Pesquisador explica sobre 'efeito dominó benéfico' após vacinação em massa contra Covid


 
 

O médico infectologista Carlos Fortaleza, que é professor da Unesp e coordenador da pesquisa sobre a efetividade da vacina Oxford/AstraZeneca em Botucatu (SP), falou sobre os resultados positivos e preliminares das ações de vacinação em massa que começaram a aparecer nas duas últimas semanas.


Nesta sexta semana após a primeira vacinação em massa realizada no dia 16 de maio, quando mais de 66 mil pessoas foram imunizadas, a cidade registrou uma queda de 71% na média diária de novos casos de Covid-19. A média passou de 140 novos casos por dia para 40.

Segundo o pesquisador, a queda segue a expectativa inicial de que a partir da segunda quinzena de junho, os registros de novos casos iriam começar a cair.

“Nós temos vários modos da vacina agir, quando falamos em 70% é em relação à doença sintomática. Então, claro que uma pessoa com quadro leve e com sintomas quase imperceptíveis pode ser que ocorra mesmo na vigência da vacina." "Mas a vacina, sim, diminuiu a transmissão do vírus. Ela, sim, diminui a circulação e esse impacto coletivo vai dar uma melhora como um efeito dominó benéfico. Nós começamos a ter menos transmissão, menos casos, menos internações e, por fim, menos mortes.” Ainda segundo o infectologista, essa melhora no quadro de transmissão da doença já tem se refletido nas unidades de saúde.

“A enfermaria de infectologia do HC é uma das várias enfermarias Covid que tem na cidade. Há três semanas nós tínhamos 18 pacientes em quadro de UTI aguardando vaga, hoje nós temos 6 e nenhum aguardando vaga de UTI. Isso é uma situação melhor a olhos vistos. Não é a única enfermaria Covid. Precisamos atualizar a situação nas outras, mas é mais uma das indicações de que a nossa vacinação tem tido sucesso.” Essa redução nos casos de internação também foi apontada pela prefeitura de Botucatu, segundo dados da Secretaria de Saúde. No dia 9 de junho eram 92 moradores de Botucatu internados e agora são 50, sendo uma queda de quase 46%. “Na medida que você tem menos casos graves, ou seja, aquela pessoa que se contamina, ou é mais assintomática ou tem quadros leves e fica mais em casa, sem a necessidade de hospital, ou se for internada ela consegue resolver o seu quadro em um leito de enfermaria, sem a necessidade de UTI e ser intubada. Então naturalmente, quando você tem menos casos graves, menos gente precisando de ventilação mecânica, isso fatalmente vai levar a uma redução da mortalidade”, destaca o secretário de Saúde, André Spadaro. Os resultados preliminares também foram destacados pelo Ministro da Saúde, Marcelo Quiroga. Em um vídeo enviado à TV TEM, Queiroga se mostrou confiante com a pesquisa e aponta a vacina como forma de conter a pandemia de coronavírus. "A queda de 71% dos casos de Covid após a primeira dose da vacina AstraZeneca, verificada na pesquisa realizada em Botucatu, é uma prova inequívoca da eficácia da vacina e que, na medida em que caminhamos na vacinação, é possível conter o caráter pandêmico da doença." Somente na última semana, fechada no sábado (26), essa média ficou em 40 casos por dia, contra 73 registros na semana anterior, uma queda de 45%. No acumulado entre a quinta e sexta semana após a vacinação em massa, quando começou a ser registrada a queda de casos, a redução foi de 71,3%. 81% da população com a 1ª dose Pesquisadores que acompanham o estudo de efetividade da vacina veem essa queda pela segunda semana consecutiva já como reflexo da primeira dose da Oxford/AstraZeneca, mas o acompanhamento dos números pode reforçar essa relação.

O uso de máscara e distanciamento devem continuar sendo respeitados. A segunda dose está prevista para agosto.

Botucatu está em primeiro lugar no número de doses aplicadas no estado de São Paulo, segundo dados do Vacinômetro. Dos cerca de 148 mil habitantes, 120.405 receberam a primeira dose, cerca de 81% da população geral. A população adulta, porém, está basicamente toda vacinada, segundo a prefeitura.

Na última quarta-feira (23), pela primeira vez desde o início da pandemia, o Hospital do Bairro, que tem dez leitos de emergência para pacientes com Covid-19, não registrou nenhuma internação. Já o Hospital das Clínicas segue com alta ocupação (105% até o último sábado), mas a unidade é referência e atende pacientes de 68 municípios da região.

O estudo inédito de efetividade da vacina Oxford/AstraZeneca avalia também as cepas do coronavírus. Estudo da AstraZeneca A vacinação em massa em Botucatu faz parte do projeto de estudo da vacina produzida pelo laboratório AstraZeneca, Universidade de Oxford e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), elaborado pela parceria entre a prefeitura, Ministério da Saúde, Governo Federal, Unesp, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu, e Fundação Gates.

Desde o dia 16 de maio, que foi chamado de dia D da vacinação em massa, quando mais de 66 mil pessoas foram vacinadas em uma estrutura igual a usada nas eleições, a cidade vem realizando ações para imunizar toda a população adulta, entre 18 e 60 anos, como parte do estudo, exceto as grávidas que só podem receber doses da Coronavac ou da Pfizer.

No dia 22 uma nova vacinação em massa foi realizada. Mais de 8 mil pessoas se cadastraram para receber o imunizante e pouco mais de 5 mil doses foram aplicadas. Também foram feitas vacinações para estudantes da Unesp e de moradores da zona rural.

No dia 11 de junho, terminou a última etapa para vacinação das pessoas que não foram imunizadas nessas ações. Uma triagem foi feita durante toda a semana, do dia 7 ao dia 11, de pessoas que se cadastraram no site da prefeitura e receberam as orientações via SMS para uma nova avaliação de documentos para poder receber a dose da vacina.

Todo o processo de cadastro e vacinação em Botucatu tem o acompanhamento e auditoria realizados pelas Forças de Segurança do Município (Guarda Civil Municipal, Polícia Civil e Polícia Militar), OAB Botucatu, Justiça Eleitoral, Ministério Público e Tribunal de Justiça de São Paulo. Sequenciamento genético Após receber a vacina, o morador de Botucatu deve assinar um termo para autorizar, em caso positivo de Covid-19 depois da aplicação, os procedimentos para fazer o sequenciamento genético do vírus.

Essa análise do material genético de testes positivos é a principal ferramenta do estudo de efetividade. É com o sequenciamento genético que os cientistas vão descobrir se a vacina consegue reduzir tanto os casos graves da doença quanto a transmissão das variantes. Para autorizar, é simples e seguro: basta assinar um documento. Esse tipo de termo é comum em pesquisas e foi aprovado pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), órgão que monitora e fiscaliza a aplicação de políticas públicas do SUS. O termo garante sigilo dos dados que só vão ser registrados pelos cientistas.


Fonte: G1

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