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Problemas neurológicos já afetam 43% da população, diz novo estudo global



Os problemas de saúde relacionados ao sistema nervoso são aqueles que mais impactam a população global, revela um levantamento inédito. Um estudo epidemiológico que mapeou a extensão de diferentes tipos de doenças e lesões em 207 países mostra que cerca de 43% do planeta (3,4 bilhões de pessas) sofre em alguma medida com transtornos neurológicos.


A pesquisa, publicada nesta quinta-feira na revista britânica The Lancet Neurology, foi realizada no pelo Global Burden of Disease (GMB), um consórcio internacional de cientistas que avalia o estado de saúde da humanidade periodicamente. Quando levado em conta o impacto causado em anos de vida saudável perdidos por cada indivíduo (e não apenas as mortes prematuras), os problemas neurais já superam as doenças cardiovasculares, que são a principal causa de óbitos no mundo.


Esta foi a primeira vez que o GBD mediu transtornos neurológicos em uma gama mais ampla, que inclui na categoria alguns problemas de desenvolvimento, congênitos ou infecções com consequências neurais. No estudo anterior, relativo a 2016, eram levados em conta 15 diferentes problemas, e cientistas reconheciam que era uma gama limitada. No estudo atual, com dados de 2021, os pesquisadores já consideram 37 problemas neurais.


Entre os itens avaliados, os cinco que mais afetam ou matam as pessoas hoje no mundo são o acidente vascular cerebral (AVC), a encefalopatia neonatal, a enxaqueca, as demências (incluindo Alzheimer) e a neuropatia diabética.


O critério principal usado no estudo para medir o impacto dessas doenças é o dos "anos de vida ajustados para incapacitação" (DALYs, na sigla em inglês). Essa é uma medida usada por epidemiologistas para calcular quantos anos de vida ativa e com qualidade uma pessoa perde em função de doença ou lesão, seja por morte precoce ou por condições incapacitantes. O cálculo leva em conta também a idade e a expectativa de vida da pessoa.


Por esses critérios, o GBD estima que a prevalência de transtornos nervosos significa que, em 2021 a população global perdeu 443 milhões de anos de vida saudável. Essa era a soma dos "DALYs" perdidos por todas as pessoas afetadas.


Situação no Brasil


O Brasil é um dos países onde a incidência de problemas neurológicos aumenta. Pelos dados de 2021, a cada 100 mil brasileiros, a prevalência de problemas nervosos rouba hoje 4.325 anos de vida saudável, e o país está em 136° lugar (indo do pior ao melhor) num total de 207 países avaliados. No mundo, a média de perda coletiva de anos de vida para essas condições é de 5.638.


— O Brasil está mais ou menos dentro do esperado para sua faixa de renda e desenvolvimento — afirma a médica e epidemiologista Alessandra Carvalho Goulart, cientista da Universidade de São Paulo que colaborou com o trabalho do GBD.


Para ela, o país enfrenta um desafio de saúde pública comum na América Latina na prevenção e tratamento do AVC, que lidera o impacto na lista publicada hoje. Segundo ela, não foi uma surpresa total ver o impacto dessa classe de problemas superar o de doenças cardiovasculares.


— O AVC sempre foi um agravo neurológico negligenciado — diz. — Uma pessoa que sobrevive a um infarto tem uma chance razoável de voltar a trabalhar. Quando uma pessoa de 40 ou 50 anos tem um AVC, se ela fica incapacitada, dependendo do grau de incapacidade motora e cognitiva, ela não volta mais ao trabalho. E se ela não tiver acesso adequado à saúde, pior ainda.

Outros itens das condições neurológicas mais impactantes listadas pelo GBD, como encefalopatia neonatal e complicações nervosas decorrentes de partos prematuros, afetam particularmente países de baixa renda.


Nações na faixa mais pobre do espectro mundial, incluindo a África Subsaariana, concentram 80% da carga global das doenças neurológicas, sobretudo por causa do impacto nas crianças. Goulart aponta que o Brasil também tem muito a avançar na frente de saúde da gestante e infantil para reduzir sua taxa de complicações nervosas.


Paradoxalmente, a queda na mortalidade infantil nas últimas décadas agravou a incidência de problemas neurológicos em países pobres.


"A melhora na sobrevida infantil levou a um aumento na incapacitação de longo prazo, enquanto o acesso limitado a serviços de tratamento e reabilitação está contribuindo para uma proporção muito maior de mortes nesses países", afirmou Tarun Dua, chefe do setor de sistema nervoso na Organização Mundial da Saúde (OMS) e uma das líderes do estudo, em comunicado.


Envelhecimento populacional


Uma boa notícia trazida pelo estudo é que, quando levada em conta a idade dos indivíduos afetados por problemas, o impacto deles está diminuindo: a perda de anos saudáveis caiu 27% em média para cada faixa etária. O ponto de maior preocupação é que, com taxas de natalidade em queda, o perfil da população global está envelhecendo. Por causa disso o impacto em números absolutos dos problemas neurais cresceu 18% nos últimos 30 anos.


Para Goulart, uma prioridade das políticas públicas para tentar frear esse aumento é tentar controlar os fatores de risco, que passam muito por tabagismo, alimentação e atividade física. Essas variáveis mudam um pouco conforme cada condição neurológica, mas muitas vezes elas são os mesmos fatores de risco para doenças cardiovasculares e metabólicas.


— Para o AVC, a medida mais eficaz é controle de pressão, por exemplo, e para demências é o controle da glicemia — diz a pesquisadora.


Um grupo de pesquisadores da Organização Panamericana de Saúde (Opas) comentou o resultado do GBD para problemas neurológicos e diz que é preciso implementar mudanças na linha de frente do atendimento, mais do que unidades de saúde especializadas.


"Serviços amplos de saúde cerebral, que abrangem prevenção, tratamento e reabilitação, devem ser melhorados e ampliados em todos os níveis de cuidados, mas especialmente ao nível dos cuidados primários", escrevarm os pesquisadores em artigo liderado por Ricardo Oliveira e Souza, chefe de saúde mental da Opas. "Os diagnósticos e medicamentos essenciais para prevenir e tratar doenças neurológicas também devem estar disponíveis e acessíveis nos cuidados primários e nos ambientes hospitalares."


Fonte: O Globo

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