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Saúde da mãe e cérebro do bebê: como a má nutrição na gravidez pode afetar gerações futuras e perpetuar a desigualdade



Ter uma nutrição inadequada é problemático em qualquer fase da vida. Na gestação, porém, as más escolhas alimentares – que nem sempre são uma opção – vão além de uma questão de saúde materna.


Um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revela que não comer bem neste período pode impactar não apenas a chegada do filho, como, também, na saúde e condições sociais das gerações futuras.


🧠 Além de prejudicar o desfecho da gravidez em si, causando doenças como o diabetes gestacional, a nutrição insuficiente da mãe também influencia em questões do desenvolvimento do bebê, como o tamanho do cérebro, que pode estar ligado aos níveis socioeconômicos e educacionais.


😞 E se a má nutrição é resultado de uma rotina de sobrecarga, quando há pouco tempo para preparar uma refeição equilibrada, ou consequência da pobreza, isso pode significar a perpetuação da desigualdade e vulnerabilidade dos descendentes.


O apontamento é da pesquisadora e nutricionista Maria Julia de Oliveira Miele, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que associa o estado nutricional materno a desfechos gestacionais adversos e é ponto de partida para uma série do g1.


A primeira reportagem mostrou as diferenças na alimentação das gestantes pelo país, evidenciando que as nordestinas tendem a se nutrir melhor do que as grávidas do Sul e Sudeste. Agora você verá os impactos que esses hábitos provocam a curto e longo prazo.


Nesta reportagem, a segunda da série, você vai ver dois pontos:


  • Quais os impactos a longo prazo

  • Quais os impactos curto prazo


Longo prazo: a alimentação de hoje que reflete no amanhã


Além de rastrear quatro desfechos principais da gestação (que veremos a baixo), a nutricionista investigou uma teoria sobre como a alimentação de uma grávida poderia impactar no tamanho do cérebro dos seus descendentes, como explica Miele. “Falava que a circunferência cefálica da mãe tem relação com a nutrição que essa mulher recebeu quando era um feto”.


👶 Isto é, a alimentação da avó, quando grávida da mãe, impactará no desenvolvimento cerebral do neto? Embora não existam estudos conclusivos, artigos como o da pesquisadora mostraram que sim e quem explica é a epigenética – área da biologia que analisa como estímulos ambientais podem influenciar nossos genes.


“Identificar isso leva tempo, depende de ensaios clínicos e muitas análises. Há pesquisas sobre o tema em vários países e todos estão encontrando resultados como esse que nós identificamos”, ressalta a profissional.

Bebê com cérebro menor?


🔎 Como a ciência chegou nessa teoria? Maria Julia explica que, primeiro, observaram que bebês de determinadas regiões do planeta nasciam com uma circunferência craniana menor do que a indicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso era mais comum em áreas de maior vulnerabilidade, propensas à desnutrição, principalmente em países da África.


🥔 Suplementação para reverter o problema: sendo esse um indicativo de baixa nutrição na gestação, analisaram se o cenário poderia ser revertido nos primeiros mil dias de alimentação. “Só que não conseguiam corrigir isso, nem mesmo com a implementação de uma dieta suplementar”, detalha a profissional.


👵 Entre gerações: foi então que chegaram à epigenética. “Fizeram análises mais rebuscadas e começaram a perceber que esses são fatores intergeracionais. Se a primeira mulher não se nutriu da forma adequada, a filha dela também pode ter essa falha no desenvolvimento e passar isso para o bebê dela, como algo hereditário”.


Na prática, isso significaria que:


  • A mulher 1, quando grávida da filha (mulher 2), teve uma alimentação pouco nutritiva;

  • Isso prejudicou o desenvolvimento do cérebro da mulher 2, que nasceu menor;

  • A mulher 2 cresceu e engravidou da mulher 3 (filha dela e neta da 1), que herdou essa genética.


Entre as brasileiras, Mara Julia se deparou com o mesmo achado. “Eu considerei a idade materna e fiz uma análise bastante complexa, que usa várias correlações e vimos que sim, a relação entre a circunferência cefálica do bebê e o perímetro cefálico da cabeça da mulher foram solidamente relacionados e, também, relacionados com o nível socioeconômico”.


Pelo menos até o momento, essa influência tem se mostrado mais consistente quando passada de mãe para filha, pessoas do sexo biológico feminino. No entanto, nem tudo está perdido: levantamentos como esse também mostram que, se a mulher 2 tiver boa nutrição, apesar de não corrigir o próprio cérebro, poderá impedir que isso passe para o bebê que ela gerar.


O que a alimentação e a perpetuação da desigualdade têm a ver com isso?


Tudo. Maria Julia lembra que muitas outras coisas podem influenciar no desenvolvimento do bebê, como questões hereditárias e doenças congênitas. O ponto aqui, porém, é observar que, entre as grávidas que não se alimentavam bem, essa associação era mais consistente – principalmente quando fatores socioeconômicos eram colocados à mesa.


“A gente chama isso de análise do caminho, então, você coloca tudo que no caminho tem relação com aquele desfecho. Aí você descobre que aquela população que tem uma circunferência menor, tem uma relação muito maior com contextos de vulnerabilidade. A gente percebe que essa alimentação foi decisiva na formação óssea, no tamanho da caixa craniana e, consequentemente, do cérebro”.


💡 As consequências de um cérebro menos desenvolvido são duras. “Os artigos falam que isso tem grande impacto no potencial de aprendizado. Claro que envolve outros fatores, mas o que se nota nesses estudos é bastante significativo. A cognição tende a ser afetada e essa pessoa vai ter o aprendizado comprometido. Você cria uma bolha infinita, que aquela pessoa dificilmente vai estourar”.


“Imagine que uma pessoa hoje colhe os impactos da má nutrição da mãe, mas se ela vive ainda em um cenário de alimentação ruim, seja por pobreza ou por maus hábitos, as consequências ruins vão persistir nas gerações futuras”.

Antes do futuro: impactos a curto prazo


Vale dizer que, mesmo que não se torne um problema para as gerações futuras, a falta de refeições balanceadas, aliada ao excesso de alimentos pobres em nutrientes, está diretamente associada a uma série de doenças gestacionais.


Mais uma vez, essa constatação se torna ainda mais óbvia quando envolve questões como a raça. Segundo o estudo, 70% das mulheres não brancas que tiverem uma alimentação considerada obesogênica vão ter um desfecho negativo na gravidez, o que inclui:


  • nascimento prematuro

  • nascimento de crianças com restrição intrauterina (tamanho menor que o esperado)

  • alterações na pressão e pré-eclâmpsia

  • diabetes gestacional


“Isso tem concentração maior entre as mulheres não brancas e que, muitas vezes, estão em situações mais vulneráveis. Provavelmente porque, além de ter uma alimentação menos saudável, elas têm menos acesso aos cuidados da saúde. Ou seja, se alimentam ainda pior e têm menor chance de entender e reverter isso”.


A especialista reforça, como mostramos acima, que “isso é só uma parte da cascata de consequências a longo prazo. O tempo todo falamos dos riscos de uma alimentação ruim na gravidez, mas as vezes falta entender isso a longo prazo”. Porém, seja a longo prazo ou ainda na gestação, esses são problemas que podem ser revertidos.


👉 Para isso, é preciso lutar por uma alimentação rica e igualitária, combatendo problemas como a fome oculta, tanto no sentido médico, quanto no social.


Fonte: G1

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