Quantidade de seringas prevista pela Saúde para vacina da Covid imuniza apenas 57% da população



SÃO PAULO — O volume de seringas que o governo brasileiro pretende comprar não é suficiente para vacinar toda a população contra a Covid-19. O Ministério da Saúde informou que está prevista a compra de 120 milhões de seringas e agulhas, sendo 80 milhões de fabricantes brasileiros e 40 milhões do mercado internacional, via Organização Mundial da Saúde (OMS). O Brasil tem cerca de 210 milhões de habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ou seja, as seringas seriam suficientes para imunizar 57% da população contra o coronavírus. Nesta semana, fabricantes de seringas afirmaram que foram consultados pelo governo para a compra de 110 milhões de unidades, mas apenas 80 milhões delas seriam destinadas à vacinação contra o coronavírus, com entregas previstas para os meses de fevereiro, março e abril de 2020. Os 30 milhões restantes seriam destinados às campanhas de vacinação contra sarampo e Influenza, a gripe tradicional.


A quantidade da encomenda chama atenção se comparada à de outros países que, desde julho passado, têm anunciado suas compras. O governo do Canadá encomendou 37 milhões de seringas para a BD (Becton, Dickinson and Company), para uma população de 37 milhões de habitantes, e já negocia uma nova compra para uma eventual segunda dose da vacina. Isto porque, no mercado de saúde, crescem as apostas de que a vacina contra o vírus terá de ser aplicada em duas doses, com diferença entre três e seis meses entre a primeira e a segunda.

Uma das principais fabricantes de seringas do mundo, a BD recebeu pedido de 65 milhões de unidades do Reino Unido, cuja população é de 66 milhões de habitantes. O governo norte-americano fechou parceria com a empresa para ampliar uma fábrica no estado de Nebraska e negocia a compra de mais 260 milhões de seringas. No total, o pacote seria de 400 milhões de seringas para uma população de 328 milhões de pessoas.


A logística e a capacidade de produção de seringas para a vacinação do coronavírus foram discutidas em uma audiência pública na manhã desta quinta-feira, entre representantes dos fabricantes de seringas e o Ministério da Saúde. Segundo Adriana Lucena, coordenadora-geral substituta do Programa Nacional de Imunização (PNI), a quantidade inicial pedida pelo Ministério da Saúde refere-se ao acordo que o governo tem com a vacina da empresa AstraZeneca, em parceria com a Universidade de Oxford.


— Paralelamente, estamos acompanhando outras empresas e laboratórios no avançar das pesquisas. À medida em que identificarmos a eficácia é que o Ministério vai se organizar para avaliar novos acordos. Até o momento, o que temos firmado de concreto são as 100 milhões de doses da AstraZeneca em parceria com o Brasil — afirmou. Apesar da encomenda apenas para a vacina de Oxford, o Brasil tem outros imunizantes em fase avançada de testes. Uma delas é a CoronaVac, parceria entre o Instituto Butantan e a empresa chinesa Sinovac, que também está na terceira e última fase de testes.


Corrida por insumos


A BD é uma das três empresas que fabricam seringas no Brasil e única fornecedora de agulhas. As outras duas são a SR, em Manaus, e a Injex, em Ourinhos (SP).


Com fábricas em Curitiba, onde são feitas as seringas, e em Juiz de Fora (MG), para produção de agulhas, a BD informa que o setor tem condições de atender os pedidos do governo brasileiro sem necessidade de investir em novas linhas de produção, apenas aumentando os turnos de funcionamento. Mas alerta que é preciso planejar a produção e o treinar funcionários.


— Começamos a nos preocupar porque é preciso que o governo faça um estoque estratégico. As empresas podem produzir, mas precisam de planejamento prévio. Não vendemos pizza. Entregamos hoje o que os clientes encomendaram seis meses atrás — afirma Walban Souza, diretor de assuntos corporativos da BD.

Há menos de um mês, o governo federal lançou termo de referência para a compra de 30 milhões de seringas, sem licitação, para uso em campanha de vacinação de sarampo e influenza. O objetivo era que a entrega fosse feita em 30 dias. O processo fracassou porque as empresas não conseguiriam entregar a quantidade num prazo tão curto.


—  Nenhuma empresa apareceu na licitação, ou seja, ninguém tinha capacidade de produção imediata — afirma Paulo Henrique Fraccaro, superintendente da Abimo, associação que reúne as indústrias de equipamentos médicos e hospitalares.

Para compra sem licitação, em caráter emergencial, a entrega por parte das empresas não pode ser parcelada, sob pena de infringir as regras de compras governamentais.


Fraccaro afirma que a entidade está alertando o governo para que não deixe as compras de materiais para a vacinação contra a Covid-19 para a última hora.


—  Já aprendemos uma lição com a busca de ventiladores e EPIs quando a pandemia começou. Vimos a loucura que foi. Com a vacina, o mundo todo está à procura de seringas ao mesmo tempo. É importante que o governo tenha consciência de que precisará de um adicional no início das aplicações — diz ele. Uma campanha de vacinação como a do sarampo, por exemplo, necessita de 130 milhões de seringas. Nas contas de Fraccaro, a encomenda para vacinação contra o coronavírus teria de garantir vacinação para toda a população. 


— Para o Covid, se for uma dose, serão necessárias 200 milhões de seringas. Se forem duas doses, 400 milhões por ano — diz ele.


O setor não sabe se o governo federal pretende centralizar as compras de seringas e agulhas, para obter preços mais baratos, ou se vai deixar a cargo dos estados parte das encomendas. Nas compras emergenciais de respiradores e EPIs, houve sobrepreço e desvios, e parte dos equipamentos sequer foi entregue. Por enquanto, as compras dos estados são incertas. O governo de São Paulo diz que iniciou a compra de 11 milhões de unidades para vacinação da Covid-19. No estado paulista, o Instituto Butantan coordena a fase final de testes da CoronaVac, uma das vacinas contra o coronavírus. O preço de uma seringa completa, já com agulha, custa hoje 18 centavos de real. Para encomendar 80 milhões de unidades nacionais ao preço atual, o gasto seria de R$ 14,4 milhões.

— Não será um valor expressivo para o governo. Nem bala custa isso mais — diz o executivo da BD.


Fraccaro explica que as fabricantes terão, também, de encomendar matéria-prima. Com a forte demanda mundial, o valor poderá variar de 20 centavos a 50 centavos por seringa.

—  É muito barato, não é a seringa que vai quebrar o governo —  diz ele.


Ocorre que, sem planejamento e recorrendo à compras emergenciais, sem licitação, como fez recentemente, o produto encarece.


A demanda por imunização contra o coronavírus promete ser grande. O Brasil tem 28 milhões de pessoas com 60 anos ou mais - idosos que são o grupo de maior risco para a Covid-19. 


Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde, 57,4 milhões de pessoas têm ao menos uma doença crônica. Uma pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), de 2018, mostra que 7,7% da população adulta têm diabetes e 24,7% hipertensão, .doenças que são também relacionadas a outro fator de risco para a Covid-19, a obesidade, que afeta 19,8% dos adultos no país. Além disso, os profissionais de saúde - trabalhadores mais expostos ao risco de contrair coronavírus e que devem ser vacinados prioritariamente - correspondem a 2.858.437 pessoas, sendo 523.528 médicos e 2.334.909 enfermeiros, auxiliares de enfermagem e técnicos de enfermagem.

Capacidade de produção


Somadas, as três fabricantes de seringas no Brasil têm capacidade para produzir cerca de 1,5 bilhão de unidades por ano de quatro tipos  - de  3, 5, 10 e 20 ml. A seringa usada para campanhas de vacinação é a de 3 ml, o que vai requerer esforço maior de produção deste modelo específico.


Fraccaro afirma que a importação de seringas pode tornar a campanha de vacinação quase inviável. Um lote de 300 milhões comprados na China, por exemplo, para complementar a intenção de compra atual do governo brasileiro, necessitaria de 80 a 90 contêineres para chegar ao Brasil. Num avião, segundo ele, cabem no máximo dois contêineres, o que levaria também o custo do frete a valores estratosféricos.


— É impossível trazer a quantidade que precisa de fora do país. O governo precisa definir o que vai precisar para 2021 todo, para não parar a vacinação no meio. Seria muito triste ter a vacina em uma mão e na outra não ter a seringa — diz Fraccaro.


Mesmo a distribuição de seringas dentro do Brasil precisa ser organizada. As empresas precisam despachar antes os lotes destinados ao Norte e Nordeste, para que cheguem no tempo certo, já que o transporte é feito por caminhões e a preços normais.


— Se tiver que levar de urgência, de avião, vai sair muito mais caro — diz Souza.


Fonte: O Globo

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