, com pessoas de sua confiança, em entidades religiosas de sua preferência e também com profissionais de saúde", recomenda Neto. Se possível, invista no tratamento precoce, porque ele pode poupá-lo de perdas e sofrimentos.


O estilo de vida faz a diferença


Dependendo da doença mental e de sua intensidade, ajustar o estilo de vida pode ser um caminho para deixar o sofrimento para trás. "Se a pessoa cuidar mais do corpo, mente e de suas interações com as outras pessoas, e também do ambiente em que vive e de como interage com este ambiente, com certeza essa mudança surtirá algum efeito na saúde mental", afirma Neto.

Ela inclui ter uma alimentação saudável, praticar atividades físicas, melhorar os hábitos de sono e eliminar o abuso de substâncias.


Fonte: UOL

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