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Pesquisa Genial/Quaest: mais de 50% dos brasileiros não fazem nenhuma atividade física (o índice entre as mulheres é pior)

Nas redes sociais, a sensação é que todos praticam algum exercício físico. Corrida de rua, academia, natação, pilates, yoga, a lista de atividades cresce junto ao boom da cultura “wellness” e conteúdos que priorizam a busca por desempenho e pelo corpo ideal. Fora das telas, porém, a realidade no Brasil é outra: mais de 50% das pessoas sequer praticam atividade física.


É o que mostra uma nova pesquisa Genial/Quaest conduzida entre os dias 6 e 9 de março com 2.004 brasileiros de 16 anos ou mais, por meio de entrevistas domiciliares presenciais. Os participantes selecionados foram representativos da população do país. A pesquisa tem uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.


Somente 47% relatam que a prática de atividades físicas faz parte da rotina. Para 13%, a frequência é diária, enquanto outros 13% afirmam se exercitar “quase todos os dias”. Já 21% destinam um tempo para os exercícios somente em “alguns dias da semana”, e mais da metade (53%) não realiza qualquer atividade.


O percentual dos que não praticam exercício é ainda maior na região Nordeste (62%), entre mulheres (59%), pessoas que completaram apenas o ensino fundamental (65%), com renda de até dois salários mínimos (64%) e entre 35 a 59 anos e com 60 anos ou mais (57% e 56%). Por outro lado, entre aqueles com ensino superior e renda acima de cinco salários mínimos, o número de sedentários é significativamente mais baixo: 43% e 38%, respectivamente.


Os resultados estão alinhados à última edição da pesquisa Vigitel, feita nas capitais brasileiras pelo Ministério da Saúde. Segundo a publicação, em 2024, somente 42,3% dos adultos relatavam a prática de atividade física, percentual que melhorou em relação a 10 anos antes, quando era de 34,9%, mas que permanece baixo.


Os dados da Vigitel também apontam que o gênero, a renda, a escolaridade e a faixa etária são fatores que influenciam significativamente a adesão. Para Bruno Gualano, professor e presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Universidade de São Paulo (USP), os números mostram que há uma desigualdade no acesso à atividade física, e que a adesão vai muito além de querer ou não se exercitar:


— Há um discurso, sobretudo nas redes sociais, de que quem não faz exercício físico é preguiçoso, indisciplinado, vagabundo. Mas a questão é muito mais de falta de acesso. A literatura científica mostra que o contexto, o ambiente, molda a adesão ao exercício. Se você mora numa região que tem parque, praça, mais iluminação, calçadas, a sua chance de ser ativo é maior. Esse ambiente construído importa, mas também as condições de segurança, por exemplo, para se exercitar na rua, o que é ainda mais importante no contexto do gênero.


Pedro Henrique Deon, professor da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), onde coordena o Centro do Movimento, acrescenta que há uma barreira concreta na rotina da maioria dos brasileiros, em que “falta tempo, sobra cansaço, e a atividade física acaba ficando para depois”:


— No Brasil, isso aparece de forma ainda mais clara quando a gente vê que a prática é menor em grupos socialmente mais vulneráveis, como pessoas com menor escolaridade e menor renda. Então, não é só uma escolha individual, é também uma questão de oportunidade.


No mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 31% da população mundial adulta, o que corresponde a 1,8 bilhão de pessoas, são consideradas inativas fisicamente, ou seja, não alcançam o mínimo recomendado pela autoridade sanitária. O percentual subiu 5 pontos percentuais entre 2010 e 2022.


A OMS orienta de 150 a 300 minutos de atividade física moderada ou de 75 a 150 minutos de atividade física vigorosa por semana. Especialistas explicam que uma boa forma de medir a intensidade do exercício é identificar se é possível manter uma conversa durante a sua prática. Se a resposta for sim, então ele é moderado.


— Tudo influencia o nosso comportamento. Em lugares mais quentes, é mais difícil se exercitar, em regiões mais frias também. Mas via de regra os países mais pobres tendem a ter uma adesão à atividade física de lazer muito baixa, inferior a 10%. Nesses lugares, o movimento é principalmente no deslocamento e no trabalho manual. Nos países mais ricos, as pessoas têm mais tempo de lazer e, consequentemente, conseguem fazer mais exercício físico — explica o professor da USP.


Se a tendência continuar, a OMS projeta que 35% da população adulta deverá ser inativa até 2030. E o custo desse percentual para os sistemas públicos de saúde é alto: cerca de US$ 300 bilhões, aproximadamente US$ 27 bilhões por ano, entre 2020 e 2030 caso os níveis não melhorem.


— Depois da pandemia, houve uma mudança de comportamento no cuidado com a saúde. As pessoas passaram a falar mais sobre prevenção, qualidade de vida, saúde mental e bem-estar. Isso foi positivo. Só que, ao mesmo tempo, a pandemia também deixou uma herança de rotina mais sedentária, mais tempo sentado e mais dificuldade de retomar hábitos regulares. Então hoje existe mais consciência, mas isso ainda nem sempre se transforma em prática — avalia Deon.


Para os especialistas, o cenário de desigualdade reforça o papel do poder público em promover formas mais acessíveis de garantir o acesso à atividade física, que vão desde a criação de espaços públicos para se exercitar, como academias populares, até medidas estruturais, como de maior segurança pública e tempo para lazer.


— Quando falamos em escala de trabalho, por exemplo, estamos falando de mais tempo que o indivíduo pode usar para praticar atividade física. Essas são todas questões que estão muito interligadas — diz Gualano.


Paradoxo do mundo ‘wellness’


Os números podem surpreender quem está imerso nas redes sociais, onde há uma cultura crescente de “wellness” que promove rotinas repletas de atividade físicas e outras medidas para o bem-estar. No entanto, para os especialistas, esses conteúdos muitas vezes propagam objetivos que estão fora da realidade da maior parte da população do país, criando uma mentalidade de “tudo ou nada”.


— É uma contradição. Uma parte importante da população não consegue incluir o básico do movimento na rotina. Do outro, cresce uma cultura muito ligada à performance, à estética e a metas difíceis. Ou a pessoa treina muito, com disciplina e resultado visível, ou sente que não está fazendo o suficiente. E isso é ruim, porque afasta justamente quem mais precisa começar. Quando a mensagem que circula é de cobrança excessiva, rotina perfeita e alta performance, muita gente se frustra antes mesmo de começar — diz o professor da PUC-RS.


Para os especialistas, é importante resgatar uma visão mais realista e mais saudável da atividade física, de menos punição e comparação, e mais constância. Gualano, no entanto, lembra que há toda uma indústria que busca a direção oposta para promover a venda de suplementos, que na maioria das vezes nem mesmo são necessários, além de medicamentos para perda de peso e anabolizantes, por exemplo:


—A indústria fitness passa uma mensagem que você precisa atingir um nível de atividade física para ter saúde que na realidade é muito além do que o que a ciência nos mostra que é necessário. Isso gera uma pressão psicológica muito grande nas pessoas. E frustração, porque estabelece metas que dificilmente serão alcançadas se você tem uma vida normal, com um emprego, estudo, filhos, orçamento restrito.


Fonte: O Globo

 
 
 

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