Psiquiatras debatem prós e contras da Cannabis em mesa-redonda

O Relatório Mundial sobre Drogas de 2019 da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que a maconha é a droga ilícita mais consumida no mundo, com cerca de 188 milhões de usuários. [1] Segundo o Dr. Benicio Frey, psiquiatra da McMaster University, no Canadá, atualmente os Estados Unidos e o Canadá vivem uma crise relacionada com a Cannabis. O especialista e colegas discutiram fatores como a maior disponibilidade e o aumento progressivo da concentração de tetraidrocanabinol (THC), que têm contribuído para um uso cada vez mais problemático da droga. O debate ocorreu durante uma mesa-redonda do 37º Congresso Brasileiro de Psiquiatria, realizado em outubro no Rio de Janeiro.

O Canadá legalizou o uso de maconha para fins recreativos em 2018. Segundo a Dra. Zena Samaan, psiquiatra da McMaster University, aproximadamente 15% (4,4 milhões) dos canadenses consomem Cannabis [2] e, provavelmente, essa taxa é subestimada. “Trata-se do mesmo percentual de usuários de tabaco no país”, afirmou.

Cannabis no contexto dos transtornos relacionados com o uso de substâncias

Estudos mostram, segundo a médica, que a Cannabis é usada por mais da metade dos pacientes em tratamento para transtorno do uso de opioides. [1] Diferentes pesquisas conduzidas por Dra. Zena e colaboradores vêm demonstrando que os impactos dessa prática podem ser variados em homens e mulheres.

Em uma pesquisa multicêntrica com pacientes canadenses em tratamento de manutenção com metadona para transtorno do uso de opioides, Dra. Zena e colaboradores observaram associação entre uso de Cannabis e piores resultados do tratamento nas mulheres. Isso porque a maconha foi associada ao uso ilícito de opioides apenas no gênero feminino. [4]

Já entre os homens, a droga parece estar associada a outros prejuízos. Dados de um estudo da equipe da McMaster University revelam que, entre pacientes com transtorno psiquiátrico, homens que fazem uso regular de Cannabis apresentam risco de suicídio mais elevado. Para cada dia/mês de uso da Cannabis houve um aumento de 3% no risco de comportamento suicida. [5]

A Dra. Zena apresentou dados de uma pesquisa que ainda será publicada no periódico BJPsych Open, na qual foram avaliadas 672 pessoas com transtorno de uso de opioides recebendo metadona. Os resultados mostraram que, entre os usuários de Cannabis, houve prevalência de consumo de bebidas alcoólicas, bem como taxa de ansiedade mais elevada. Por outro lado, o uso de heroína foi menor. Mas, a médica alertou que a ideia de que Cannabis atua como um substituto para os opioides, funcionando como uma “droga de saída”, é falsa.

Cannabis versus ansiedade

Outra ideia comum no imaginário popular é que Cannabis representa uma alternativa natural para o tratamento de vários agravos. Dados de uma revisão sistemática e metanálise que incluiu 13 estudos e 6.665 participantes de mais de 30 países mostram que 52% dos indivíduos que relatam usar maconha medicinal têm como finalidade o controle da ansiedade. [6] Segundo o Dr. Michael Van Ameringen, psiquiatra da McMaster University que também esteve presente no congresso brasileiro, estudos têm apontado que a maioria dos pacientes que recorre a essa estratégia, de fato considera que ela melhora os sintomas da ansiedade e boa parte deixa de fazer uso de medicamentos em prol da maconha.

Uma pesquisa publicada esse ano no periódico Journal of Psychiatric Research[7] que avaliou canadenses com autorização para consumo medicinal de Cannabis revelou que quase 49% dos pacientes que usavam a droga para ansiedade estavam substituindo, em algum grau, um medicamento prescrito (antidepressivos, opioides, benzodiazepínicos, entre outros) pela Cannabis.

O médico alertou, no entanto, que “atualmente o embasamento científico para o uso de Cannabis como um tratamento psicofarmacológico contra a ansiedade e os transtornos relacionados ainda é muito limitado (nível 3 de evidência)”.

Impacto no sono e na cognição

O relatório da National Academies of Sciences, Engineering and Medicine dos Estados Unidos publicado em 2018 estabelece que atualmente existem evidências moderadas de que a Cannabis ou os canabinoides são eficazes para melhorar resultados de sono em curto prazo em indivíduos com distúrbio do sono associado com síndrome da apneia obstrutiva do sono, fibromialgia, dor crônica e esclerose múltipla. [8] No entanto, o Dr. Benicio lembrou que os membros do comitê informaram a necessidade de mais estudos.

O médico afirmou durante palestra que queixas relacionadas com o sono são a terceira causa mais comum de procura pela maconha medicinal. [9] Além disso, boa parte dos usuários de Cannabis reporta sono ruim como um dos principais fatores associados a lapso/recaída durante tentativa de cessação do uso de maconha.

Com relação à cognição, o médico explicou que estudos têm apontado algumas características relacionadas com o uso, por exemplo, aumento da frequência e quantidade de consumo, que parece estar associado a prejuízos relacionados com a memória verbal e de trabalho. Quanto à atenção, já está mais bem estabelecido que há comprometimento na atenção sustentada com a exposição aguda a canabinoides, geralmente de maneira dose-dependente, o mesmo ocorre com a função psicomotora. Por outro lado, existe mais inconsistência nos dados com relação a um possível prejuízo na função executiva e no processo decisório.

Em contrapartida, alguns estudos apontam possíveis benefícios cognitivos relacionados com o uso de canabinoides. O THC oral ou a Cannabis fumada têm sido associados com melhora no pensamento divergente, citou o Dr. Benicio, lembrando ainda que, entre indivíduos com esquizofrenia, aqueles com história de uso de Cannabis têm um desempenho cognitivo melhor, o mesmo tem sido reportado para sujeitos nos primeiros episódios de psicose. Nesse último grupo, o consumo da droga esteve associado ainda com coeficiente de inteligência (QI) e funcionamento social pré-mórbido melhores. [10,11]

Para o Dr. Benicio, a existência de centenas de compostos diferentes na Cannabis representa um desafio no campo científico. O fato de existirem também diferentes modos de ingestão é outro complicador, visto que eles podem ter impactos importantes sobre os resultados em saúde.

“São necessários ensaios clínicos randomizados e controlados mais bem desenhados, com maior poder para responder à questão primária da pesquisa e que registrem medidas objetivas e subjetivas do sono”, destacou o psiquiatra, apontando também a necessidade de atentar para a dose e a proporção de THC/canabidiol.

Fonte: Medscape

#cannabidiol #debate #psiquiatras

3 visualizações

© 2020 Portal Saúde Agora. Tudo sobre SAÚDE em um só lugar!

  • Facebook
  • Instagram