Por que a hanseníase ainda persiste como problema de saúde pública no Brasil


 
 

Perda de sensibilidade, formigamento, diminuição de força e da mobilidade. Estes foram alguns dos sintomas que acometeram Patrícia Gonçalves Soares, 36, moradora de Vitória da Conquista, na Bahia, diagnosticada com hanseníase em 2013.


A hanseníase é uma das doenças mais antigas da humanidade, com relatos de casos desde 600 a.C. Apesar de antiga, ela ainda é um grave problema de saúde pública, especialmente no Brasil, que concentra o segundo maior número de novos casos do mundo, atrás apenas da Índia.


A doença, que já foi chamada de lepra, foi renomeada devido ao estigma associado ao termo. Desde 1995, por definição da Lei nº 9.010, o termo lepra e seus derivados não podem mais ser utilizados na linguagem adotada nos documentos oficiais da União, dos estados e municípios. Este domingo (30) é marcado pelo Dia Mundial de Combate à Hanseníase.


Patrícia, que atua como coordenadora nacional do Movimento de Reintegração de Pessoas Afligidas pela Hanseníase (Morhan), conta que passou por diferentes consultas e atendimentos médicos até a confirmação do diagnóstico.


“Eu já tinha sintomas que já eram indícios de hanseníase há muito tempo, mas nenhum médico desconfiou que poderia ser a doença. Fiz uma peregrinação de médico em médico até que eu fui atendida por uma da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, que suspeitou que podia ser a hanseníase”, afirma.


Ela conta que não tinha conhecimento sobre a doença no momento do diagnóstico e que a descoberta sobre o preconceito em torno da doença foi um fator de preocupação. “Costumo dizer que eu fui um caso para estudo e que tudo que pode acontecer de pior na hanseníase aconteceu comigo. De início, foi uma situação muito ruim, mas com o tratamento eu melhorei e não tenho mais a doença, mas o cuidado permanece”, relata.


A hanseníase é causada por uma bactéria chamada Mycobacterium leprae, que afeta principalmente nervos periféricos e a pele. As complicações da doença podem levar a incapacidades físicas, principalmente nas mãos, pés e nos olhos.


Os sinais mais frequentes incluem dormência, formigamento e diminuição na força física das mãos, pés ou pálpebras, além de manchas brancas ou avermelhadas com diminuição ou perda da sensação de calor, de dor ou do tato.


No caso de Patrícia, a doença evoluiu para um quadro clínico agravado principalmente em razão do diagnóstico tardio. Ela desenvolveu uma condição clínica chamada de eritema nodoso, que consiste em uma reação inflamatória aguda, que se sobrepõe à evolução crônica e gradual da hanseníase.


“Eu cheguei a um estágio de eritema necrotizante, como se fossem bolhas de água meio sanguinolentas. Quando cheguei nesse estágio, cheguei a pensar que não tinha cura e que nunca iria melhorar, foi muito chocante nesse ponto”, diz.


O acompanhamento por uma equipe multidisciplinar, com médicos, enfermeiros e fisioterapeutas, contribuiu para a melhoria do quadro. Hoje, Patrícia está curada da hanseníase e se dedica, junto ao Morhan, à luta pela garantia e respeito aos direitos das pessoas atingidas pela doença e familiares.


Criado em 1981, o Morhan é uma entidade que promover atividades de conscientização e tem como foco a construção de políticas públicas eficazes para a população afetada pelo agravo.


O tratamento da hanseníase é feito a partir da associação de três antibióticos (rifampicina, dapsona e clofazimina). A indicação do tratamento depende da condição clínica de cada paciente, podendo ser de seis meses a um ano. O tratamento melhora a qualidade de vida, reduz os riscos de complicações e interrompe a transmissão da doença.


Doença negligenciada


A hanseníase é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma doença negligenciada.


Segundo a definição da OMS, agravos desse tipo são considerados endêmicos em populações de baixa renda e contribuem para a manutenção de situações de desigualdade no mundo. Além disso, o baixo investimento em pesquisas científicas por grandes empresas e farmacêuticas amplia as lacunas no diagnóstico e no tratamento.


“Estudos epidemiológicos realizados usando grandes bases de dados têm demonstrado que as pessoas que acabam desenvolvendo a doença são aquelas com nível de escolaridade mais baixo, salários mais baixos e que têm condições de vida piores”, afirma o pesquisador Milton Ozório, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).


Segundo o especialista, a persistência da hanseníase no Brasil como problema de saúde pública pode ser explicada, em parte, pelos determinantes sociais da saúde. De acordo com a definição da OMS, o conceito reúne fatores não médicos que influenciam a saúde humana, incluindo as condições nas quais as pessoas nascem, crescem, trabalham, vivem e envelhecem. Os determinantes perpassam os sistemas econômicos, as políticas públicas e sociais e as agendas de desenvolvimento.


“Quando falamos em condições de vida precária, incluímos questões como a falta de esgotamento sanitário, de água encanada e todos esses fatores que são importantes no que consideramos os determinantes sociais da saúde. Infelizmente, a persistência desses fatores no Brasil é risco justamente para essas populações que vivem em nível de pobreza e acabam desenvolvendo a doença com mais frequência”, completa Ozório.


Na avaliação do professor da Universidade de Brasília (UnB), Ciro Martins Gomes, ainda falta investimento em diagnóstico e tratamento da doença no país.


“A desigualdade social ainda faz com que a hanseníase seja uma doença relevante. Todo problema que temos de saúde pública, de saneamento e pessoas vivendo em locais muito aglomerados, leva ao aumento de uma doença transmissível. O desenvolvimento econômico social do Brasil, que não é satisfatório, justifica esse número de casos ainda alto”, diz.


A pesquisadora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), Carla Lisboa Porto, destaca que a persistência da hanseníase também está associada à dificuldade na realização do diagnóstico de forma oportuna.


“Temos aspectos de dificuldade de diagnóstico e de treinamento por parte de profissionais de saúde. Temos um país de dimensões continentais, que têm diferenças sociais gigantescas, inclusive no acesso da população aos equipamentos de acompanhamento de saúde”, diz.


Para Carla o acesso à informação sobre a doença ainda acontece de forma desigual nos diferentes municípios e regiões brasileiras. Ela defende a necessidade de investimento em políticas públicas e em campanhas de conscientização.


“São medidas que não conseguem atender igualmente populações e municípios que têm características muito diferentes, seja de acesso ou de formação de cuidados da saúde. A principal causa da não erradicação e do controle da doença é o silenciamento sobre as políticas públicas com relação à hanseníase. Apesar delas existirem, não existe ainda uma divulgação de maneira mais efetiva”, afirma.


Subnotificação dos casos


Dados preliminares divulgados pelo Ministério da Saúde apontam que o Brasil diagnosticou 15.155 novos casos de hanseníase em 2021, índice abaixo do registrado em 2020, de 17.979 casos. Nos últimos dois anos, observa-se que o número de casos foi bem menor quando comparado ao ano anterior à pandemia. Em 2019, por exemplo, foram notificados 27.864 casos da doença.


Em 2020, foram reportados 127.396 casos novos da doença no mundo à OMS. Desses, 19.195 (15,1%) ocorreram na região das Américas, sendo 17.979 notificados no Brasil – o que corresponde a 93,6% do número de casos novos do continente.


Para os pesquisadores, a pandemia impactou diretamente na detecção de novos casos. Os índices mais baixos podem estar associados à subnotificação da doença devido à dificuldade na manutenção da oferta dos serviços e atendimento especializado.


“Nos dois anos da pandemia, tivemos uma redução em torno de 50% dos diagnósticos. Não é que a doença reduziu, é por que deixou-se de diagnosticar quase metade dos casos pelo problema de acesso à saúde. Temos que correr atrás desse prejuízo”, afirma Gomes.


Embora a hanseníase seja tratável e tenha cura, o estigma ainda contribui para dificultar a adesão ao tratamento. “Quando as pessoas se sentem acuadas pelo preconceito ou que aquilo pode ter uma repercussão social, elas têm tanto a dificuldade de procurar atendimento como de aceitar o diagnóstico e o tratamento, que demora de seis meses a um ano”, afirma o professor da UnB.


Estratégias para reduzir a incidência da doença


No contexto da agenda sanitária internacional, a hanseníase faz parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). A iniciativa tem como meta o combate às epidemias da doença e de outros agravos transmissíveis, como tuberculose e malária até 2030.


No Brasil, o objetivo de reduzir a carga da doença até o fim de 2022 faz parte da Estratégia Nacional para o Enfrentamento da Hanseníase (2019-2022).


De acordo com o Ministério da Saúde, a meta poderá ser alcançada a partir da vigilância e do exame de pessoas próximas daquelas que tiveram o diagnóstico confirmado. Além disso, a pasta sugere que os profissionais de saúde façam a busca ativa para diagnosticar e tratar novos casos.


Em evento realizado no dia 25, em alusão à campanha Janeiro Roxo, de conscientização sobre a doença, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, anunciou que serão incluídos dois novos testes laboratoriais complementares ao diagnóstico da hanseníase no Sistema Único de Saúde (SUS).


Os testes “GenoType LepraeDR” e “NAT Hans” são exames de diagnóstico molecular, chamados tecnicamente de PCR, capazes de detectar o DNA da bactéria causadora da doença.


A tecnologia deve ser ofertada nos Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens). Segundo o ministério, neste primeiro momento, 10 estados devem receber as tecnologias até o final de 2022. A previsão de expansão para todos os estados e o Distrito Federal é até o final de 2023.


Um outro tipo de exame, que consiste em um teste rápido, será ofertado nas Unidades Básicas de Saúde.


Desenvolvido por pesquisadores da Fiocruz, o kit “NAT Hans” obteve registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2021. O novo método de diagnóstico foi desenvolvido pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) em parceria com o Instituto Carlos Chagas (Fiocruz Paraná) e o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP), ligado à Fiocruz e ao governo paranaense.


“O teste rápido para o diagnóstico é uma grande conquista, porque temos um sistema de saúde de acesso universal tão abrangente como nosso, o Brasil é o primeiro país do mundo a incorporar esses exames e oferecê-los gratuitamente a nossa população”, disse Queiroga no evento.


Fonte: CNN

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