Poluição do ar associada com doenças psiquiátricas

Má qualidade do ar está associada a maior prevalência de vários transtornos psiquiátricos, sugere nova pesquisa.

Ao analisar grandes conjuntos de dados dos Estados Unidos e da Dinamarca, pesquisadores encontraram correlações significativas entre poluição do ar e transtorno afetivo bipolar (TAB) em ambos os países, e entre poluição do ar e depressão, esquizofrenia e transtorno de personalidade na Dinamarca.

“Se soubermos quais fatores ambientais podem causar doenças, provavelmente poderemos preveni-las em alguns pacientes, especialmente se soubermos que são geneticamente vulneráveis”, disse ao Medscape o autor, Dr. Andrey Rzhetsky, Ph.D., professor de medicina e genética humana da University of Chicago, nos EUA.

Os achados foram publicados on-line em 20 de agosto no periódico PLOS Biology.

Uma mistura complexa

A hereditariedade explica o desenvolvimento de transtornos psiquiátricos em grande parte, mas “nunca é 100%”, e é cada vez mais evidente que os fatores ambientais desempenham um papel importante, disse o Dr. Andrey.

A poluição do ar é uma mistura complexa de materiais particulados minúsculos, gases, metais e contaminantes orgânicos gerados pela erosão natural de pedras e materiais feitos pelo homem, emissões provenientes de veículos, da atividade industrial e de incêndios.

Já existem evidências de estudos em humanos, animais e in vitro de que a poluição do ar pode chegar ao cérebro, e que está envolvida na etiologia de transtornos neurológicos e psiquiátricos.

Para o estudo atual, os pesquisadores realizaram duas análises, uma usando dados dos EUA e a outra da Dinamarca.

Era impossível ter o mesmo desenho para os dois conjuntos de dados, disse o Dr. Andrey, posto que os dois países têm culturas diferentes e diferentes sistemas de saúde, informações populacionais e monitoramento ambiental.

Análise dos dados dos EUA

Para a análise dos dados dos EUA, os pesquisadores usaram o banco de dados de seguros de saúde IBM MarketScan, que inclui pedidos de pacientes internados e ambulatoriais, procedimentos médicos e medicamentos prescritos de mais de 151 milhões de pacientes, no período de 2003 a 2013.

As análises incluíram a qualidade do ar, da água e do solo (por exemplo, elementos químicos no solo) e o ambiente “construído” (por exemplo, trânsito de automóveis, acesso ao transporte público e segurança dos pedestres).

Para quantificar a poluição do ar, os pesquisadores usaram o índice de qualidade do ar da Environmental Protection Agency, que é uma medida consolidada de 87 potenciais poluentes do ar. O Dr. Andrey explicou que, para essa análise, os pesquisadores realizaram medições da qualidade do ar em apenas um ponto no tempo e no nível dos condados onde foram coletados dados.

Os pesquisadores transformaram os preditores ambientais em 7 percentis, com Q1 indicando a melhor qualidade e o Q7 a pior qualidade.

Esta análise avaliou quatro doenças psiquiátricas (TAB, depressão maior, transtorno de personalidade e esquizofrenia) e duas doenças neurológicas (doença de Parkinson e epilepsia). As doenças neurológicas foram utilizadas como controle e “não esperávamos encontrar uma associação”, disse o Dr. Andrey.

Os resultados mostraram que, comparada com a melhor qualidade do ar, a pior qualidade do ar estava associada a um aumento de cerca de 27% na taxa de prevalência de transtorno bipolar (intervalo de confiança, IC, de 95% de 15% a 40%; P < 10-4).

Para depressão maior, houve um aumento de 6% na taxa de prevalência comparando as regiões com a pior e a melhor qualidade do ar.

Os dados dos EUA também mostraram uma correlação entre transtorno de personalidade e poluição do solo, mas não com a poluição do ar.

Não houve associação entre a má qualidade da água ou o ambiente “construído” e doenças psiquiátricas, nem entre qualquer tipo de poluição e epilepsia ou doença de Parkinson.

Exposição infantil

Para a análise dinamarquesa, os pesquisadores usaram registros nacionais de tratamento e poluição que incluíam mais de 1,4 milhão de pessoas nascidas entre 1979 e 2002 e que moravam na Dinamarca ao completar 10 anos de idade.

Eles estudaram a associação entre a exposição infantil à poluição do ar e os mesmos quatro transtornos psiquiátricos incluídos na análise dos EUA, mas não avaliaram as doenças neurológicas.

Os pesquisadores realizaram uma análise dos principais componentes em 14 indicadores de qualidade do ar para obter uma medida consolidada da exposição à poluição. Mais uma vez eles transformaram essa exposição em percentis, com Q1 representando a menor exposição e Q7 a exposição mais alta.

Com os registros dinamarqueses, os pesquisadores foram capazes de acompanhar os movimentos de cada pessoa ao longo do tempo e acessar dados históricos de poluição a cada área de 1 km por 1 km. Isso permitiu que eles estimassem a exposição à poluição do ar no nível individual, que é “muito mais preciso” do que a exposição no nível dos condados usada na análise dos EUA, disse o Dr. Andrey.

Os resultados mostraram que a taxa de todos os quatro transtornos psiquiátricos aumentou de acordo com o aumento dos níveis de exposição à poluição do ar. A associação mais forte foi para transtorno de personalidade, com um aumento de 162% (IC 95% de 142% a 183%; P < 2 × 10-16) na taxa da categoria Q7 em comparação com a categoria Q1.

Para o TAB, a taxa estimada foi 24,3% maior no grupo Q7 versus o grupo Q1.

Poluentes sob suspeita

As subanálises incluíram uma “correção para dependência espacial”, que levou em consideração a proximidade entre os condados nos EUA que podem ter ambientes compartilhados e uma “harmonização” dos dois conjuntos de dados.

Essas análises adicionais geralmente confirmam os achados principais, segundo os autores do estudo.

O mecanismo mais provável pelo qual os poluentes causam doenças psiquiátricas é através da neuroinflamação. “Temos muitas evidências disso em estudos com animais, por exemplo, em cães, e informalmente em humanos”, disse o Dr. Andrey.

Os pesquisadores disseram que é impossível identificar poluentes aéreos específicos que possam causar doenças mentais; é provável que múltiplos poluentes contribuam para os efeitos negativos no sistema nervoso humano de maneira aditiva ou sinérgica.

No entanto, existem “algumas suspeitas”, incluindo pequenas partículas ambientais, que podem entrar nos pulmões e na corrente sanguínea ou atravessar a barreira hematoencefálica”, disse o Dr. Andrey. “Elas também podem passar pelo sistema olfativo e atingir o cérebro, o que é uma via mais direta, dado que temos neurônios olfativos no nariz”, acrescentou.

Ele tem certeza de que ao interromper a neuroinflamação é possível reverter os sintomas psiquiátricos.

No entanto, isso precisa ser confirmado, o que pode ser difícil. Dr. Andrey explicou que os ensaios clínicos não podem ser realizados porque é “completamente antiético” expor os indivíduos a más condições ambientais para fins científicos.

Possibilidade intrigante

Em um editorial que acompanha o estudo, o Dr. John P. A. Ioannidis, médico e diretor do Prevention Research Center, Stanford University, e diretor do Meta-Research Innovation Center, ambos nos EUA, escreveu que uma associação causal entre poluição do ar e doenças mentais é uma “possibilidade intrigante” e que o estudo publicado é uma contribuição valiosa para esta área de pesquisa.

Os pesquisadores “ofereceram uma análise exploratória brilhante, com dicas interessantes para gerar hipóteses para o transtorno afetivo bipolar e possivelmente outros diagnósticos psiquiátricos”, escreveu o Dr. John.

Mas ele citou algumas limitações do estudo, como o fato de que as “amostras enormes” não garantem a sua validade.

“A análise de big data pode tirar conclusões absurdas devido a deficiências básicas na qualidade dos dados”, escreveu ele. “O banco de dados dos EUA é aproximadamente 100 vezes maior, mas o dinamarquês é de melhor qualidade”.

Outras diferenças notáveis são as variações entre os conjuntos de dados em medições de exposição e o número de variáveis usadas para definir a poluição do ar.

Além disso, a força das associações observadas é “modesta”; embora os tamanhos de efeito sejam maiores nos dados dinamarqueses, eles nunca alcançam riscos relativos > 3, explicou o Dr. John.

“No entanto, isso não é necessariamente uma fraqueza. Discute-se que a maioria dos efeitos causais verdadeiros são modestos ou mesmo pequenos; efeitos muito grandes podem simplesmente apontar para erros e vieses”, escreveu ele.

Os pesquisadores também “parecem interpretar seus resultados como sendo replicáveis em outros países”, ele escreveu. “No entanto, com exceção do TAB, as estimativas pontuais são surpreendentemente diferentes entre os EUA e a Dinamarca, e os intervalos de confiança de 95% nem se sobrepõem”.

Seria útil ter análises conduzidas por outros pesquisadores, incluindo aqueles que são “céticos” quanto a associação da poluição do ar e saúde mental, concluiu o Dr. John.

Achados sobre o transtorno afetivo bipolar são “notáveis”

Em seus comentários sobre o estudo para o Medscape, Dra. Elizabeth Haase, médica do Carson Tahoe Health, nos EUA, e membro do American Psychiatric Association’s Caucus on Climate Change, disse que o estudo era interessante e que as ilustrações foram particularmente impressionantes.

“Apenas os mapas, mostrando a distribuição dos transtornos do humor e da esquizofrenia nos Estados Unidos e a distribuição de ambientes saudáveis de diferentes tipos, já são fascinantes”, disse a Dra. Elizabeth, que não participou da pesquisa.

Ela concordou com o Dr. John que a análise dinamarquesa é “um pouco mais limpa” do que a dos EUA, em parte porque levou em conta a exposição à poluição na infância. A neuroinflamação precoce, ou dano genético na infância, podem ser um fator de risco significativo para o desenvolvimento de uma doença, disse ela.

Dra. Elizabeth também ficou impressionada com a forma como os dados dinamarqueses mediram a exposição à poluição do ar “em menos de 1 km, em vez de todo o condado, o que é muito mais específico”.

Ela acrescentou que era “notável” que os resultados do transtorno afetivo bipolar fossem tão consistentes. Ela disse que, até agora, não houve estudos sobre TAB e poluição do ar. “Este é um grande déficit nesta área”, disse ela.

Dra. Elizabeth salientou que existem formas de controlar a poluição do ar que poderiam diminuir a neuroinflamação. Como a produção de energia limpa, o controle de poluentes industriais e a redução do uso de combustíveis fósseis.

Há “evidências muito claras” de que as doenças se tornaram menos graves em áreas dos Estados Unidos onde as usinas de carvão foram fechadas, disse ela.

Fonte: Medscape

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