Projeto criado por médico cearense traduz receitas em linguagem acessível


Imagine a seguinte situação: você vai ao médico com um problema de saúde e ele te passa um diagnóstico usando vários termos técnicos. Ao final da consulta, você recebe uma receita médica com diversas informações difíceis de compreender. Esta situação pareceu familiar?


Provavelmente sim. Para Rogerio Malveira Barreto, médico de 28 anos, depois de muito trabalho e pesquisa, ficou nítido que a maioria das pessoas, em especial as que tiveram menos acesso ao ensino, tem uma grande dificuldade de compreender as informações passadas nas consultas, principalmente as que são colocadas nas receitas. Este foi o estímulo para que o cearense, que hoje mora em Florianópolis, criasse a Pulsares, plataforma de prescrição eletrônica gratuita e acessível a qualquer profissional de saúde.


"Com um login e senha, a pessoa pode gerar uma prescrição ou lista de medicação a partir do banco de dados de medicações, de forma fácil e rápida, de acordo com a rotina do paciente. O programa organiza e automatiza o processo. Essa prescrição é gerada automaticamente e organizada em horários, com linguagem fácil. Por exemplo: tomar o remédio pela boca todos os dias.", explica o criador. Para auxiliar o público, as instruções são acompanhadas de imagens e mostram quando, como o que tomar. A prescrição também pode ser impressa ou enviada ao paciente.


Além do software, Rogerio também disponibiliza cursos e projetos voltados para a comunicação fácil, descomplicada. "Produzimos o primeiro curso EAD de Letramento em Saúde da América Latina para a Secretaria Municipal de São Paulo, via Instituto Tellus e Fundação Novartis. O curso é voltado a profissionais da atenção primária em saúde. Também desenvolvemos o primeiro processo de aprendizagem de comunicação não violenta e letramento em saúde para profissionais da área", diz.


Com a Pulsares, Rogerio espera poder colocar em prática a saúde que acredita, que parte de uma comunicação mais humana e efetiva. "A comunicação de um profissional é a ponte pela qual o conhecimento científico chega nas pessoas. Tem um médico, Michael Balint, que diz que o primeiro remédio de um paciente é o profissional de saúde", explica ele, que cita um dado dos Estados Unidos, que estima o custo do não entendimento das informações em saúde em torno de R$ 335 bilhões por ano aos sistemas de saúde.


O projeto é baseado em três pilares: comunicação não violenta, design thinking e letramento em saúde. "O letramento em saúde é como as pessoas entendem saúde, são as habilidades em acessar, avaliar, entender e aplicar informações em saúde para se tomar decisões que mantenham ou aumentem a qualidade de vida. A CNV é um processo de comunicação e uma forma de existir no mundo que cuida da vida e das necessidades e sentimentos das pessoas em uma relação. É um caminho prático para se realizar empatia. Por fim, o design thinking é uma abordagem de resolução de problemas focada no ser humano e na colaboração. O objetivo é explorar ao máximo um problema, e principalmente as pessoas envolvidas neste problema, para depois pensar em soluções que se adequem às pessoas."


Em um momento de pandemia como o que o mundo vive atualmente, mostra a importância de ações como esta. A sobrecarga de trabalho torna ainda mais desafiador realizar uma comunicação fácil e humana, e, segundo Rogerio, o projeto ajuda a lembrar do que importa de fato: o contato com o paciente. Se não há uma ponte entre o médico e a pessoa que está sendo atendida, o que está sendo feito então?


Atualmente trabalhando em um posto de saúde de Florianópolis, o médico compartilhar alguns dos desafios enfrentados no dia a dia. "Jjá encontrei pacientes com remédios vencidos quando pedi para trazer as medicações e revisar, [outros] que tomavam medicação diferente do acordado e acabava não fazendo efeito", lembra.


"Estava ouvindo um podcast "How do you cure a compassion crisis?" (Como se cura uma crise de compaixão?), que fala sobre a crise de compaixão na saúde: profissionais sobrecarregados e pacientes que desejam um cuidado atencioso e efetivo. Como equalizar essa balança? Acredito que a Pulsares representa uma forma de fazer saúde que leve em conta uma prática não violenta com profissionais e também com pacientes, cuidando dos envolvidos", finaliza.


Fonte: UOL

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