Síndrome pós-Covid: o desafio de reabilitar pacientes que sofrem com sequelas da doença


 
 

Na evolução incerta da Covid-19, deixar o hospital pode ser só o início de um longo caminho. Um recente estudo da Universidade de São Paulo mostra que 60% dos pacientes ainda têm algum tipo de sequela um ano depois da alta.


No Rio de Janeiro, como mostrou a GloboNew nesta segunda-feira (9) um serviço dentro de uma universidade pública – a Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) – ajuda a dar conta do desafio gigantesco que é reabilitar pacientes afetados por essas sequelas.

É o Ambulátório Pós-Covid do Hospital Universitário Pedro Ernesto.

É ali que Fabiana Cordeiro, de 38 anos, tem esperança de recuperar a autonomia.

"Cansaço. Falta de ar. Tá tudo parado. Tudo é minha mãe. Meu irmão me ajuda muito, a levantar da cama, me levar pra pegar sol, faz meu café da manhã. Eu não consigo ficar em pé sozinha", conta ela.

Foram 70 dias internada, 30 deles intubada. Chegou a ter 90% dos pulmões comprometidos. Depois da alta, sofreu uma trombose que a impede de se locomover sem auxílio.

No ambulatório, Fabiana vai passar por profissionais de 13 especialidades. Cirurgia vascular, cardiologia, pneumologia, infectologia são algumas delas. Só vai ser liberada quando todos os médicos dessas especialidades derem alta. O centro nasceu a partir do gabinete de crise de Covid do Hospital Pedro Ernesto, referência no tratamento da doença no Estado. Os médicos perceberam que os pacientes recebiam alta da internação, mas ainda enfrentavam dificuldades que a instituição não conseguia atender – como fisioterapia.

Criaram, então, a enfermaria pós-covid, primeira neste modelo no país. Não foi suficiente. O serviço, então, precisou ser expandido.

"A gente estima que em torno de trina e seis mil pacientes na cidade do Rio de Janeiro têm o perfil da síndrome pós-covid. São pacientes que ficaram longo tempo acamados, em ventilação mecânica, sofreram perda de massa muscular. Esse é um acolhimento da necessidade do paciente que apresenta essa doença, que na verdade é um desafio para todos nós", afirma Paulo Benchimol, coordenador do Ambulatório Pós-Covid. "É um quebra-cabeças que estamos tentando e conseguindo destrinchar. Além de oferecer acolhimento, ao mesmo tempo esse espaço nos permite estudar e compreender a evolução dessa doença. Aqui, vamos fazer estudos clínicos para acompanhar e compreender o processo evolutivo da doença", acrescentou o especialista. A unidade tem capacidade para atender 400 pacientes por semana. Mas ainda não chegou à metade disso.

"É necessário que os médicos percebam a existência desse serviço de apoio multidisciplinar. E referenciem os pacientes", sugeriu Benchimol.

Um dos setores centrais é o da fisioterapia. Ali, todos os profissionais já estiveram na linha de frente da Covid. Entre as pacientes que se esforçam para retomar as tarefas do dia a dia está a Antonia Maria Barbosa, de 62 nos.

Passou 5 dias intubada, em duas semanas de internação. Chegou a ter 60% dos pulmões comprometidos. Saiu do hospital com fraqueza muscular, dificuldade pra andar e dormência nos pés que lhe tiram a coragem de pegar a neta no colo.

"Eu fico com medo de levá-la no colo e deixar a 'bichinha' cair. Eu pego ela sentada. Eu cheguei em casa numa cadeira de rodas, minha filha dava banho em mim. A cada dia é um milagre", ela conta. Dona Antonia diz que é a primeira vez na vida que faz exercícios. Rotina diferente da de Gabriel Monteiro Queiroz, de 32 anos. Ativo e sem comorbidades, ele teve Covid-19 duas vezes.

Na segunda, o quadro se agravou. Não chegou a ficar intubado, mas os 44 dias de internação deixaram sequelas importantes: episódios de esquecimento, fadiga e fraqueza muscular. Ele está há um mês em tratamento no ambulatório.

"Em comparação a quando eu comecei, a diferença é muito grande. Eu uso como exemplo a rampinha que a gente tem para chegar ao ambulatório. No primeiro dia que eu vim, foi muito cansativo subir a rampinha. Hoje, consigo correr. Eu não conseguia correr antes de começar o tratamento."

O fisioterapeuta Renato Ferreira e Cunha ressalta que o tratamento por que passam os pacientes em estado grave levam à perda grande de musculatura.

"Alguns chegam com medo de morrer, quando a gente os coloca em atividade em grupo, o ganho de um estimula o outro. Arrisco a dizer que alguns saem com capacidade física melhor do que antes da Covid."

Gabriel diz que o período de internação e a recuperação fizeram com que ele passasse a encarar a vida de maneira diferente. "Eu era muito focado no trabalho e às vezes deixava de lado outras coisas mais importantes, como a família. Eu tenho uma filha de 5 anos. As pequenas coisas fazem diferença. É bem importante você lutar porque quer viver. É uma doença muito agressiva. Se você tiver, luta porque há uma luz no fim do túnel."


Fonte: G1

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