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Quem é Elizabeth Parrish, a mulher de 52 anos que afirma ter idade biológica de 25



"Eu os amo". Essa foi a mensagem que Elizabeth Parrish deixou no celular de seus filhos e marido na manhã de 16 de setembro de 2015. Ela havia partido dos Estados Unidos sem contar-lhes as reais razões de sua viagem. À época, Parrish havia criado, recentemente, a BioViva, uma startup de biotecnologia sediada em Washington, que surgiu quase por acidente. Um de seus filhos de 9 anos foi inesperadamente diagnosticado com diabetes, sem antecedentes familiares ou doenças intermediárias que prenunciassem a doença.


Com seu filho em tratamento, os estudos em ciência e um MBA em negócios internacionais, a mulher se dedicou a tentar entender os motivos da doença que havia surgido. Ela ficou obcecada. Assistiu a centenas de conferências pelo mundo, até compreender que encontrar financiamento para uma pesquisa que permitisse encontrar uma solução para situações genéticas repentinas não deveria ser tão difícil. Ela, então, fundou a sua empresa com o objetivo de aprofundar a pesquisa genética. Uma série de descobertas em seu próprio laboratório mostrou que um tratamento específico realizado em ratos os transformava em uma versão mais jovem e melhorada de si mesmos em questão de horas.


Com algumas dezenas de frascos congelados em gelo seco e as esperanças debaixo do braço, Elizabeth partiu para Bogotá, na Colômbia, para se submeter a uma terapia semelhante à dos ratos. Disse à sua família, no entanto, que estava em uma viagem de negócios. O procedimento em questão violava as regulamentações de seu país e, por isso, precisou realizá-lo no exterior.


Uma vez na capital colombiana, mal conseguiu superar sua primeira noite sem dormir. No dia seguinte, um médico, uma enfermeira e dois assistentes a esperavam para registrar todo o processo em vídeo. As gravações, inclusive, ainda estão preservadas nos cofres da BioViva.


O procedimento começou pela manhã, envolvendo mais de 100 aplicações sobre seus braços, coxas, glúteos e rosto. Como cada injeção exigia uma aplicação lenta, o tratamento prolongou-se até depois da meia-noite. A última aplicação, por exemplo, foi na omoplata. Ao final, ela sentiu fome e ainda duvidava se o procedimento valeria a pena.


Desde que seu filho mais novo fora diagnosticado com diabetes, sua empresa havia progredido na pesquisa genética. Sua viagem baseava-se na confiança de que esta dose – a mais importante que qualquer humano havia aplicado até então – a ajudaria a combater o que a BioViva chamou de "doença do envelhecimento".


Para seus especialistas, as 50 milhões de pessoas que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), têm demência – número que se prevê triplicar até 2050 – poderiam retardar sua condição ou evitá-la completamente se os desenvolvimentos de terapias genéticas em busca de uma maior longevidade fossem aperfeiçoados.


— Ao longo de anos de esforço, centenas de especialistas no mundo dedicados a essa disciplina e milhões de dólares aplicados na pesquisa para prevenir o declínio cognitivo com a idade, o mundo viu pouco progresso. Começamos a demonstrar que há um caminho viável e com resultados científicos concretos — afirmou a própria Parrish.


Envelhecimento reverso


De volta para casa, após a experiência colombiana, ela não contou nada para sua família. Vagou pelo seu mundo durante duas semanas, esperando que as coisas transcorressem sem contratempos.


Após 14 dias, Parrish decidiu que sua empresa estava em condições de emitir um comunicado formal. Na declaração, não poupou informações sobre quem havia se tornado a paciente zero ao testar pela primeira vez uma terapia genética desse tipo. O documento, portanto, informou à época: "A BioViva tratou o primeiro paciente com terapia genética para reverter o envelhecimento. O sujeito está bem e retomou suas atividades habituais."


Liz, como é chamada, já levava seus filhos à escola, havia reiniciado suas tarefas na empresa e dirigia normalmente seu carro. Um ano mais tarde, houve um novo anúncio: "O experimento atrasou o relógio biológico da paciente zero em 20 anos", assegurou a BioViva.


— Graças aos tratamentos de terapia gênica, hoje tenho uma idade biológica de 25 anos. Quando fiz meu tratamento, tinha 44, mas a análise do meu DNA indicava 65 — declarou Liz. Os seus marcadores de análise pública são promissores, mas não conclusivos, pois se baseiam, por ora, nos resultados de uma única pessoa, além de não terem sido publicados seguindo as etapas científicas, sob um mecanismo de estudo revisado por pares.


Ping-pong com Elizabeth Parrish


Como você define a longevidade?


Acho que pode ser dividida em dois grupos. Uma é a expectativa de vida ou quanto tempo se vive. A outra é quanto tempo se vive saudável. O objetivo ideal no campo da longevidade é expandir ambos. A razão pela qual comecei nisso foi para curar doenças infantis. Nunca imaginei que terminaria falando sobre longevidade, mas percebi que a chave é combater uma guerra contra a velhice. Ao curar o envelhecimento, podemos lidar com muitas das doenças que também afligem as crianças.


Existe uma área da ciência que fala sobre a morte da morte. Ou seja, em um futuro não muito distante será possível viver para sempre. O que você pensa dessa ideia?


Nosso objetivo é curar todas as doenças e isso é algo possível. Exigirá tempo e esforço. Viver para sempre é uma ideia romântica mais difícil do que se pensava, pois haverá problemas alheios às doenças que nos afligem atualmente. Catástrofes globais, a expansão do sol e dos asteroides são apenas alguns deles. Viver mais tempo e de forma mais saudável nos dará tempo para prepararmos para esses problemas iminentes. Se levamos a sério esses objetivos, devemos ser ainda mais sérios na hora de testar novas terapias e tecnologias. Podemos envelhecer com graça.


Você poderia me contar os detalhes da vacina rejuvenescedora?


A terapia genética nos permite adicionar genes às células, o que as ajuda a se comportarem de maneira mais jovem. Como o envelhecimento é um transtorno complexo, não podemos esperar que um único gene cure a condição. A biotecnologia, por sua vez, está trabalhando em projetos para fornecer múltiplos genes com uma única dose. Esperamos viver em um mundo onde todos possam pagar por essas terapias, que só precisam ser administradas uma vez a cada 5 a 10 anos.


Além do que você conta, há especialistas que dizem que sua proposta é pseudociência. Quais dilemas éticos você enfrenta?


Um dilema ético é o que enfrentam aqueles que não ajudam no desenvolvimento de opções eficazes como deveriam, porque são disruptivas para sua própria indústria. O acesso aos cuidados também é preocupante. Sem grandes financiamentos, essas tecnologias só estarão disponíveis para as pessoas que puderem pagá-las. Além disso, desenvolver uma terapia genética apenas para alguns é muito caro, o que exclui as pessoas comuns do mercado. Toda pessoa tem direito a uma vida sem sofrimento.


Quais desafios familiares o aumento da expectativa de vida enfrenta?


À medida que as populações humanas envelhecem, sem avanços médicos, surgem muitos problemas financeiros e sociais. Prolongar essa esperança, sem fazer nada em relação à saúde, é um fardo. A medicina regenerativa, por exemplo, ajudará as pessoas a viverem mais e melhor.


Serão produtivas e trabalharão mais tempo, e é possível que sejam até mais fortes e inteligentes do que nunca. Eles terão maior poder aquisitivo, pois poderão trabalhar o tempo que quiserem. Se pudéssemos parar de nos esforçar para viver para sempre porque a ciência nos ajudou nisso, poderíamos nos preocupar apenas em viver.


Fonte: O Globo

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