Pacientes e equipes de saúde vivem drama com superlotação de hospitais no DF


 
 

Mais de 333 mil pessoas foram infectadas e 5.553 morreram pela covid-19, no Distrito Federal, desde o início da pandemia. A taxa de transmissão do vírus é de 0,99, e a capital do país atingiu um novo recorde de média móvel de mortes: 49,57 — a maior, até então, havia sido em 21 de agosto de 2020, com 43. Diante desse cenário, com mais de 90% de ocupação das unidades de terapia intensiva (UTIs) voltadas para o tratamento da doença, a situação no sistema de saúde é dramática. O Correio conversou com profissionais que denunciam falta de insumos, superlotação e pessoas morrendo à espera de uma vaga.


Foram 1.195 novos casos e 50 mortes pela doença registradas, de acordo com o boletim da Secretaria de Saúde, em 24 horas — 16 só na quarta-feira (24/3). Por volta das 15h30, a ocupação de leitos de UTI na rede pública chegou a 96,71% e, na rede particular, a 97,13%. O Hospital Regional da Asa Norte (Hran), unidade referência para tratamento da doença, opera com 100% da capacidade. Uma médica que trabalha na unidade e que prefere não se identificar conta que existem pacientes com necessidade de apoio de uma UTI sendo atendidos no pronto-socorro e em outras alas. “Temos pacientes graves em cadeiras. Muita gente tem morrido sem ao menos conseguir um leito de UTI, porque estamos lotados. Faltam itens como remédio para intubação e luvas”, relata a profissional. A Secretaria de Saúde nega mortes na fila da UTI.


Além disso, os pacientes que procuram o Hran não conseguem ser atendidos. A ajudante de cozinha Rosana Oliveira, 46 anos, foi diagnosticada com a covid-19 há duas semanas. Ela procurou o hospital em busca de tratamento para diminuir as dores, mas não conseguiu. “Estão atendendo só casos muito graves. Dá medo, porque você procura uma ajuda, está precisando e vê que tem pessoas que estão precisando bem mais do que você. Muita gente na fila, alguns sentados, outros deitados. É assustador”, diz.


Em outras unidades, a situação é semelhante. O pai da técnica de enfermagem Adriana Fernandes, 21, diagnosticado com covid-19, passou 11 dias internado no Hospital Regional de Samambaia (Hrsam), com 25% do pulmão comprometido, aguardando por um leito de UTI, já que não havia vagas na unidade. Adriana e familiares faziam uma vigília diária na entrada do hospital, atrás de notícias. “Se a gente não vem, eles não falam nada. A gente vem pela manhã, pela noite e pedimos informação”, diz.


Um médico que atua no Hospital de Base e em hospitais particulares conta que a escassez de insumos é uma preocupação constante. “Os itens como luvas, capotes, máscaras e toucas são coisas limitadas e usadas diariamente. Como os casos estão aumentando, sempre temos medo de que um dia acabe de vez”, diz o profissional que preferiu não se identificar. No Hospital Regional de Ceilândia (HRC), onde a equipe do Correio esteve, os profissionais da unidade relatam que no pronto-socorro há pessoas intubadas com covid-19, que o centro cirúrgico foi direcionado para esses pacientes infectados e que uma sala de cirurgia teria sido improvisada para os casos de emergência.


A Secretaria de Saúde informou que as informações relatadas pelas equipes são “improcedentes e absurdas”. Segundo a pasta, fora das UTIs, há apenas pacientes intubados nas unidades de cuidados intermediários (UCIs). O órgão distrital também negou que haja falta de insumos em qualquer unidade da rede pública.


Capacidade


Na terça-feira (23/3), nove pacientes morreram no Hospital Regional de Planaltina (HRPl) em razão da covid-19. Servidores afirmam que o hospital opera acima da capacidade. Na quarta-feira (24/3), até as 16h, duas mortes por covid-19 tinham sido registradas. Um dos óbitos foi de Ricardo Cândido Cardoso, 41. O empresário testou positivo há menos de um mês e começou a ter dificuldade para respirar em 9 de março. No Hospital Regional de Sobradinho (HRS), ele recebeu oxigenação, mas os médicos informaram que ele precisava com urgência de uma UTI.


Somente em 13 de março, conseguiu uma vaga no Hospital de Santa Maria. “Tivemos que pagar uma ambulância particular para que ele fosse transferido”, conta a monitora escolar Beatriz Soares, 26, prima de Ricardo. No dia 15, o empresário precisou ser intubado. “De segunda-feira (22/3) para terça (23/3), comunicaram que ele estava em estado gravíssimo. A ventilação mecânica estava a 95%”, relata Beatriz.


Nessa quarta-feira (24/3), por volta das 16h, segundo o Infosaúde, portal de transparência da Secretaria de Saúde, havia 403 pessoas à espera de uma UTI, sendo que 308 estavam com suspeita ou confirmação de infecção pela covid-19. Para atender à demanda, o Governo do Distrito Federal (GDF) pretende abrir mais 77 vagas nos próximos 15 dias. Nessa quarta-feira (24/3), o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF) abriu 20 leitos no Hospital de Base e informou que outros 10 para pacientes com outras doenças serão entregues nos próximos dias.


Números da covid-19 no DF

1.531 Média móvel de casos (5,27% maior que há 14 dias)

49,57 Média móvel de mortes (173% maior que há 14 dias)

0,99 Taxa de transmissão

Palavra de especialista

Diálogo com a população

Não estamos vendo uma perspectiva de melhora. São mais de mil casos novos todos os dias e não podemos tratar isso com normalidade. Por isso, acredito e defendo que as restrições ainda são necessárias para vermos uma redução da curva de casos e, aí sim, um cenário mais favorável. Sei que é difícil, mas esta é a única coisa que podemos fazer no momento.

A gente espera que o cenário das UTIs melhore nos próximos dias com mais abertura de leitos, mas o cuidado com essa doença vai além, pois temos que evitar que as pessoas fiquem doentes e precisem de UTI. Esse é o ideal. E, para isso, é necessário abrir um diálogo mais direto com a população para que todos entendam a importância dos cuidados de prevenção e respeitem as restrições impostas. Além disso, é essencial aumentar a cobertura vacinal, continuar abrindo leitos e monitorando o fornecimento de oxigênio. Apenas essas medidas combinadas poderão ocasionar uma melhora no atual cenário.

Walter Ramalho, professor de epidemiologia da Universidade de Brasília (UnB)


Fonte: Correio Braziliense

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