Primeiro-ministro do Japão anuncia renúncia por motivos de saúde



TÓQUIO — O primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, anunciou sua renúncia nesta sexta-feira, devido a problemas de saúde. Há apenas quatro dias, o premier, que sofre de colite ulcerativa, havia alcançado o recorde de mais duradouro líder à frente do país da história japonesa.


— Por mais que eu ainda tenha mais um ano de mandato e há desafios a serem cumpridos, decidi renunciar como primeiro-ministro —  disse, emocionado, durante uma entrevista coletiva na manhã de sexta-feira. — Não posso continuar a ser premier sem a confiança de que posso realizar o trabalho designado a mim pelo povo japonês (...). Peço desculpas do fundo meu coração que, mesmo com todo o apoio do povo japonês, eu esteja deixando meu mandato faltando um ano para seu fim — completou, afirmando que continuará no poder até que um substituto seja escolhido.


Abe, de 65 anos, foi primeiro-ministro por quase oito anos, um feito significativo em um país acostumado a uma alta rotatividade nos cargos de chefia. Durante seu mandato, ele supervisionou a recuperação do Japão após um terremoto devastador, um tsunami e um desastre nuclear. Também restaurou a saúde econômica do país e conquistou a simpatia de um presidente americano imprevisível, Donald Trump.


No entanto, apesar de sua longa permanência no poder em sua segunda passagem como primeiro-ministro — tendo ocupado o cargo em 2006-2007 — Abe não conseguiu atingir alguns de seus objetivos. Ele foi incapaz de revisar a Constituição pacifista instalada pelos ocupantes americanos do pós-guerra, ou de assegurar o retorno das ilhas contestadas reivindicadas tanto pelo Japão quanto pela Rússia para que os dois países pudessem assinar um tratado de paz para encerrar oficialmente a Segunda Guerra Mundial.

A mídia japonesa tem especulado sobre a saúde de Abe há semanas, especialmente depois que ele diminuiu significativamente as aparições públicas após uma nova onda de infecções por coronavírus eclodir em várias partes do país. Quando Abe visitou um hospital duas vezes no período de uma semana, o boato disparou.


Mais cedo nesta sexta-feira, Yoshihide Suga, secretário-chefe de gabinete de Abe, assegurou a repórteres que Abe pretendia permanecer no cargo.


— O próprio primeiro-ministro disse que gostaria de trabalhar duro novamente de agora em diante, e estou vendo-o todos os dias — disse Suga em uma entrevista coletiva, dizendo que a saúde do primeiro-ministro “permanece inalterada”.


Abe, neto de um primeiro-ministro acusado de crimes de guerra e filho de um ex-ministro das Relações Exteriores, começou sua primeira passagem de um ano como primeiro-ministro em 2006. Ao renunciar em 2007 após escândalos, ele citou efeitos debilitantes da colite ulcerosa, uma doença intestinal.


Durante seu segundo mandato, que começou no final de 2012, Abe sobreviveu a alguns escândalos de tráfico de influência e enfrentou inúmeras eleições. Em 2015, ele aprovou uma controversa lei de segurança que permitia que as tropas japonesas se engajassem em missões de combate no exterior ao lado das forças aliadas, como parte de ações de "autodefesa coletiva".

Seu poder político atingiu o auge em 2017, quando seu partido obteve uma vitória esmagadora que lhe deu, junto com seus parceiros de coalizão, dois terços dos assentos no Parlamento. Esta era a maioria absoluta necessária para levar a cabo uma revisão constitucional, mas Abe nunca concretizou esse sonho, com a oposição pública a tal mudança permanecendo alta.


Abe, que estava no cargo quando Tóquio venceu a disputa para sediar os Jogos Olímpicos de 2020, renunciará antes de poder presidir os Jogos, que foram adiados para 2021 por causa da pandemia.


Neste momento, Abe se tornou um líder extremamente impopular, cujas taxas de desaprovação atingiram seu nível mais alto desde que ele começou seu segundo mandato.

O público está insatisfeito com a forma como seu governo lidou com o coronavírus, particularmente com seus efeitos sobre a economia, que apagaram as conquistas que ele poderia reivindicar de sua plataforma econômica, conhecida como "Abenomics".

Segundo esse programa, Abe administrou um plano de três frentes: flexibilização monetária, estímulo fiscal e reforma corporativa. Muitas de suas promessas de reforma corporativa — incluindo esforços para empoderar as mulheres, reduzir a influência do nepotismo e mudar a cultura de trabalho arraigada — permaneceram não cumpridas.


Se ele tivesse permanecido no cargo, seu mandato terminaria em setembro de 2021.


Fonte: O Globo

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