Queimadas provocam diminuição da função pulmonar durante a exposição

A nuvem de fumaça que cobriu a cidade de São Paulo em 19 de agosto de 2019 chamou a atenção para a poluição causada pela queima de florestas, campos, vegetação – biomassa em geral. A pluma negra foi resultado da mistura de uma massa de ar frio com micropartículas geradas por queimadas que aconteceram nas regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil, e provavelmente em áreas da Bolívia.

“Quando se queima qualquer tipo de vegetação, se modifica as condições do meio ambiente. Dependendo da intensidade e da quantidade de área queimada, os poluentes emitidos provocam agravos à saúde, não só da população ao redor, mas também a quilômetros de distância”, explicou o Dr. Marcos Abdo Arbex, vice coordenador da Comissão Científica de Doenças Ambientais e Ocupacionais da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

Os impactos na saúde decorrentes dos incêndios florestais e da queima pré-colheita da cana-de-açúcar, principalmente em São Paulo, têm sido pesquisados desde os anos 90. Um estudo de 2017 comprovou que partículas provenientes da queima florestal na Amazônia aumentam significativamente os níveis de espécies reativas, citocinas inflamatórias, autofagia e danos ao DNA em células pulmonares humanas. [1]

Os efeitos da queima de vegetação a céu aberto são retroativos, por isso, só um tempo após a exposição é possível avaliar se houve aumento de mortalidade. A estimativa é de que 339.000 mortes sejam causadas pela queima de vegetação anualmente em todo mundo. [2]

Publicado este ano no periódico New England Journal of Medicine, outro trabalho, intitulado Ambient Particulate Air Pollution and Daily Mortality in 652 Cities, [3]mostrou a relação entre mortalidade e poluição diária em 652 cidades. “O que chama a atenção é que nas cidades de clima quente ou com níveis mais baixos de poluição a curva de mortalidade é maior”, disse o Dr. Paulo Saldiva, médico patologista e pesquisador do Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), que participou do trabalho. Isto significa que, “quando você vive em um lugar com baixas concentrações, se a poluição aumenta, a mortalidade é maior. Onde há mais poluição a mortalidade é menor – porque as pessoas criaram resistência ou porque os vulneráveis morreram antes”, explicou o Dr. Paulo.

Segundo o Dr. Marcos, as partículas e gases resultantes das queimadas provocam exacerbação de doenças respiratórias pré-existentes, como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), além de irritação e infecção das vias respiratórias altas.

“Estudos mostram que há uma diminuição da função pulmonar durante a exposição”, acrescentou. Doenças cardiovasculares, como hipertensão, arritmia e insuficiência coronariana, também podem se agravar. Estas partículas são capazes de ultrapassar a membrana existente entre o alvéolo e o capilar, atingir a corrente sanguínea e, por conseguinte, todo o organismo, provocando um processo inflamatório sistêmico por meio do estresse oxidativo. Crianças, idosos e portadores de doenças cardiovasculares prévias são mais suscetíveis.

A consequência é o aumento da procura por atendimento ambulatorial e serviços de emergência, da necessidade de internações hospitalares e da utilização de medicamentos de resgate (p. ex.: o salbutamol).

Diferentemente da poluição proveniente do tráfego de automóveis, que é contínua e monitorada em São Paulo e em outras grandes cidades, com eventuais picos em períodos mais secos e de inversão térmica, a poluição provocada por incêndios florestais é imprevisível, lembrou Dr. Marcos. As queimadas podem durar semanas ou meses, e têm sido cada vez mais prevalentes, persistentes e intensas, gerando poluentes que ultrapassam as concentrações consideradas seguras pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

“Em alguns momentos, a concentração do material particulado MP25 atingiu de 600 mg a 700 mg por m3/dia nas proximidades do incêndio”, observou.

O Dr. Marcos alertou que o profissional da saúde e o poder público devem estar atentos para oferecer medidas protetoras e de suporte para a população exposta, em especial aos grupos mais suscetíveis.

Em caso de fumaça ou proximidade de queimadas, os médicos devem orientar a população a permanecer em ambientes fechados e evitar a prática de exercícios físicos. Se necessário, usar máscara de proteção N95.

“Os médicos devem avaliar a condição clínica do paciente antes e após a exposição para definir se há necessidade de ajuste da medicação”, informou.

Fonte: Medscape

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