Primeira fase do projeto Parto Adequado reduz cesáreas em 16%

O projeto Parto Adequado, iniciativa que envolveu a Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o Institute for Healthcare Improvement (IHI) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), teve como objetivo implementar melhorias na qualidade em saúde na redução da taxa de parto cesárea em hospitais brasileiros.[1]

A primeira fase do projeto, que contou com 26 hospitais efetivamente participantes, foi desenvolvida durante 20 meses (entre maio de 2015 e dezembro de 2016), e os dados mostraram uma redução de 16% na taxa de cesárea nos hospitais envolvidos.

O projeto foi criado em resposta a uma ação civil do Ministério Público Federal (MPF) contra a ANS, com a determinação de que era preciso agir para reduzir a taxa de cesárea sem indicação no Brasil.

A partir da constatação de que o Brasil tinha uma das taxas de cesárea mais altas do mundo – sendo de 30% a 40% dos nascimentos no setor público e 80% a 90% no setor privado, e de uma pesquisa que mostrou que de 70% a 80% das mulheres brasileiras que davam à luz em hospitais particulares preferiam o parto normal, o projeto foi desenhado com o intuito de implantar melhorias para que as taxas de parto vaginal aumentassem. A taxa de parto cesárea estabelecida pela OMS é de 15%.

Os quatro pontos levantados para explicar o excesso de cesáreas no país nos últimos 30 anos foram: conveniência para o obstetra; prática obstétrica autônoma; modelo de cuidado obstétrico que proporcionava uma “maternidade hotel” e a medicalização do nascimento.

De acordo com a coordenadora médica do projeto Parto Adequado, Dra. Rita de Cássia Sanchez, antes da iniciativa, a ANS havia lançado uma normativa com três regras que tinham como objetivo a obrigação de fazer o cartão da gestante no pré-natal, a possibilidade de as pacientes terem acesso às taxas de partos normais e cesáreos dos médicos e a obrigatoriedade de preenchimento do partograma. No entanto, as três regras não fizeram a taxa regredir no Brasil; com isso, a ANS solicitou a intervenção do IHI para implementar um projeto que efetivamente diminuísse a incidência de cesáreas desnecessárias.

“Foi quando, em 2015, nasceu o projeto Parto Adequado, com o intuito de estimular o parto normal e incentivar que a cesárea seja feita somente com evidências científicas e indicação médica, e para evitar que bebês fossem para a unidade de terapia intensiva (UTI0 neonatal por causa de uma cesárea adiantada”, explicou.

Dos 26 hospitais participantes, a maioria era do setor privado e apenas quatro eram do setor público. Apesar de haver representatividade em todas as regiões do país, a maior concentração de hospitais se deu no sul e sudeste, por serem as regiões com maior incidência de segurados por planos de saúde, explicou a Dra. Rita.

“Há um problema sistêmico no Brasil, e não adianta culpar a paciente, porque ela não quis o parto normal, tampouco o médico ou o hospital. Vimos várias coisas acontecendo em todas as áreas que levaram, ao longo de três décadas, a todos se acomodarem ao sistema de marcação de cesáreas”, analisou a coordenadora médica do projeto.

As intervenções

Usando o modelo colaborativo de melhoria de qualidade em saúde, os pesquisadores testaram quatro medidas para aumentar o número de partos normais: reuniões com as lideranças dos hospitais, para garantir o parto adequado; empoderamento das gestantes, para que elas pudessem escolher a melhor via de parto; implementação de novos modelos de cuidado que favorecessem o parto vaginal; e melhoria dos sistemas de informação, para que os profissionais de saúde pudessem estar em constante atualização técnica.

“Não adianta querermos fazer algo dentro da maternidade se o hospital não comprar a ideia ou permitir essas intervenções. Sozinhos, os profissionais de saúde da maternidade não conseguem. Tínhamos, então, muitas reuniões com as lideranças dos hospitais para mudar as práticas”, explicou a Dra. Rita.

Além disso, a especialista contou que os cursos de gestantes foram modificados para que as mulheres pudessem aprender mais sobre o trabalho de parto.

“Juntávamos gestantes e profissionais de saúde – enfermeiros ou médicos – para tirar dúvidas técnicas”, relembrou. Além disso, o projeto contou com visitas guiadas à maternidade.

“Com isso, a mulher passava a conhecer desde a gestação qual seria o quarto que ela possivelmente teria, onde ela estaria durante o trabalho de parto, entre outros detalhes.”

Para a médica, todas essas ações estimulam a gestante a esperar pelo trabalho de parto e estar mais preparada para ele. “Muitas têm medo. Precisávamos tirar esse medo delas e mostrar que vários métodos de alívio da dor estariam disponíveis na maternidade, por exemplo.”

A implementação de novos modelos de cuidado que favorecessem o parto vaginal, como a equipe de profissionais de saúde composta também de enfermeiras obstetras, quartos que pudessem facilitar a permanência da gestante durante o parto normal, além de partos de baixo risco assistidos por enfermeiras obstetras, por exemplo, também fizeram parte das intervenções.

Para o profissional de saúde, a intervenção foi em educação continuada.

“Houve a revisão de todos os protocolos médicos sobre quais são as reais indicações de cesárea, e o que cada um faria caso houvesse intercorrência no trabalho de parto”, disse a Dra. Rita.

“Estamos há 30 anos fazendo cesárea em 80% dos partos, então é natural que haja dificuldades com o parto normal. Tivemos de treinar todos eles para que adquirissem confiança novamente para enfrentar o parto até o final.”

Além do treinamento, foram necessárias intervenções para que o hospital pudesse disponibilizar um espaço a gestante ser acomodada durante o trabalho de parto.

“Estimulamos que os hospitais fizessem reformas e criassem os quartos PPP (pré-parto, parto e pós-parto)”, disse a coordenadora do projeto.

Cada hospital, então, adotou o que foi possível no momento.

“Tivemos uma variação do número de ações implementadas, e talvez por isso não baixamos mais a taxa de cesárea”, explicou a médica.

O papel dos enfermeiros também foi ressaltado no projeto. “No setor público, a enfermagem assiste o parto de baixo risco, que não precisa de intervenção até o final, e o faz muito bem. É por isso que a taxa de cesárea no Sistema Único de Saúde (SUS) é menor, pois a enfermagem assiste o parto.”

Já no setor privado, explicou a médica, a maioria dos hospitais tem médicos assistindo o parto – e não enfermeiros. O aumento da equipe de enfermagem obstétrica e de obstetrizes, portanto, foi mais um ponto defendido dentro do projeto.

“O ideal é que elas fiquem durante o trabalho de parto e trabalhem em conjunto com os médicos, já que a disponibilidade e os horários dos médicos são mais restritos.”

Para Dra. Rita, as principais dificuldades enfrentadas foram a disponibilização de recursos financeiros para a reforma dos hospitais, o treinamento da equipe e a mudança de cultura. “É complexo, pois é necessário mudar a cultura do médico, da paciente e da liderança do hospital.”

Próximos passos

A segunda fase do projeto Parto Adequado está em andamento desde 2017, e conta com a participação de mais de 100 hospitais brasileiros. A Dra. Rita explicou que, até o momento, foi observada uma redução de 11% das taxas de parto. Sobre o valor não ter tido uma queda igual ou maior do que a primeira fase do projeto, a médica esclareceu: “Em termos estatísticos, há uma variabilidade nos números de quanto cada um baixou, além de ser um desafio treinar todos os hospitais.”

A terceira fase do projeto já está desenhada e, de acordo com a especialista, será uma campanha nacional, que terá como objetivo passar todo o conhecimento adquirido até o momento.

“Vamos analisar as ações que os hospitais conseguiram implantar e quais geraram mais ou menos despesas para podermos dar uma diretriz nacional para todas as maternidades aplicarem”, disse a médica. Para isso, o projeto aceitará doações de empresas que quiserem patrocinar os hospitais.

Fonte: Medscape

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