Saúde 5.0: é assim que a transformação digital atua contra a COVID-19



O mundo não para de evoluir, e diante dos novos desafios, a tecnologia também não. Em tempos de pandemia, aliás, a velocidade das pesquisas e a corrida em busca de uma vacina ou remédio para a COVID-19 não para e ganha novos adeptos a cada dia. E assim ocorre também no setor digital, que abrange a Internet das Coisas na Medicina (ou IoMT).


O ecossistema de saúde já está mudando aqui no Brasil, também. Tecnologias exponenciais estão chegando para auxiliar os médicos e pacientes de forma nunca antes vista, pois o que antes eram projetos e planejamentos de longo prazo, teve que ser acelerado para vir a acontecer, pela urgência do cenário que o sistema de saúde se encontra atualmente.


O Canaltech participou de um evento que discute o papel do CIO Digital em tempos de COVID-19, mediado pelo Distrito e que contou com a participação de grandes nomes da inovação em saúde no Brasil, entre eles: Fernando Paiva, VP da healthtech Carenet; Jihan Zoghbi, presidente da ABCIS; Vilson Cobello, diretor de tecnologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP; Alex Julian, Diretor de TI na Americas Serviços Médicos; e Maurício Cerri, CIO da Unimed Fesp.


IoMT: a Internet das Coisas na Medicina

Pelo contexto de Internet das Coisas, você já pode imaginar como a conectividade de aparelhos deve acontecer nas áreas da saúde. Aliás, em todas elas. Mas, especificamente em medicina, dada a necessidade dos serviços e softwares necessários para diagnosticar e tratar pacientes, houve um avanço tanto no número de dispositivos médicos conectados quanto na sua velocidade de captura e transmissão de dados. E assim, nasceu a IoMT.


Imagina só: desde sistemas de saúde primária, com prontuários digitais, passando por dados de monitoramento de níveis de saturação de oxigênio e batimentos cardíacos, até chegar a dispositivos complexos de eletrocardio ou encefalograma, as coisas dentro das clínicas e hospitais também evoluíram a níveis de transmissão de dados. Através da internet, esses dados viajam entre computadores, servidores e dispositivos específicos para coletar informações particulares de um paciente e transformá-las em dados legíveis para profissionais de saúde. Isso acelera, e muito, a etapa de diagnóstico e tratamento.


IoMT e interoperabilidade na pandemia


O mundo não estava preparado para uma pandemia com resultados tão avassaladores como a do coronavírus, e o Brasil, quando se viu diante do surto epidêmico, mal imaginava o tamanho do desafio que estava por vir. Todo o planejamento e a estratégia envolvidos por trás de projetos de tecnologias médicas teve de ser reestruturado e acelerado para dar conta da demanda: líderes de várias health techs da área e hospitais tiveram que concatenar em uma janela de 30 a 90 dias seus projetos que, antes, viriam a acontecer em longo prazo.


De acordo com Vilson Cobello, CIO do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, o HC se torna referência para eventos como catástrofes e tragédias que acontecem no Brasil, como é o caso de incêndios, desastres e, mais recentemente, a epidemia do novo coronavírus no Brasil. A estratégia do HC é acionar um plano de catástrofe, que é frequentemente revisado, processo a processo, para criar um fluxo mais refinado e atender cada objetivo, especificamente. "Os circuitos tecnológicos vêm para apoiar esse tipo de solução. Mais mobilidade, mais automação de processos, mais facilidade nas comunicações, com a incorporação de dispositivos móveis (para comunicação entre pacientes e profissionais) existem para ajudar a fazer isso tudo funcionar mais rápido", analisa.


Cobello incentiva a ampliação, por meio de parcerias com health techs, para uso de dispositivos conectados, a fim de acelerar e automatizar o envio, coleta e captura de dados dentro dos hospitais. O CIO enaltece o uso de IoT nos hospitais e centros clínicos, bem como Inteligência Artificial e Machine Learning na rotina médica. Tudo isso auxilia nas tomadas de decisão e na aceleração dos processos.


Prontuários eletrônicos


O processo de digitalização de prontuários de pacientes também é algo que teve de ter sido acelerado a toque de caixa, dada a situação da pandemia no mundo e à alta propagação do coronavírus no Brasil. Afinal, o Brasil já vinha começando a digitalizar os dados de pacientes, de forma lenta e descentralizada, antes da COVID-19, mas diante do grande desafio, foi necessário, também, correr contra o tempo nesses processos.


Para Maurício Cerri, CEO da Unimed Fesp, além de a pandemia ter exigido aceleração de investimentos, processos de interoperabilidade e integração de dispositivos em IoT para coleta e monitoramento, também exigiu rapidez na digitalização de dados de pacientes para ganhar tempo durante o atendimento médico-hospitalar. "Algo é fundamental: o investimento que os EUA fizeram no tempo do Barack Obama, que praticamente incentivou as operadoras e hospitais a investirem em prontuário eletrônico é um movimento que o Brasil, de certa forma, seguiu. Um pouco atrasado, porém: a gente implantou o sistema, mas não tinha uma preocupação em ter um certificado e uma assinatura digitais", observa. Com a telemedicina, foi necessário correr atrás dos processos de digitalização para fazer a roda girar — e isso também faz parte da transformação digital na medicina brasileira.


Telemedicina, teleconsulta, teleorientação


Outra grande aliada da medicina em tempos de COVID-19 é a telemedicina, que, de maneira remota, auxilia a desobstruir clínicas e hospitais graças a consultas que podem ser feitas a distância.


De acordo com Alex Julian, Diretor de TI na Americas Serviços Médicos, a internet tem papel essencial desde as consultas online aos exames, que são realizados e enviados para os especialistas analisarem e gerarem laudos através da rede, remotamente. Ele conta que o grande desafio foi mobilizar as pessoas em direção às novas tecnologias e, ao mesmo tempo, proteger os profissionais envolvidos no processo — como médicos, enfermeiros e profissionais que trabalham no back-office.


"Nós implementamos um fluxo de telemedicina no qual o paciente pode ser avaliado de casa, sem precisar ficar indo toda hora ao pronto-socorro, evitando contato com o perigo", revela o executivo. "A gente conseguiu executar de forma que protegêssemos os nossos profissionais e oferecêssemos o cuidado necessário ao paciente", completa, referindo-se às plataformas de telemedicina da Americas.


A questão dos recursos dos hospitais também é beneficiada com a ajuda da telemedicina. Afinal, em hospitais de alta complexidade, economizar tempo e recursos com consultas de rotina e atendimento básico é de extrema importância no enfrentamento do novo coronavírus. "Os profissionais são diferentes, a estrutura é diferente, a logística é diferente — então gasta-se muito mais para fazer um procedimento que poderia ser realizado em uma UBS", pontua o diretor do HC.


Principais desafios


Do ponto de vista do CIO e dos gestores de hospitais, a pandemia veio para sacudir a rotina e trazer uma situação completamente nova, na qual as decisões tiveram de ser tomadas imediatamente. Nas palavras de Jihan Zoghbi, "a pandemia veio como um choque elétrico para o CIO". A presidente da ABCIS revela que o profissional está tão envolvido nas demandas diárias do hospital que não consegue dar atenção para as novas demandas. Para conseguir lidar com o novo coronavírus, muitas rotinas tiveram de parar dentro dos hospitais, bem como nos centros cirúrgicos, quando a necessidade do paciente é eletiva.


A tele não estava dentro do radar dos profissionais da saúde, já que não existia essa modalidade, de maneira abrangente e funcional, prevista em lei no Brasil. E eles vêm aprendendo isso na prática. "É importante que isso passe a compor a grade curricular de faculdades [da área da saúde] para que os profissionais fiquem mais familiarizados com esse modelo de atendimento, para que ele conheça quais são os limites e quais são as vantagens", pondera Cobello.


Para o diretor do HC, outro ponto importante a ser levado em conta na legislação é o fato de as próprias pessoas terem aceitado o modelo de atendimento remoto proposto em plena pandemia. "Todos ficaram mais abertos e liberais para receber um atendimento por tele, as pessoas começaram a aceitar mais isso". E foi graças ao novo modelo online que o HC conseguiu se reorganizar e disponibilizar mais 800 leitos, em 15 dias, para tratar pacientes com COVID-19.


Ao considerarmos o paciente que está do outro lado, em telemedicina, um dos grandes desafios é a facilidade de uso das novas tecnologias que emergiram no Brasil. Por exemplo: nem todas as pessoas estão familiarizadas com telemedicina, e para evitar exposição à COVID-19, precisam usar o computador ou o celular para marcar uma consulta e conversar com o médico. Esse é um dos assuntos mais debatidos entre os CIOs, que precisam fazer com que as pessoas que não têm acesso à tecnologia consigam utilizá-la a fim de um bem maior.


O paciente que precisa ser tratado já pode contar com o auxílio da Internet das Coisas Médicas. Essa disrupção vem para auxiliar a evitar propagação de doenças nas múltiplas idas e vindas do paciente ao hospital e às clínicas em busca de diagnóstico e tratamento de um leque de condições médicas, e com isso, evitar infecções cruzadas enquanto faz seus exames e recebe todo o apoio médico necessário.


De acordo com Fernando Paiva, VP da Carenet Longevity, "em todo esse processo [de telemedicina, teleorientação e teleconsulta], nós [as healthtechs] ficamos no meio do caminho, conectando todas essas pontas, para que tanto a operadora, o hospital ou a seguradora tenham a segurança de que estão transacionando para salvar mais vidas, diagnosticar melhor e poder contribuir com essa digitalização".


Segurança de dados


Como já dizem por aí, os dados são o novo petróleo. Hoje em dia, informações pessoais valem ouro e movimentam o mercado negro de compra e venda, movido por cibercriminosos que tentam extorquir pessoas do mundo todo através da internet. E os dados dos pacientes, como ficam?


É preciso ter uma gestão eficiente de segurança digital, com estratégias que garantam que essas informações pessoais possam circular em ambiente seguro, apenas para fins médicos, e com criptografia. Daí, tem-se uma complexidade que gira tanto em torno da qualidade desses dados para quem vai fazer o input no sistema e recebê-los na outra ponta, quanto para quem vai cedê-los.


"Primeiro, tem-se que anonimizar os dados. Ninguém tem que saber de quem são essas informações. Mesmo aquele cientista, que está trabalhando com os dados da tecnologia, precisa anonimizar", pontua Jihan Zoghbi. "Antes dessa fase, tem que ter a autorização do paciente e da instituição. Quando você fala de gestão de dados, você fala de pesquisa mais profunda", esclarece. O próprio algoritmo de deep learning é que vai mostrar o que existe de normal ou anormal em um frame ou imagem, retirada de um vídeo de uma tomografia, por exemplo.


Paiva explica que todos os dados brutos vêm de um equipamento. E depois, quando já estão no formato de prontuário eletrônico, tem-se que levar em consideração o nível de segurança na trajetória desses dados, bem como a interoperabilidade. "É preciso evitar que esse dado seja manipulado de uma maneira que influencie, quando o médico for analisá-lo, de maneira negativa", pontua o executivo.


Zoghbi ainda bate na tecla de que não é fácil, para o gestor ou CIO, aplicar a LGPD dentro de um hospital — é um problema cultural, que ultrapassa a barreira da legislação. "Quando você fala para o usuário: 'essa senha é só sua, ninguém mais pode usar', é uma briga", brinca, mostrando que, pelo menos no Brasil, ainda existem problemas muito básicos para tratar até mantermos o ambiente de segurança de dados bem redondo. Além disso, é oneroso adequar tudo à legislação. Cerca de 90% dos hospitais no Brasil ainda sofrem com isso, afirma a executiva, e poucos vão conseguir seguir a legislação à risca.


Empoderar o paciente e dar segurança aos médicos


Desde que a medicina surgiu, o foco principal sempre foi o paciente, tal como os médicos graduados fazem no Juramento de Hipócrates: "a saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação". Na telessaúde, torna-se ainda mais necessário colocar o paciente em foco e humanizar as consultas, mesmo que através de aparelhos conectados pela internet.

É possível, sim, trazer equipes multidisciplinares para o ambiente online. Psicólogos, fonoaudiólogos e até fisioterapeutas já participam desse movimento para levar orientação e, dependendo da condição, até tratamento aos pacientes.


Segundo Cerri, a telemedicina é um caminho sem volta. Após as deliberações dos conselhos e do governo sobre a prática de telessaúde no Brasil, algo positivo que podemos retirar disso é o empoderamento do paciente, mesmo que de maneira remota, e os resultados positivos (e seguros) das práticas médicas online. "Provavelmente as regulamentações terão alguns ajustes, porque não se pode banalizar esse atendimento", diz o CIO, referindo-se à telemedicina como ocorre agora, no auge da epidemia do novo coronavírus no Brasil. "Tem a questão do sigilo médico, tem a questão dos dados [de acordo com a LGPD], tem a questão do atendimento… não que isso seja impeditivo para a inovação, mas é preciso se preocupar, enquanto cooperativa, com essa questão".


"Nós temos um setor de saúde muito regulado. E essa regulação, em alguns pontos, não nos permitiu ter uma evolução no ponto que a gente teve agora com essas deliberações. Aceleramos muito: o certificado digital, por exemplo, para uma receita de medicamento, é algo muito complexo", comemora Maurício.


Pensar em formas para poder garantir que a comunicação entre pacientes internados e seus familiares continue existindo também é importante, tanto na humanização do tratamento, quanto para evitar que o paciente — por exemplo, isolado em ambiente hospitalar ao tratar de COVID-19 — não entre em depressão. "Vale utilizar o tablet, uma rede Wi-Fi gratuita para pacientes dentro de uma instituição pública e até captura direta de dados dos equipamentos eletromédicos para auxiliar na teleconsulta, telemedicina… acredito que estamos evoluindo cinco anos em 90 dias", avalia Vilson.


E quando a pandemia passar?


Muito se fala sobre o presente, já que estamos diante de uma situação emergencial e que exige esforços multidisciplinares para conter as consequências negativas do novo coronavírus ao máximo possível. Se, agora, os CIOs estão apostanto em inovação e novos processos para ajudar a dinamizar os modelos de gestão hospitalar, como será depois que a pandemia passar?


Hospitais, operadoras de saúde, laboratórios, clínicas, consultórios… há uma infinidade de conexões que precisam ser digitalizadas, de modo a diminuir dispêndio de tempo e burocracia. Segundo Fernando, podemos e devemos acreditar na interoperabilidade. "Quando você consegue digitalizar toda a jornada do paciente, você diminui erros humanos, garante eficiência da informação sem retrabalho, diminui contaminação cruzada dentro de hospitais e consegue reduzir tempo de permanência de pacientes dentro de pacientes em 10% a 40%, beneficiando paciente, hospital e seguradora", exemplifica.


"Um exemplo disso, que vem dando certo em tempos de COVID, é o DataSUS — com interoperabilidade e integração dos dados, consegue-se fazer com que as informações fiquem disponíveis, em benefício do paciente, de maneira muito mais estruturada. Os ganhos são imensos", conclui.


Para Vilson Cobello, "Muitas coisas poderiam ser rapidamente resolvidas se todas as entidades realmente estivessem com essa disposição que estamos vendo agora na pandemia. Se a gente buscar sempre estimular essa troca de informações, com certeza a saúde do paciente vai ser melhor. E se você precisar trocar de plano de saúde, vai puxar o seu histórico? E se precisar do SUS, vai começar do zero? Por que a gente não estimula isso e mantém o mesmo ritmo?", instiga.


Fonte

10 visualizações

© 2020 Portal Saúde Agora. Tudo sobre SAÚDE em um só lugar!

  • Facebook
  • Instagram