Programa dos EUA propõe trabalho social ‘voluntário’ em troca de assistência médica básica

Um cirurgião nos Estados Unidos começou a oferecer aos seus pacientes uma forma de pagamento totalmente nova, com a qual eles talvez não consigam arcar: os procedimentos podem ser “pagos” com trabalho social voluntário.

O Dr. Demetrio Aguila III, atua junto com a Healing Hands of Nebraska , especializada em tratamento cirúrgico da dor; cirurgia de nervos periféricos; cirurgia otorrinolaringológica e alergias; e cirurgia reparadora.

Dr Demetrio Aguila III

Ao discutir as opções cirúrgicas com os pacientes, o médico oferece – a despeito da renda ou cobertura do seguro – três opções de pagamento: à vista antes do procedimento, em parcelas ou via prestação de serviço comunitário voluntário.

A maioria escolhe as duas primeiras, mas até agora três pacientes optaram pela terceira alternativa, o trabalho voluntário, disse o Dr. Demetrio ao Medscape.

A iniciativa é chamada de M25 Program, em referência à passagem bíblica Mateus 25:40: “Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus 25:40b).

O programa funciona da seguinte forma: os pacientes que escolhem o M25 são instruídos a procurar uma das duas instituições de caridade cadastradas como parceiras até então. A instituição entra em contato com o Dr. Demetrio para saber quantas horas de trabalho voluntário o paciente precisa realizar para cobrir o serviço prestado pelo médico, que fará o procedimento de graça.

O número de horas a serem trabalhadas é estabelecido, e o paciente e seus familiares ou amigos cumprem essas horas.

Quando o trabalho social é finalizado, a cirurgia pode começar.

Os preços são transparentes

Todos os preços da clínica são transparentes, afirmou o Dr. Demetrio, pois ela funciona sem contrato com convênios. Os pacientes sabem exatamente quanto o tratamento vai custar, um montante que não muda após a cirurgia.

As duas instituições parceiras até o momento são a Orphan Grain Train , que distribui alimentos, aparelhos eletrônicos e roupas para pessoas necessitadas em todo o mundo, e é sediada na Virgínia (EUA), e a The Least of My Brethren , uma instituição de caridade em Nebraska, também nos EUA, que ajuda pessoas em condição de rua a se reestruturarem. Os parceiros prestam conta das horas cumpridas e oferecem a infraestrutura para que os pacientes realizem o trabalho necessário.

Parte da beleza do programa, disse o Dr. Demetrio, é que qualquer tarefa que precise ser feita – pintura, atender ao telefone, preencher papeis, encaixotar – pode ser completada pelo paciente ou qualquer pessoa recrutada por ele – familiares, amigos, estudantes, colegas de trabalho.

O Dr. Demetrio, de 48 anos, disse que tem recebido ligações de empresas locais e de pessoas perguntando se podem ajudar algum paciente que precise de cirurgia, realizando parte de seu trabalho.

Mas, por que pedir que os pacientes trabalhem se o médico vai realizar a cirurgia de graça de todo jeito? O investimento do paciente em si mesmo e na sociedade onde vive, explicou ele, é a toda a base do programa.

“A gente vê em um estudo atrás do outro que os pacientes que não se envolvem na obtenção de seus resultados apresentam desfechos piores. Como cirurgião, eu quero dar todas as ferramentas possíveis para que o meu paciente tenha o melhor resultado”, ele disse.

Quando os pacientes dedicam o próprio tempo e sabem que outras pessoas estão investindo em seu progresso ao ajudá-los com as horas de trabalho, eles obtêm as ferramentas necessárias, disse o Dr. Demetrio.

O paciente se beneficia, a instituição e a sociedade se beneficiam, e o Dr. Demetrio disse que seus colegas se beneficiam de uma forma diferente.

Ele disse que a sua fé o impulsiona a ajudar os outros e que ele está apenas realizando a sua missão como médico.

A clínica rompe com o modelo tradicional

O Dr. Demetrio é o único profissional a doar seu tempo. Outros profissionais de saúde, funcionários, bem como os custos de manutenção da clínica, são pagos de forma usual: a conta vai para o paciente. Ele está empenhado em buscar clínicas que topem doar o valor cobrado pelo uso do local e também os honorários da equipe como parte do M25 Program. O South Omaha Surgical Center é o primeiro fechar esse tipo de acordo para algumas cirurgias.

Ele disse que não é vinculado a nenhum contrato com convênios, e assim não precisa trabalhar com restrições, como autorizações. Eles participam do Medicare e Medicaid, mas os pacientes desses programas não são elegíveis para o M25 Program; o programa é aberto para quem não tem plano ou seguro de saúde.

A inspiração veio do Afeganistão

O Dr. Demetrio disse que começou a considerar aplicar a prática da medicina a um trabalho missionário durante a última fase de seus 22 anos na força aérea norte-americana.

Em sua última missão no Afeganistão, ele disse que realizou mais de 300 cirurgias em cerca de quatro meses e meio.

Ao voltar para a vida em sociedade Dr. Demetrio, ele sabia que queria prestar um serviço médico-humanitário.

Ele disse ter três objetivos em seu trabalho: “O primeiro é recuperar a esperança das pessoas desassistidas pela medicina; o segundo é recuperar a esperança das pessoas desassistidas pelo sistema financeiro; e o terceiro é recuperar a esperança dos médicos.”

Ele observou as altas taxas de burnout e suicídio entre os médicos e o constante cabo de guerra entre “não prejudicar” mas frequentemente ser parte do problema quando os pacientes estão sobrecarregados com as contas que não podem pagar.

O primeiro paciente fez 560 horas

Jeffrey Jensen foi o primeiro paciente a escolher o M25 Program e a cumprir as horas de trabalho voluntário. Ele disse em um vídeo no site da instituição que, no primeiro momento, as 560 horas necessárias pareceram assustadoras.

Então ele pensou, “e se minha mãe, minha esposa, meus filhos e minha irmã ajudassem, e se eu chamasse meus primos, meus colegas escoteiros, minha igreja, as pessoas com quem trabalho? E se todas essas instituições que sempre me pediram ajuda e eu sempre estive lá para elas, e se eu pedisse ajuda de volta?”

Ele disse que o M25 Program não tem a ver com dinheiro.

“Se as pessoas se unirem para se ajudar, então a comunidade prospera”, disse Jeffrey.

O Dr. Mark Fendrick, médico e diretor do University of Michigan’s Center for Value-Based Insurance Design, nos EUA, disse que nunca havia visto um modelo semelhante, envolvendo a troca de horas de trabalho pelos custos de cirurgias.

No entanto, ele destacou que os motivos subjacentes que levaram as pessoas a buscarem esse tipo de solução nos EUA são evidentes.

Ele comentou sobre uma história no site Kaiser Health News mostrando que as elevadas franquias para pacientes estão causando estrago para pacientes, médicos e hospitais em áreas rurais nos EUA. O artigo pontua que as franquias anuais de três, cinco ou dez mil dólares são cada vez mais comuns, e em áreas rurais, como salários tipicamente menores e menos planos de saúde para funcionários, a dificuldade para pagar vem crescendo.

O Dr. Mark disse que embora “adore a ideia de que existam programas inovadores em andamento para remover o crescente impacto financeiro para pacientes que precisam de cuidados essenciais”, o estabelecimento do programa de Nebraska e outros expõe o estado impraticável dos modelos de pagamento dos tratamentos em saúde.

“Os pacientes não deveriam precisar vender bolos, realizar uma campanha para angariar fundos on-line ou serviços comunitários para obter assistência médica básica”, disse ao Medscape.

“Embora o trabalho voluntário certamente traga benefícios para a comunidade e seja preferível do que a dívida, nem todos têm tempo suficiente para cumprir essa exigência.”

Fonte: Medscape

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