Pesquisadores buscam resolver impasse sobre hipoglicemia idiopática com monitoramento

O monitoramento contínuo da glicose (MCG) pode detectar valores glicêmicos que correspondem aos sintomas de hipoglicemia descritos em pessoas sem diabetes, conclui um pequeno estudo-piloto.

Acredita-se que o trabalho seja o primeiro a usar a moderna tecnologia do monitoramento contínuo da glicose para abordar o antigo e controverso fenômeno da hipoglicemia como uma doença por si só em pessoas sem diabetes.

Os resultados foram publicados on-line no periódico Journal of Clinical & Translational Endocrinology pela Dra. Morgana Mongraw-Chaffin, Ph.D., professora assistente de epidemiologia e prevenção na Wake Forest School of Medicine, nos Estados Unidos, e colaboradores.

A hipoglicemia na ausência do diabetes, também conhecida como hipoglicemia reativa, pós-prandial ou idiopática, é uma queixa comum entre as pessoas – geralmente mulheres jovens – que buscam atendimento médico. Um estudo britânico de 2006 estimou que 38% das mulheres sem diabetes apresentam sintomas de hipoglicemia.

No entanto, não existem critérios diagnósticos padronizados ou diretrizes de tratamento para este quadro. De fato, a própria existência da doença é questionada há décadas e foi ostensivamente considerada “não doença” em um artigo publicado em 1974 no periódico New England Journal of Medicine.

O novo estudo avaliou apenas oito pacientes – todas mulheres jovens que relataram sintomas como tremores, tonturas, cefaleia e irritabilidade atribuídas à hipoglicemia sérica – e não teve grupo de controle, portanto, está longe de ser conclusivo.

No entanto, ao usar um dispositivo de monitoramento contínuo da glicose por uma semana (tendo sido cegadas para as medidas) todas as participantes apresentaram glicemia < 70 mg/dL (a metade das pacientes apresentou glicemia < 54 mg/dL) – correspondendo aos sintomas relatados.

Em 2017, o ponto de corte de 54 mg/dL para hipoglicemia para notificação em ensaios clínicos foi determinado pelo International Hypoglycemia Study Group , tanto por apresentar “perigo imediato e de longo prazo para a pessoa” quanto porque, segundo o grupo, valores abaixo de 54 mg/dL “não ocorrem em condições fisiológicas em indivíduos não diabéticos”, observam Dra. Morgana e colaboradores.

Sintomas levam a comportamento obesogênico

Uma questão preocupante foi que todas as participantes do estudo também relataram comportamento obesogênico para evitar os sintomas.

“Independentemente de esses sintomas estarem associados aos valores de glicose – e estamos descobrindo que estão –, essas mulheres estão comendo entre as refeições e evitando fazer exercícios para não ter os sintomas. Diante da atual epidemia de obesidade, seria muito útil ajudar qualquer grupo de pessoas em nossa população a evitar a obesidade”, disse a Dra. Morgana ao Medscape em uma entrevista.

Além disso, ela destacou: “Alguns médicos não acreditam que isso exista e dizem aos pacientes que não há nada errado, assim, estes pacientes recorrem a fontes alternativas de informação e orientação, e estas fontes podem não ser baseadas em evidências.”

Novos dados usando o monitoramento contínuo da glicose são importantes, disse a Dra. Morgana, porque estudos anteriores sobre este quadro foram realizados há décadas e normalmente usam testes orais de tolerância à glicose realizados em laboratórios, e não em ambientes do mundo real.

“É incrível a quantidade de ideias que podemos ter quando revisitamos questões antigas com o amparo de novas tecnologias”, observou ela.

O quão comum é a hipoglicemia em pessoas sem sintomas (ou diabetes)?“É um estudo interessante, mas não acho que seja definitivo”, disse a Dra. M. Sue Kirkman, professora de medicina e diretora médica da Unidade de Ensaios Clínicos do Centro de Tratamento de Diabetes, University of North Carolina School of Medicine, nos EUA, ao ser solicitada a comentar.

Ela citou os estudos mais antigos, que usaram níveis de glicemia dosados em laboratório em pessoas pareadas por idade e sexo, com e sem sintomas de hipoglicemia, e que não apresentavam diferença nos níveis de glicose.

“Isso não significa que os sintomas estejam ‘na cabeça’ dos pacientes, mas que talvez as pessoas estejam reagindo a outra coisa além do nível absoluto de glicose. O estudo em tela teria sido mais forte se os autores também tivessem analisado um grupo de controle de mulheres jovens sem os sintomas. Eles poderiam ter encontrado níveis semelhantes de glicose”, afirmou a Dra. Sue.

A médica acrescentou que a glicemia < 70 mg/dL e até mesmo < 50 mg/dL “pode ser encontrada em pessoas normais, principalmente em mulheres jovens. Quando procuramos um insulinoma e orientamos jejum de 72 horas, por exemplo, não interrompemos o jejum e coletamos os exames laboratoriais até que a glicose no sangue, de acordo com o laboratório, esteja < 55 mg/dL nos homens, e alguns protocolos dizem que deve ser < 45 mg/dL nas mulheres”.

Ela concordou que esses sintomas podem reduzir a qualidade de vida, mas disse que “parte deles está relacionada com o medo de que algo terrível esteja acontecendo ou que eles tenham hipoglicemia que coloque em risco a vida. Alterações na dieta – não os lanches obesogênicos, que muitas vezes se tornam um ciclo vicioso, mencionado pelas participantes do estudo – e uma postura tranquilizadora são muitas vezes realmente úteis”.

“Este estudo, sem grupo de controle, não prova que existe patologia quanto aos níveis de glicose.”

“É mais provável que essas mulheres tenham níveis de glicose dentro dos limites da normalidade e o que realmente precisamos fazer é ajudá-las com os sintomas e ansiedade, e reconhecer que o normal é uma faixa mais ampla do que definimos em pessoas com diabetes”, explicou ela.

A hipoglicemia identificada correspondeu aos sintomas

As oito mulheres analisadas tinham entre 18 e 35 anos de idade (média de 29 anos) e não tinham diabetes. Seis eram brancas e duas eram negras; seis tinham peso normal e duas eram obesas.

No questionário de inscrição, os sintomas mais comuns relatados – no mínimo três horas desde a última refeição – foram: fadiga e irritabilidade, seguidos por fraqueza, tontura e palpitação. Dificuldade de concentração, visão turva, tremor e fraqueza também foram relatados.

Cinco das oito participantes disseram que os sintomas limitavam a capacidade de fazer o que queriam ou diminuíam a qualidade de vida. Todas os oito relataram ter alterado seu comportamento em resposta aos sintomas, incluindo mudado o horário das refeições ou lanches entre as refeições, mesmo não estando com fome. Três das oito disseram que evitavam a prática de exercícios físicos devido aos sintomas ou para evitá-los.

Elas usaram um MCG Dexcom G4 por sete dias, com uma média de 1.994 (1.767 a 2.799) valores de glicose medidos por participante. A hipoglicemia foi classificada como glicemia < 70 mg/dL ou < 54 mg/dL persistindo por pelo menos 15 minutos ou por três leituras consecutivas contínuas da glicose.

Durante o estudo, três participantes relataram apresentar sintomas diariamente, duas relataram sintomas quatro vezes por semana e duas apresentaram sintomas duas vezes por semana.

Todas as participantes tiveram os valores de glicose < 70 mg/dL, sendo que a metade (quatro participantes) teve valores < 50 mg/dL, “o valor considerado como ‘o limiar glicêmico não diabético genérico para comprometimento da função cognitiva'”, disseram os autores, citando novamente o International Hypoglycemia Study Group .

As participantes que apresentaram hipoglicemia definida como < 54 mg/dL tiveram média de 1,75 dias com pelo menos um episódio de glicose abaixo desse nível. O número médio de dias com leituras mínimas < 70 mg/dL foi 3,4 dias. O tempo médio entre a última refeição e o início dos sintomas foi 4,4 horas.

A razão de chances (odds ratio, OR) para ocorrência dos sintomas foi de 1,15 (P = 0,001) para cada 5 mg/dL de valor mínimo de glicose, ajustado para idade, raça e índice de massa corporal.

Os níveis de insulina não foram medidos, mas é improvável que alguma dessas mulheres tivesse insulinoma, dada a raridade dessa patologia (cerca de 1 a 4 casos por milhão de pessoas) e o fato de que a hipoglicemia em jejum é mais característica dos insulinomas, disseram os autores.

“Um ponto de partida, não um desfecho”

A Dra. Morgana disse ao Medscape que ela e seus colaboradores planejam estudar a questão em uma população maior e mais diversa – incluindo homens – e inscrever um grupo de controle para obter dados normativos. Eles também pretendem desenvolver critérios diagnósticos preliminares e acompanhar os participantes para registrar sua saúde ao longo do tempo.

Atualmente, eles têm duas novas verbas sob revisão para pesquisa no assunto. “Estamos muito cientes das críticas sobre este estudo. Ele é um ponto de partida, não um desfecho”, disse ela.

Fonte: Medscape

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